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Alfabetização e tecnologia

Cada vez mais escolas têm computadores e lousas digitais à disposição. Saiba como incluir esses e outros recursos no planejamento de atividades desafiadoras

POR:
Beatriz Santomauro

Lápis e papel. Houve uma época em que esses eram os utensílios disponíveis para escrever, tanto na escola como fora dela. Com o passar do tempo, as máquinas de datilografar, primeiro, e os computadores, depois, foram invadindo os mais diversos ambientes, mas não a sala de aula. Uma pena. Se equipamentos desse tipo fazem parte do dia a dia da maioria das pessoas, que os usam socialmente para redigir, não há porque ignorá-los em atividades de alfabetização. Felizmente, a tendência é que isso mude com a informatização das escolas. Há dez anos, 16% delas tinham computador para uso dos alunos e 12% contavam com acesso à internet - só na opção discada -, conforme dados do Ministério da Educação (MEC). Em 2012, eram 57% com micros para uso didático, 52% deles conectados à rede. O recurso deve chegar a todas as escolas nos próximos anos, razão para que você esteja preparado para usá-lo da melhor forma.

É preciso estar atento, porém, a um ponto: a presença da tecnologia não é garantia de aprendizagem. Não bastam laptops à disposição na sala, por exemplo, se eles só são usados para jogos - esses aplicativos certamente chamam a atenção da meninada, mas poucos proporcionam desafios e reflexões sobre a leitura e a escrita. Mesmo quem não sabe ler e escrever, acredite, pode enfrentar o computador em atividades com foco na alfabetização. Afinal, muitas crianças aprendem as letras em um teclado e todas podem usá-lo para grafar palavras da maneira que sabem, mesmo que não seja convencionalmente.

A argentina Ana Teberosky destaca no livro Contextos de Alfabetização Inicial (176 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 48 reais) que diante do teclado o aluno usa as duas mãos para digitar e, em vez de traçar grafias, deve escolher uma das opções para apertar: estão à disposição dele todas as letras possíveis para compor uma palavra (um conjunto finito com uma disposição diferente da alfabética). As peculiaridades continuam: o computador permite relacionar as letras impressas no teclado com as imagens que aparecem na tela e escolher formatos variados.

Os recursos tecnológicos não são a salvação para o déficit do conhecimento em leitura e escrita, conforme afirma Emilia Ferreiro, psicolinguista argentina radicada no México. Para ela, no entanto, com a ajuda deles ocorrem práticas que levam à alfabetização "que corresponde ao nosso espaço e tempo". No livro O Ingresso na Escrita e nas Culturas do Escrito (488 págs., Ed. Cortez, tel. 11/3611-9616, 65 reais), ela destaca algumas contribuições das tecnologias para o ensino: deixam mais acessível uma grande diversidade de textos (o que é essencial para alfabetizar), dão mais autonomia ao aluno (já que ele tem à disposição ferramentas que apontam falhas na escrita independentemente das indicações do professor, como corretores ortográficos) e reforçam a ideia de que professores ou livros didáticos não são a única fonte de informação.

"Com o bom uso da tecnologia, aliado aos outros recursos, a criança tem mais uma possibilidade de entrar em contato com os desafios dessa fase", afirma Nanci Folena Pereira Sousa, chefe da Seção de Laboratório e Educação Tecnológica da prefeitura de São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. As possibilidades são muitas. Nas páginas seguintes, apresentamos projetos didáticos e atividade permanente realizados com sucesso na pré-escola e no 1º ano, em que são usados programas como jogos, o Word e o PowerPoint, e equipamentos como a lousa digital e o Datashow, além da internet. Para que a turma cumpra bem os desafios e avance, você verá, o professor deve continuar realizando um planejamento cuidadoso e intervenções adequadas a cada momento. Os estudantes, por sua vez, seguem refletindo sobre o sistema de escrita, discutindo com seus pares e pedindo informações ao educador sempre que necessário. Enfim, uma alfabetização adequada aos dias de hoje.

Projeto didático  - Pesquisas em sites confiáveis da internet

A turma aprendeu com a professora como proceder para fazer uma pesquisa na rede. Ricardo Toscani. Ilustração Melissa Lagôa
A turma aprendeu com a professora como proceder para fazer uma pesquisa na rede

A professora Fabiana Falcão Lopes, da Escola Projeto Vida, na capital paulista, propôs que as crianças de 5 anos elaborassem uma enciclopédia sobre animais ameaçados de extinção. A primeira tarefa era para casa: pesquisar, com a família, sobre algumas espécies. De volta à sala, elas compartilharam as descobertas, mostrando livros ou cópias das páginas da internet. Algumas contaram que os pais escreveram no campo de busca do Google "animais ameaçados de extinção", mas que apareceram muitos resultados.

Fabiana, então, lançou duas perguntas: "Como fazer para encontrar os bichos que vivem apenas em algum país?" e "Para procurar um bicho específico, o que escrever?". Aos poucos, a turma concluiu que poderia incluir "do Japão" na busca sobre os animais ali encontrados e que digitando "onça" ou "mico-leão" os resultados seriam apenas sobre cada uma dessas espécies. "Assim, levei todos a pensar nos melhores procedimentos de pesquisa", diz Fabiana. Ela discutiu também a importância de selecionar os endereços acessados, mostrando que alguns são mais confiáveis e especializados do que outros.

Os pequenos escolheram os animais que tinham interesse em pesquisar: macaco-barrigudo, macaco-aranha, tartaruga-gigante, urso panda e rinoceronte. Combinaram focar o estudo em peso, altura, características físicas, hábitat, causa da extinção e reprodução para compor uma ficha técnica e o texto da enciclopédia. Todos foram para o computador da sala e ficaram ao redor da professora. Fabiana mostrava sua experiência como usuária do equipamento -- com o mouse e o teclado - e em procedimentos de pesquisa. "O professor deve apresentar quais sites serão consultados e ler para os pequenos. Na pré-escola, eles ainda não têm autonomia para realizar esse trabalho sozinhos e precisam de muitas orientações", afirma Débora Rana, coordenadora pedagógica de Educação Infantil da escola.

"Diante da tela, mesmo sem saber ler, eles encontravam os dados se apoiando em números, imagens e palavras que conhecem. Por exemplo, quando identificavam a grafia de ‘peso’ seguida de um número sabiam que aquilo significava o peso do animal." A educadora imprimiu as páginas com informações úteis sobre os cinco animais e leu o material em voz alta, marcando os dados mais importantes, indicados pela turma.

Em seguida, a professora dividiu a criançada em pequenos grupos de forma que seus integrantes tivessem conhecimentos variados. Ela circulava pela sala para orientar a turma sobre o que e como escrever, fazendo intervenções pontuais. "Eu ajudava: as informações técnicas não precisam ser decoradas. Às vezes, é necessário recorrer à fonte de pesquisa e relembrar o que foi visto. Vamos pegar o material e ver se o dado que procuramos foi sublinhado", diz. A primeira versão do texto foi revisada e ilustrada e compôs a publicação impressa com os 20 bichos pesquisados por todas as turmas da pré-escola.

Atividade permanente - Na lousa digital e no Excel, jogos desafiadores

Os alunos preencheram cruzadinhas com o nome dos colegas cujas fotos apareciam na tela. Ricardo Toscani. Ilustração Melissa Lagôa
Os alunos preencheram cruzadinhas com o nome dos colegas cujas fotos apareciam na tela

Camila Pazin coordena a sala de informática da EMEB Escritor Julio Atlas, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. "Eu e as professoras regentes fazemos um planejamento conjunto de acordo com as necessidades dos alunos do 1º ao 5º ano e os conteúdos que precisam ser trabalhados", explica. Para a sala de Eliana Holanda, do 1º ano, Camila propôs atividades permanentes de exploração dos nomes próprios. Entre as práticas que desenvolviam a leitura, uma tinha como objetivo ligar a foto de alguns alunos da sala ao seu nome usando o mouse. Noutra, o desafio consistia em identificar com uma cor, entre três nomes, o que correspondia à criança mostrada na foto.

Outras duas exploravam a escrita. Na primeira, a turma tinha de desembaralhar as letras dos nomes dos amigos usando o mouse. A segunda eram cruzadinhas, preenchidas ao digitar no teclado o nome dos colegas cujas fotos apareciam diante dos quadradinhos. "Quem ainda não tem domínio da escrita consegue fazer a tarefa usando as letras de alguns dos nomes para preencher outros ou pesquisando no cartaz da sala", diz Eliana. "A todo momento, os alunos precisam repensar o que fizeram", completa Camila.

"Usando o computador, os estudantes não perdem tempo com o que não é necessário. Não precisam apagar, rasurar ou sujar a folha e sobra mais tempo para pensar na escrita, que é o que importa", diz Nanci, da Seção de Laboratório e Educação Tecnológica de São Bernardo do Campo.

Já em Petrópolis, a 72 quilômetros do Rio de Janeiro, uma atividade permanente usando a lousa digital e seus aplicativos desafia o 1º ano de Ana Gabriela Saar Corrêa, da Escola Sesi. Ela montou um jogo da memória com personagens de histórias lidas pela turma. Nas duplas de cartas, "Penadinho" e "fantasma", por exemplo. "A ideia é que as crianças tentem ler palavras de um mesmo campo semântico. Essa característica facilita a antecipação do que pode estar escrito", explica.

Quando elas têm dúvidas, a professora chama a atenção para quais são a primeira e a última letras, dando mais elementos para a leitura. O jogo denuncia os erros - desvirando a carta escolhida, que fica disponível para uma próxima jogada. Para participar, uma dupla por vez vai até a lousa e toca na tela elegendo as cartas que considera as corretas até completar a partida. "Eu monto partidas com seis ou 12 pares de cartas para que haja diferentes níveis de complexidade", diz.

Projeto didático - PowerPoint funciona como apoio para seminários

As duplas escolheram fotos e escreveram legendas nos slides de apoio à apresentação. Ricardo Toscani. Ilustração Melissa Lagôa
As duplas escolheram fotos e escreveram legendas nos slides de apoio à apresentação

Observar o ateliê de artistas plásticos para conhecer os materiais utilizados e as obras produzidas por eles. Esse foi o foco do trabalho proposto pela professora Marcia Ferreira, da Escola Viva, na capital paulista, à turma de 1º ano. A sala foi dividida em dois grupos e cada um entrevistou um profissional. Para isso, todos contavam com um roteiro de questões preparado em conjunto pela sala anteriormente. Marcia e sua assistente, Camila Sampaio Lacerda Ferraz, ficaram responsáveis por fotografar os encontros. De volta à escola, uma equipe tinha de contar à outra o que tinha visto. Os registros das visitas, em forma de desenhos e textos, foram importantes numa etapa seguinte. "Como nem todas escreviam convencionalmente, eu atuava como escriba em alguns momentos e, em outros, eu só orientava ou tirava dúvidas", diz Marcia.

O próximo passo foi mostrar aos estudantes as fotos feitas e pedir que selecionassem as que melhor resumiam as visitas. Cada imagem foi legendada, em duplas, e ocupou um slide de um arquivo de PowerPoint. Esse momento gerou um desafio diferente se comparado ao que teria ocorrido se a tarefa tivesse sido feita no papel. "Quando as crianças escrevem no computador, percebem mais facilmente alguns pontos que precisam ser modificados, como a aglutinação das palavras ou a troca de letras", indica Dami Cunha, formadora do Instituto Avisa Lá e coordenadora pedagógica da Escola Santi, em São Paulo.

O material foi projetado em um telão, com a ajuda do Datashow, como apoio a uma apresentação oral. Uma dupla por vez falou aos colegas contando sua experiência nos ateliês. "Para evitar duplicidade de informações e garantir uma lógica na sequência das falas, nós compartilhamos no grupo os dados que seriam apresentados pelas duplas", explica Marcia.

As educadoras orientavam as duplas: "Se vocês forem descrever o material utilizado pelo artista, melhor mostrarmos a foto dos pincéis, não acham?" ou "Lembrem-se de que na hora de separar as palavras é preciso apertar a tecla do espaço no teclado" e "Prestem atenção nessa palavra. Com que letra ela termina?". Quando as crianças não tinham ideias sobre o que escrever ou precisavam completar alguma informação, retomavam os desenhos e os textos feitos logo após a visita. Como resultado, palavras nem sempre escritas de modo convencional (o que era esperado), mas textos sensíveis e com mensagens consistentes.

Concluída essa etapa do trabalho, chegou a hora de compartilhar as informações com todo o grupo. Diante da sala, as duplas se revezavam para falar aos colegas sobre o que tinham visto. "Essa foi uma das primeiras atividades delas no uso do computador, no registro de uma experiência e na apresentação oral. Um desafio grande, mas possível, em todas as etapas", diz Fabiana.

Projeto didático - Escrita e revisão facilitadas no Word e no PowerPoint

As crianças corrigiram o texto impresso e passaram as alterações para a versão digital. Ricardo Toscani. Ilustração Melissa Lagôa
As crianças corrigiram o texto impresso e passaram as alterações para a versão digital

Desde fevereiro, a turma de 1º ano da professora Miruna Genoino, da Escola da Vila, em São Paulo, realiza propostas de leitura e escrita no notebook, como listar as brincadeiras conhecidas. No início do segundo semestre, já estava preparada para uma tarefa mais complexa: reescrever Chapeuzinho Vermelho usando o teclado. Para que as crianças aprendessem como se faz uma reescrita, a primeira metade da história foi produzida coletivamente: elas ditavam e a professora digitava no computador, usando o Word. O texto era projetado em um telão por meio do Datashow para que todos acompanhassem.

Para completar o texto, a educadora formou duplas de acordo com as hipóteses de escrita. Os alunos se revezavam nas tarefas de ditar e digitar no PowerPoint utilizando o modo de apresentação - quando a tela fica em branco. Andréa Luize, coordenadora do Núcleo de Práticas de Linguagem da Escola da Vila, chama a atenção para o benefício do uso do computador em atividades como essa: "O texto digitado não depende do traçado de cada um, facilitando compreender o que está escrito. Além disso, é mais simples para duas crianças visualizá-lo juntas, na tela".

Terminada a primeira versão do texto, os estudantes a imprimiram e anotaram no papel os ajustes necessários, de acordo com os focos de revisão pré-combinados. Além de garantir que os fatos essenciais estivessem citados e que o nome dos personagens Chapeuzinho, Lobo Mau e Caçador estivessem escritos convencionalmente, deveriam prestar atenção na repetição das palavras. "Eles não estão preparados para enxergar todos os erros. É importante selecionar os pontos que devem receber mais atenção", diz Andréa.

Miruna escolheu algumas produções e as projetou no telão para discutir a forma de escrever os termos que tinham gerado mais dúvidas ou divergências na escrita. Olhando maneiras diferentes de grafar uma mesma palavra, todos conversavam para chegar à melhor solução. Em seguida, as duplas voltaram a se reunir para decidir as mudanças necessárias em seu texto. Feito isso, foram corrigir a versão no computador. Para tanto, reviram os registros nos papéis, procuraram o trecho correspondente e fizeram os ajustes usando os recursos adequados para isso - as setas do teclado e o mouse - sem precisar apagar e reescrever. "Muitas crianças não conseguem inserir todas as mudanças. Por isso, sempre é necessário acompanhar essa etapa e conferir", conta Miruna. O resultado do trabalho foi impresso em formato de livro e entregue às turmas de 5 anos da pré-escola para que pudessem manusear, além de ouvir a leitura feita pelo professor.

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