Vencendo os erros

Use os equívocos identificados nas atividades para ajudar o aluno a superar barreiras e seguir aprendendo

POR:
Anderson Moço
Vencendo os erros. Foto Paulo Vitale Ilustração Melissa Lagoa

Ninguém tem dúvida de que ensinar o que é correto está na raiz da profissão docente. Com base nessa concepção, por muitos anos se pensou que era papel do professor identificar os erros e puni-los. Prova disso é o próprio sistema de avaliação que se desenvolveu. Os estudantes são testados sistematicamente, muitas vezes recebendo notas baixas e, em casos extremos, sendo retidos no mesmo ano letivo. Afinal, aluno bom é só o que acerta.

Teorias desenvolvidas ao longo do século 20 vieram mostrar que a história não é bem essa e que o errado é quem pensa assim. Beira o impossível aprender algo sem antes cometer equívocos. Eles fazem parte da aprendizagem: são obstáculos que as crianças ultrapassam quando estão em busca do conhecimento. "Muitos professores não compreendem que as respostas dadas por elas (mesmo que distantes do padrão apontado pela ciência) têm explicações lógicas e evidenciam avanços significativos", afirma Evelyse dos Santos Lemos, pesquisadora do Ensino de Ciências e Biologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro.

Ver o erro como um indicador do raciocínio do estudante possibilita criar situações que o levem a pôr as ideias inadequadas em xeque. É preciso analisar as incoerências, categorizá-las e problematizá-las (leia exemplos de atividades nas páginas seguintes). A chave é levar todos a pensar sobre o que não sabem e, com isso, aproximá-los do conhecimento esperado para o nível em que estão. Um olhar atento é fundamental para entender os erros, que são de diferentes tipos. 

- Construtivo É o que demonstra as hipóteses do aluno acerca de qualquer conhecimento (matemático, linguístico, científico, histórico, geográfico ou artístico) naquele momento. É um dos mais comuns e importantes do ponto de vista pedagógico, já que permite colher informações riquíssimas sobre as aprendizagens, dando origem a novas estratégias de ensino. Os estudos desenvolvidos na área de alfabetização pelas argentinas Emilia Ferreiro e Ana Teberosky ajudam a explicá-lo. Depois de analisar as ideias dos pequenos sobre as características do sistema alfabético, as pesquisadoras conseguiram agrupá-las em cinco níveis. Com isso, o que antes era visto como erro de escrita passou a ser encarado como parte do processo de aprendizagem. Cada um desses patamares demonstra uma série de saberes adquiridos e exige intervenções específicas. 

- Conceitual Reflete a não-compreensão de determinado conceito ensinado. Se a criança não entendeu o que aquela ideia quer dizer, não consegue responder à pergunta. Nesse caso, não tem jeito: é preciso dar um passo para trás e retomar o tema. 

- De distração Ocorre quando o aluno possui a estrutura cognitiva necessária para a compreensão de um fenômeno e já se mostrou capaz disso, mas deixa de dar a resposta correta. Nesse caso, basta apontar para ele a falta de atenção e pedir um cuidado maior na realização das atividades. 

- Pelo uso de uma lógica diferente da proposta pelo professor Acontece quando a criança lança mão de meios cognitivos alternativos para resolver uma questão. Mesmo que a resposta esteja correta, o que está em jogo nesse caso é a aprendizagem da estratégia. Por isso, é importante valorizar o método usado deixando clara a necessidade de empregar o procedimento específico.

Outros equívocos dos alunos permitem identificar problemas relativos ao ensino ou ao desafio apresentado em sala. Eles podem ser de dois tipos. 

- Provocado pela pergunta Resultado da falta de compreensão sobre um termo ou conceito do enunciado ou da questão em si por estar mal formulada. O caminho, aqui, é propor novas atividades para deixar claro o que está sendo pedido. 

- Suscitado pela falta de conhecimento didático do professor Facilmente identificável quando a maioria dos estudantes apresenta respostas que indicam a não-compreensão do tema trabalhado em sala. Adotar outra forma de ensinar o conteúdo é fundamental em momentos como esse.

Trabalho sistemático aprimora o planejamento das aulas

Para que os erros realmente ajudem na sua prática, realizar uma análise cuidadosa faz a diferença. Tabulá-los em grupos, formando um mapa de saberes a serem ajustados, é uma boa alternativa. Isso permite identificar as estratégias ineficazes e pensar em outras que ajudem os alunos com diferentes problemas a avançar. Afinal, não basta devolver a atividade indicando para eles a incoerência de ideias. O ideal é mostrar o engano para cada estudante e ajudá-lo a rever o que pensou. "A superação do erro só acontece quando se toma consciência dele. Isso começa com ações exteriores, apontadas pelo professor", explica Fernando Becker, docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O passo seguinte é propor desafios com o mesmo conteúdo para mostrar à criança a inconsistência de sua explicação. Terminada a resolução, peça que ela compare as respostas, refletindo sobre suas hipóteses e ideias sobre o tema. Em outros momentos, a saída é retomá-lo com uma nova abordagem.

Se por um lado investigar os erros dá trabalho e exige uma análise mais refinada das respostas, por outro facilita o planejamento ao fornecer indícios do raciocínio das crianças e das melhores formas de intervir. Dessa forma, você aproveita melhor o tempo, já que deixa de investir em estratégias de ensino infrutíferas - e o mais importante: garante, de fato, o avanço e aprendizagem de todos.

Teóricos ajudam a entender os erros

- Jean Piaget (1896-1980) Um dos primeiros a afirmar que o erro é necessário quando se quer aprender. Para ele, a aprendizagem se dá por um processo que chamou de autorregulação: a correção ou a manutenção de uma ação tendo em vista um resultado a alcançar. Essas adaptações são chamadas por Piaget de feedback positivo (aquilo que pode ser mantido, pelo menos no momento, pois é bom para o resultado pretendido) e negativo (o que precisa ser revisto e abandonado). Ao mostrar um erro para o aluno e propor que reflita sobre ele, você dá os dois tipos de feedback, que vão ajudá-lo a mudar suas hipóteses sobre o conteúdo.

- Lev Vygotsky (1896-1934) Segundo o pensador, ao ingressar na escola, a criança tem acesso a conceitos científicos que entram em contradição com o conhecimento espontâneo que possuía. A dificuldade em se apropriar desses conceitos é vista como um erro pela escola. Segundo ele, há dois níveis de desenvolvimento: o real (o que a criança faz sozinha) e o potencial (o que ela faria com ajuda). Na distância entre os dois está a zona de desenvolvimento proximal. Ao identificar o nível de desenvolvimento real do aluno, é possível pensar em atividades que o ajudem a avançar, consolidando a zona de desenvolvimento potencial. 

- David Ausubel (1918-2008) Autor da Teoria de Aprendizagem Significativa, afirma que ensinar sem levar em conta o que a criança sabe é um esforço vão, pois o novo conhecimento não tem onde se ancorar. Para ele, aprender significativamente é ampliar e reconfigurar ideias já existentes na estrutura mental e, com isso, ser capaz de relacionar e acessar novos conteúdos.

Conceito distorcido
Ciências - 7º ano

Larissa de Mello Evangelista, professora do CE Castro Alves, em Goiânia, realizou um diagnóstico para descobrir o que a turma sabia sobre células. Ela percebeu que os alunos chegavam à escola com conceitos distorcidos sobre o tema.

Conceito distorcido. Foto Paulo Vitale Ilustração Melissa Lagoa

O erro
Definições como "célula é o que compõe o nosso corpo" e "é o ovo da galinha" foram apresentadas por quase todos os alunos.

O que Larissa descobriu
Os alunos associaram a ilustração da célula com um ovo ou ouviram a comparação feita por algum professor e não compreenderam que era apenas uma analogia.

O que ela fez
Aula expositiva
Larissa disse que célula é a unidade básica da vida e que o ovo não é uma célula, mas a gema sim.

Referências visuais
Ela levou ilustrações que lembravam um ovo e imagens de células vistas em microscópio, gerando uma discussão.

Modelos
A turma construiu representações de células e deu novas definições a elas. Assim, foi checada a aprendizagem.

Caminho do conhecimento
Alfabetização - 1º ano

Para verificar o nível de conhecimento da turma sobre o sistema de escrita, Ruth Poletini, professora da EMEB Regina Maria Tucci de Campos, em Mogi Mirim, a 160 quilômetros de São Paulo, realizou uma sondagem. Ela ditou uma lista com as palavras brincadeira, diversão, férias e ler (polissílaba, trissílaba, dissílaba e monossílaba, respectivamente) e a seguinte frase: "Minhas férias foram divertidas". A atividade, feita individualmente na presença dela, permite compreender o que cada criança está pensando. Em alfabetização, o que parece um erro representa na realidade uma tentativa de entender as características do sistema alfabético de escrita: com quantas letras se escreve uma palavra, quais são elas e em que ordem aparecem.

Alfabetização. Foto Paulo Vitale Ilustração Melissa Lagoa

O erro
Palavras redigidas de forma não convencional. Havia alunos com diversas hipóteses sobre como se escreve.

O que Ruth descobriu
Quatro crianças achavam que para escrever uma palavra é preciso ter no mínimo três letras, sem relação com os sons (hipótese pré-silábica), como a autora do texto na página seguinte. Nove representavam cada som com uma letra aleatória (silábica sem valor sonoro), seis escolhiam uma das letras da sílaba para redigi-la (silábica com valor sonoro), duas usavam uma ou mais letras por sílaba (silábico-alfabética) e duas estavam alfabéticas, apesar dos erros ortográficos.


O que ela fez

Atividades permanentes
Leitura para a sala de textos de diferentes gêneros, leitura pela criança (lista de chamada da turma, títulos de histórias etc.), produção coletiva de texto e escrita pelo aluno.

Agrupamentos produtivos
A professora colocou alunos com hipóteses diferentes, mas próximas para trabalhar juntos.

Acompanhamento
Uma tabela com o que cada um sabe é atualizada regularmente, indicando quem precisa de mais ajuda e as intervenções a realizar em cada atividade.

Mecânica antes da compreensão
Matemática - 3º ano

Elaine Cristina Ferreira Luiz, professora da EMEF Odinir Magnani, em Tupã, a 540 quilômetros de São Paulo, realizou uma atividade de sondagem de problemas do campo aditivo para verificar quais estratégias de resolução os alunos costumam utilizar e como representam os cálculos que fazem.

Mecânica antes da compreensão. Foto Paulo Vitale Ilustração Melissa Lagoa

O erro
Posicionar de forma inadequada os algarismos na conta armada, fato presente em quase metade das produções.


O que Elaine descobriu

O aluno errava quando tinha aprendido o passo a passo do algoritmo antes de compreender as regras do sistema decimal.

O que ela fez
Análise de estratégias
Elaine dividiu os estudantes em duplas, explicou que havia erros nos resultados apresentados e pediu que fossem descobertos e corrigidos.

Socialização
Após esse estudo, todos discutiram coletivamente as alternativas de solução apresentadas.

Sistematização
O resultado da discussão foi registrado num cartaz usado como material de consulta em casos de futuras dúvidas do mesmo tipo.

Visão tradicional
História - 6º ano

Gislene Lacerda, professora da Escola Degraus de Ensino, em Juiz de Fora, a 283 quilômetros de Belo Horizonte, queria saber qual conceito de história a turma possuía, já que muitas vezes as aulas da disciplina ainda são vistas como o simples estudo do passado, em que se exige a memorização de fatos e datas.

Visão tradicional. Foto Paulo Vitale Ilustração Melissa Lagoa

Os erros
Considerar os fatos históricos como algo perdido em um momento distante e ignorar que todos são sujeitos históricos, como no exemplo acima. Cerca de um terço da turma tinha essa concepção.

O que Gislene descobriu
O erro indicou a visão de que estudar história é rever o passado e os grandes feitos de pessoas famosas. Os alunos não conseguiam percebê-la como um meio de entender aspectos mais amplos da vida social e histórica e os paralelos entre a sociedade atual e a de décadas ou séculos atrás.

O que ela fez
Análise de documentos
A professora levou os alunos a lugares que ajudam a perceber diferentes visões da história. O primeiro foi o arquivo da prefeitura, onde puderam ter contato com documentos antigos sobre a cidade e outros mais recentes. A ideia era que todos trabalhassem como os pesquisadores da área, lendo e escrevendo sobre a história local.

Contato com a Arqueologia
Durante uma visita ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), os alunos relacionaram o sentido do estudo histórico à pré-história brasileira. Lá aprenderam que os objetos arqueológicos são fontes históricas que revelam informações sobre o cotidiano dos povos, nesse caso, de épocas remotas.

Entrevistas
Para escrever sobre a história da escola, a garotada conversou com funcionários e professores antigos e analisou fotos e documentos, entendendo que a história é também o que fazemos hoje em dia.

Desconhecimento da linguagem
Língua Portuguesa - 2ª etapa (4º e 5º anos) da Educação de Jovens e Adultos (EJA)

Durante a organização de um sarau de poesias e contos de amor, a turma de Marly Barbosa, professora da EMEF Antonio Carlos Andrada e Silva, em São Paulo, mostrou interesse em registrar suas próprias histórias. Cada aluno redigiu um conto, que serviu de base para o diagnóstico sobre a produção de textos de autoria.

Desconhecimento da linguagem. Foto Paulo Vitale Ilustração Melissa Lagoa

O erro
Não descrever os personagens que viviam a história. Quase todos os textos apresentavam esse problema.

O que Marly descobriu
Os estudantes tinham lido e reescrito vários contos. Porém a produção de autoria exige um esforço mais aprofundado. A turma carecia de um texto-base com descrições e não iria tratar de um personagem clássico, cujas características eram conhecidas. Todos precisaram se colocar no lugar do leitor e pensar se as perguntas que ele faria estavam respondidas. O exercício mostrou ser necessário modificar o texto várias vezes.

O que ela fez
Análise de textos bem escritos 
Marly retomou alguns contos e chamou a atenção para a descrição dos personagens. A turma percebeu que precisava dizer muito sobre eles.

Revisão e produção coletiva
Um trecho de um dos contos foi colocado no quadro para que a sala se focasse na descrição. A professora fazia perguntas como: "O que esse rapaz faz da vida?" Dessa forma, o personagem masculino foi construído.

Escrita em duplas
Com a ajuda de um colega, cada um refletiu sobre como descrever a personagem feminina da história. As diferentes versões foram comparadas e novas discussões sobre as características da linguagem escrita foram feitas.

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias