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Roger Chartier fala sobre analfabetismo digital

Conhecer as inovações tecnológicas ligadas à leitura e refletir sobre elas é essencial para se manter em sintonia com os estudantes

POR:
Elisângela Fernandes
Roger Chartier. Foto: Marina Piedade
Roger Chartier: historiador francês, é professor do Collège de France e pesquisador da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, sigla em francês), ambos na França

No decorrer da história, a sociedade viu o universo da escrita e dos livros mudar ao sopro da evolução e de muitos percalços. Mas com certeza a mudança pela qual a área vem passando atualmente é uma das mais marcantes, senão a mais. Que o diga Roger Chartier, que se dedica ao estudo da história do livro e das práticas de leitura e investiga as consequências da revolução virtual - dentre elas, o analfabetismo digital - e como a forma do texto (em papel ou na tela do computador) afeta o sentido dele.

Ele reforça a importância da leitura dos clássicos e recomenda cautela em relação aos benefícios que as novidades digitais possibilitam: a facilidade de publicar mais obras no mundo virtual, de acordo com ele, não fará necessariamente com que mais pessoas se tornem leitoras.

A tecnologia pode ajudar a democratizar o acesso à cultura escrita?
ROGER CHARTIER Sim. Mas ela não é um instrumento por si só. A tecnologia na escola, por exemplo, favorece uma intervenção do poder público na vida de quem não tem condições para comprar um computador ou conhecimentos para utilizá-lo. A democratização da escrita não pode ser só um desejo. Deve ser uma obrigação. Nossa sociedade está vendo nascer um novo modelo de analfabetismo: o digital. Ele é marcado pela impossibilidade de usar um computador para ler, escrever ou realizar tarefas simples.

A sociedade tem se preocupado mais em formar leitores do que escritores?
CHARTIER Ela se preocupa mais com a leitura, sim. Apesar disso, há uma especificidade do mundo digital que incita todos a escrever bastante e cada vez mais. Ao acessar uma rede social como o Facebook, estamos fazendo isso. No dia a dia, mesmo sem querer, somos obrigados a preencher formulários diversos. Muitas vezes, os jovens escrevem sem se dar conta, inclusive quando acessam alguns jogos eletrônicos. Porém escrever muito não necessariamente transforma alguém em escritor. Estabelecer uma ponte entre a escrita do universo tecnológico, mais espontânea - mas que tem regras -, e a tradicional, relacionada às produções que se localizam em gêneros estabelecidos, é um grande desafio atual.

Os brasileiros leem pouco, em média quatro livros por pessoa em um ano. A tecnologia pode ajudar a aumentar esse número?
CHARTIER É fato que a modernidade permite o aumento da oferta de obras no mundo. Mas não podemos estabelecer uma equivalência direta entre o avanço da tecnologia digital e o crescimento de leitores. Sou pessimista: acredito que as pessoas que lerão os títulos eletrônicos serão as que já têm o hábito de ler os impressos. Tal como aconteceu com as edições de bolso: apesar do preço baixo, esses títulos não conquistaram novos leitores. O público era formado por gente que já lia e, dali em diante, poderia ler enquanto se deslocava. Também não vejo como o advento da tecnologia, que impulsiona o uso do e-mail, das redes sociais e dos sites de busca, pode conduzir alguém a ler mais livros. Por outro lado, temos de considerar que nunca se leu tanto como agora: a sociedade contemporânea lê muito mais que a mesopotâmica, por exemplo. Lemos diferentes tipos de textos a todo momento. Ainda assim, é preciso ter em mente que nem tudo, tal como as bulas de remédio, pode ser classificado como leitura legítima.

Além do suporte, quais as diferenças entre o livro impresso e o digital?
CHARTIER Se a palavra escrita não for suficiente, no meio digital há outras maneiras de transmitir o conhecimento aos leitores para além das ilustrações e fotos, tradicionalmente usadas no impresso. É possível incorporar fragmentos de vídeos, entre outros. O meio eletrônico também permite que cada um escreva seu livro, seja o próprio editor e envie o material aos leitores.

Muitos educadores reclamam que as crianças e os jovens de hoje não gostam de ler, embora eles tenham o hábito de passar horas em frente a uma tela de computador, navegando na internet. O que precisa ser considerado para resolver a questão?
CHARTIER Há uma diferença histórica em como os professores e os alunos se relacionam com a leitura e com os livros. O primeiro grupo pertence a um universo em que o hábito de ler tem a ver com obras importantes, que fazem pensar o mundo e a relação com os outros, os sentimentos, o sagrado etc. Para muitos educadores, a ideia de leitura tem a ver com as produções do brasileiro Machado de Assis (1839-1908) e do inglês William Shakespeare (1564-1616), entre outros grandes autores, e existem textos mais importantes que outros. Essa hierarquia talvez não esteja clara para os jovens. Ler para eles é sinônimo de revista, redes sociais, Wikipédia e jogos eletrônicos. Os contextos são diferentes. Organizar o encontro entre esses mundos é o desafio de quem ensina. Para encarar a situação é interessante, por exemplo, pesquisar o que as crianças e os jovens associam à ideia de livro. Também é importante contar a eles o processo de produção de um livro antes da era digital porque ele tem a ver com o patrimônio da humanidade. Seria uma maneira de o grupo se dar conta de que nem todos os textos são bancos de dados ou jogos. Para a produção da maioria dos escritos feitos até hoje, foram utilizados critérios sem relação direta com a cena de um leitor à frente de uma tela.

Com o avanço da tecnologia, as bibliotecas estão condenadas a desaparecer no futuro?
CHARTIER Uma previsão lúcida, ainda que preocupante, pode sugerir que, se todo o patrimônio escrito for digitalizado e disponibilizado em formato eletrônico, as bibliotecas desaparecerão. Afinal, por que alguém, tendo textos em computadores e tablets, visitaria bibliotecas? Apesar disso, há várias razões para acreditar que elas podem e devem sobreviver devido a três funções que desempenham. Primeira: são o lugar em que as pessoas de hoje podem ler textos do mesmo jeito que as do passado liam. Com isso, preservaremos o entendimento da longa história da cultura escrita que herdamos e mostraremos que cada texto recebeu e recebe diferentes significados a depender da forma que é publicado e lido. Segunda: as bibliotecas podem e devem ser um lugar de conhecimento e aprendizado sobre a cultura escrita. Terceira: são uma instituição essencial do espaço público, em que as palavras e as conversas versam sobre a escrita. Nesse sentido, contribuem para o exercício de confrontação crítica de ideias e a formação de uma consciência cívica. Ao afirmar essas três funções, a sociedade pode evitar um futuro sem a existência de bibliotecas, uma infinita tristeza para o mundo.

Qual a sua preferência: ler livros publicados em papel ou na versão digital?
CHARTIER Sou um leitor voraz por prazer e por causa do meu trabalho. Leitor de livros na tela, não. Pela incorporação de hábitos e pela necessidade de separar as páginas lidas, permaneço fiel ao códex. Evidentemente, é lógico que não posso deixar de me maravilhar com os novos suportes que estão surgindo. Mas é necessário reconhecer e compreender que as formas de registro e circulação produzem efeitos sobre a construção dos significados. Ler um texto impresso e na tela não é ler o mesmo texto. Essa é a lição mais importante. O sociólogo neozelandês Donald McKenzie (1931-1999) disse: "A forma material da escrita afeta o sentido dado aos textos".

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