Ritalina: a escola esqueceu que é melhor prevenir do que remediar

O aumento na venda de metilfanidato, o princípio ativo da Ritalina, alerta para os riscos da medicalização do ensino

POR:
Anna Rachel Ferreira
Aumento no número de caixas de metilfanidato vendidas no Brasil de 2009 a 201 . Benett

Um estudo divulgado recentemente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) com base em dados do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) alerta para um problema que deveria alarmar o país. Em três anos, o consumo do metilfanidato, princípio ativo de remédios como Ritalina, Concerta e Ritalina LA, teve um aumento de 73,5% entre crianças e jovens de 6 a 16 anos (leia a tabela abaixo). A substância é muito empregada no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade (TDAH), além de outros distúrbios comportamentais atribuídos a questões cognitivas.

Há duas alternativas possíveis para um aumento tão expressivo: a primeira, é o Brasil estar diante de uma epidemia repentina de transtornos de comportamento, que passaram a atingir crianças e jovens de 2009 para cá (o que não é verdade); a segunda (e mais provável), é que se tornou rotina tratar com remédio problemas que não são necessariamente de saúde. O TDAH é uma doença que atinge de 8% a 12% de crianças no mundo, mas nos últimos anos virou justificativa para o fracasso escolar. Muitos docentes e pais se satisfazem com o diagnóstico e veem no remédio o único meio para controlar um "aluno-problema". A comprovação aparece nos dados da Anvisa. Segundo o relatório, nos três anos estudados, o consumo de medicamentos caiu nos períodos de férias escolares (julho, dezembro e janeiro).

Recorrer à farmácia pode parecer a solução mais simples, mas a medicalização é uma opção custosa e arriscada. Entre as reações adversas do uso de medicamentos à base de metilfanidato são citadas desordens psiquiátricas, redução do apetite, depressão, crise de mania, tendência à agressividade, morte súbita, eventos cardiovasculares graves e excessiva sonolência. O remédio, portanto, deve ser a última alternativa. E sua indicação tem de ser feita de maneira cuidadosa, por um profissional competente.

Em geral, quem primeiro nota uma possível particularidade na criança é o professor, que é orientado pela escola ou pela rede a fazer uma análise inicial. Como não existe um exame clínico, a avaliação é feita por meio de questionários. Um deles é o chamado Snap-IV, construído com base nos sintomas descritos no Manual de Diagnóstico e Estatística - IV Edição - da Associação Americana de Psiquiatria. O docente lê 18 frases sobre o comportamento do aluno e se selecionar muitas vezes as opções "bastante" ou "demais" o encaminha a um psicopedagogo. Os itens, no entanto, são demasiado abrangentes, podendo ser aplicáveis a qualquer pessoa: "Tem dificuldade de esperar sua vez", "Parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele". E é aí que os problemas surgem.

Conforme alerta a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), os questionários não fornecem um diagnóstico, apenas apontam a presença ou não de alguns sintomas. Para dizer que uma criança tem TDAH é preciso saber quando os sintomas surgiram, se ela tem outros problemas psicológicos, se as reações se manifestam em pelo menos dois contextos diferentes e se realmente têm causado dano a ela. Quando só aparecem na escola, ou em uma disciplina específica, é hora de os educadores fazerem uma autoavaliação e analisarem quanto suas práticas influenciam o comportamento de cada estudante.

Em alguns casos, a forma como o docente se comunica com a turma ou a maneira como organiza a aula pode causar irritação num estudante. Em outras situações, algo que ocorre em classe (uma atividade específica, a postura de um colega etc.) faz com que ele se manifeste de maneira inadequada. Há casos, ainda, em que a criança está passando por um momento difícil, que se reflete em seu comportamento escolar. Monitorar de forma constante esses três pontos de vista permite antecipar conflitos e fazer modificações no planejamento para amenizar os atritos em classe. A observação ajuda também a descobrir ferramentas que estimulem as potencialidades daquele aluno que é movido por mecanismos distintos da maioria. Se depois de tentativas persistentes nenhuma ação surtir efeito, é necessária uma conversa franca com os pais e o encaminhamento dele para avaliação médica e psicológica.

Mesmo quando isso se mostra imprescindível, no entanto, é fundamental ter em mente que não é possível tratar uma doença cujos sintomas são comportamentais somente com um remédio que deixa a pessoa mais calma. O texto da Anvisa reforça essa instrução: "O medicamento deve funcionar como um adjuvante (auxiliar) no estabelecimento do equilíbrio comportamental do indivíduo, aliado a outras medidas educacionais, sociais e psicológicas". Usar a medicação como única ferramenta para solucionar dificuldades de comportamento e/ou de aprendizagem é tratar questões comportamentais como algo exclusivamente biológico, desconsiderando a sua subjetividade e a maneira como o estudante é impactado pela realidade que o cerca - o que não traz bons resultados. Ele, assim como os demais colegas, tem o direito e a capacidade de aprender. E, mais do que uma intervenção medicamentosa, o que falta é descobrir os melhores caminhos para ensinar.

No livro Educação Impossível (320 págs., Ed. Francisco Alves, tel. 21/2240-7989, edição esgotada), publicado no Brasil em 1988, a psicanalista francesa Maud Mannoni (1923-1998) já afirmava que: "Em vez de revolucionar o ensino e sua estrutura, o Ocidente prefere, pelo contrário, remediar os efeitos das anomalias geradas por um ensino inadequado à nossa época. Remediar os efeitos significa, neste caso, encarregar a medicina de responder onde o ensino fracassou". A fala não poderia ser mais atual. O que se vê, em alguns casos, é docente abrindo mão do seu papel de especialista em Educação e pedindo que a área médica lhe diga o que fazer, como se ele e a escola fossem incapazes de garantir a aprendizagem.

Em vez de medicalizar o ensino, é preciso solucionar seus problemas. Cabe à escola, em parceria com o aluno e a família, identificar a parcela de responsabilidade de cada um para que, ao final, o professor consiga ensinar, o restante da turma não se prejudique e a criança em questão aprenda.

Remédio para quê?
Aumento no número de caixas de metilfanidato vendidas no Brasil de 2009 a 2011

27,4% Para a população de 6 a 59 anos

73,5% Para crianças e adolescentes (de 6 a 16 anos)

Fonte SNGPC - Boletim de Farmacoepidemiologia - Ano 2, nº 2 | jul./dez. de 2012

 

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