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01 de Junho de 2013 Imprimir
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O que pensam os jovens sobre o Ensino Médio

O que pensam os jovens sobre o Ensino Médio Pesquisa aponta que eles se mostram insatisfeitos com o modelo e os conteúdos trabalhados

Por: André Bernardo

João admite que, até a 4ª série, ainda gostava das professoras. Mas, da 5ª em diante, não conseguiu aprender mais nada. Maria compara a escola onde estuda a um presídio. "Lá, não tem cadeiras nas salas, mas tem grades nas janelas", diz. Teresa fica triste quando não tem aula por falta de professor. Já José garante que, em breve, vai voltar a estudar. "Até para ser gari tem de terminar o Ensino Superior", justifica ele. Os nomes dos personagens acima são fictícios, mas as histórias não. Elas aparecem no levantamento O Que Pensam os Jovens de Baixa Renda sobre a Escola, da Fundação Victor Civita (FVC), realizado pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Coordenada pelo economista Haroldo da Gama Torres, a pesquisa ouviu jovens de 15 a 19 anos de áreas pobres do Recife e de São Paulo e concluiu que há grandes desafios a ser enfrentados no Ensino Médio. A crise que se instalou pode ser traduzida em números: em 2011, apenas 50,9% dos jovens de 15 a 17 anos frequentavam o Ensino Médio, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad). Além disso, na década entre 2002 e 2012, o número de matrículas caiu de 8,710 milhões para 8,376 milhões, segundo dados do Ministério da Educação (MEC).

O estudo investigou o tipo de relação que os jovens estabelecem com as escolas de Ensino Médio. Entre os dados colhidos, chama a atenção a dificuldade que eles têm de atribuir sentido às disciplinas e aos conteúdos estudados. Um entrevistado do Recife, por exemplo, disse que "estava perdendo tempo com Química e Física". Outra, de São Paulo, declarou: "Nunca vou entender Matemática; aquilo não serve pra nada". E eles estão longe de ser casos isolados. A pesquisa mostrou que um em cada cinco alunos só vai à escola para conseguir o diploma. "O resultado confirma o que já tínhamos verificado: o jovem de hoje não vê o menor sentido no que aprende na aula. Ele se sente conectado com a vida, mas desconectado com a escola", observa Priscila Cruz, diretora executiva do Todos pela Educação. Para resolver o problema da fragmentação curricular - no Ensino Médio, o aluno chega a estudar 13 disciplinas -, ela propõe uma flexibilização. "A grade curricular pode permitir a liberdade de escolha. Na adolescência, muitos sabem do que gostam e do que não gostam. Se a escola for um lugar onde o estudante consegue construir um projeto de vida, vai se sentir motivado a frequentá-la."

Não ver utilidade em boa parte das disciplinas estudadas não é o único motivo que leva os alunos a abandonar os estudos. Eles se queixaram também do clima de insegurança, da zoeira - termo que significa excesso de bagunça e bullying dos colegas - em sala de aula e do absenteísmo dos professores (leia o número abaixo) como fatores determinantes para a evasão escolar. "Quem leciona à noite para jovens da periferia enfrenta uma realidade diferente daquele que trabalha de dia nos grandes centros. Então, me parece importante que os educadores que dão aula em locais mais pobres e sem tanta infraestrutura sejam reconhecidos de outra forma", opina Torres, que propõe políticas de incentivo para valorizar os bons professores.

 

50,9% dos jovens de 15 a 17 anos estão matriculados no Ensino Médio.
Fonte PNAD

24% dos estudantes não se sentem seguros na escola.
Fonte FVC

37,2% dos alunos nunca usaram o computador na escola.
Fonte FVC

334 mil é o número de matrículas no Ensino Médio perdidas entre 2002 e 2012.
Fonte MEC

76,7% dos adolescentes relatam que situações de zoeira são comuns em sala de aula.
Fonte FVC

42% dos jovens não tiveram alguma aula no dia anterior à data da pesquisa.

Fonte FVC

 

Crítica ao baixo uso da tecnologia

Em relação aos docentes, 81,3% dos entrevistados declararam que, em caso de dúvida, eles explicavam adequadamente as matérias, 77,2% consideraram os professores interessados em sua aprendizagem e 78,6% entenderam que a escola e os professores apoiavam os alunos com dificuldades. Mas, mesmo nas escolas que tinham computador (73,8% do total da amostra analisada), 37,2% dos estudantes reclamaram que nunca tinham usado o equipamento. "A professora não sabia o que era Facebook nem tinha Orkut. Dá pra acreditar?", indagou um adolescente de São Paulo. "Pra mim, a escola parou no tempo", completou uma jovem de São Paulo. Segundo a pesquisa, 70,7% dos entrevistados tinham acesso à internet em casa e 57,6% em celulares. "A tecnologia é uma excelente estratégia, como outras. Mas, sem conteúdo pedagógico, ela não vale nada", diz Priscila.

Na opinião de Gisela Tartuce, da Fundação Carlos Chagas (FCC), não há como pensar em melhorias para o Ensino Médio sem planejar uma sólida e continuada formação docente. "Uma formação que permita lidar com a diversidade da classe, com as novas tecnologias da informação e com a realidade indisciplinada e insegura das escolas brasileiras", afirma Gisela (leia o quadro abaixo). Para Torres, a formação do professor tem de ser mais pragmática e menos teórica. "Chegou a hora de discutir a escola como ela é. No caso dos alunos de classes menos favorecidas, é preciso pensar em alternativas que ajudem o educador a se relacionar com o estudante que já chega a essa etapa de ensino mal preparado. Esse ainda é um grande desafio", afirma.

 

Problemas vêm de antes

A pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual, da Fundação Victor Civita (FVC), realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em 2012, revelou que a falta de infraestrutura, a rotatividade dos docentes e a fragmentação curricular não são problemas que afligem apenas quem cursa o Ensino Médio. "Enquanto os alunos dos anos finais do Fundamental reclamam da indisciplina da própria turma, os do Médio focalizam a insegurança da escola como um todo", compara Gisela Tartuce, uma das coordenadoras da pesquisa. "Mas, em ambos os estudos, mesmo que apareçam restrições à conduta docente, os estudantes valorizam seus professores e reconhecem as dificuldades do trabalho deles." Segundo Gisela, outras pesquisas sustentam que "a perda do sentido de estar na escola" atinge também os educadores. Na visão de alguns, os jovens são, em sua maioria, consumistas, imaturos e alienados. "Esses desencontros explicam, em grande parte, o desinteresse pela escola, nos dois níveis de ensino."

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