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O que é indisciplina

Exaustiva e desafiadora, a indisciplina representa uma enorme dificuldade para o trabalho dos professores. Não existe solução fácil, mas não desanime! Nesta reportagem, convidamos você a refletir sobre as causas do problema. E neste conjunto de links, sugerimos mais de 90 alternativas para começar a vencê-lo

POR:
NOVA ESCOLA
Paulo Vitale. Clique para ampliar

 

Universal Press Syndicate
HUMOR COM REFLEXÃO Nos quadrinhos abaixo, Calvin vive situações que evidenciam algumas causas da indisciplina.

Que a profissão docente passa por um momento delicado é algo reconhecido não apenas por quem faz da sala de aula o seu dia a dia, mas também pelos estudiosos que se debruçam sobre o assunto. Philippe Perrenoud, referência na sociologia da Educação, costuma afirmar que nunca foi tão difícil ser professor. 

Isso porque a escola passa por dois movimentos de mudança - ambos externos aos seus muros. Por um lado, cobram-se cada vez mais tarefas da instituição: ensino dos conteúdos regulares, temas transversais, cidadania, ética, Educação sexual e por aí vai. De outro, afirma o especialista, "as condições de exercício da profissão estão cada vez mais difíceis". 

Entre essas dificuldades, a indisciplina lidera  a lista de queixas. Pesquisa realizada por NOVA ESCOLA e Ibope em 2007 com 500 professores de todo o país revelou que 69% deles apontavam a indisciplina e a falta de atenção entre os principais problemas da sala de aula. Só quem sente na pele a questão no cotidiano tem a real dimensão de como o problema é desgastante, levando ao desestímulo com com a profissão e, muitas vezes, até ao abandono.

Mas, calma. Respire. É possível, sim, virar esse jogo. Quer conseguir uma turma atenta e motivada? Sim, é possível. Na maioria das vezes, trata-se de um trabalho de longo prazo, com avanços e recuos e rediscussões permanentes, em que o trabalho em equipe é essencial. Não há receita mágica, mas muitos caminhos para chegar lá.

Desde sua criação, NOVA ESCOLA ajuda você a lidar com a indisciplina. Nas páginas da revista, você encontra todo mês as reflexões de Telma Vinha, professora da Unicamp, que responde a dúvidas (reais!) sobre comportamento (clique aqui para ver todo o arquivo já publicado).

E, aqui no site, você tem acesso a dezenas de reportagens que exploram pormenores sobre o tema. No quadro à direita, selecionamos textos e recursos multimídia campeões de audiência. E, no quadro abaixo, reunímos mais de 90 links para atacar de frente a indisciplina e seus problemas correlatos, bullying e violência escolar. 

Esta reportagem especial pode servir como porta de entrada para o assunto. Nela, fazemos um convite: é hora de rever sua ideia de indisciplina e o que há por trás dela. A proposta de reflexão é a seguinte: Será que existe algo que você pode transformar em sua prática pedagógica para diminuir o problema?

Para que você avance nessa reflexão, é preciso entender que a indisciplina é a transgressão de dois tipos de regra.

1- O primeiro tipo são as regras morais, construídas socialmente com base em princípios que visam o bem comum, ou seja, em princípios éticos. Por exemplo, não xingar e não bater. Sobre essas, não há discussão: elas valem para todas as escolas e em qualquer situação.

2- O segundo tipo são as chamadas regras convencionais, definidas por um grupo com objetivos específicos. Aqui entram as que tratam do uso do celular e da conversa em sala de aula, por exemplo. Nesse caso, a questão não pode ser fechada. Ela varia de escola para escola ou ainda dentro de uma mesma instituição, conforme o momento. Afinal, o diálogo durante a aula pode não ser considerado indisciplina se ele se referir ao conteúdo tratado no momento, certo?

É na distinção entre moralidade e convenção que podemos começar a trilhar um caminho promissor. Na prática, separar uma coisa da outra não é fácil. Frequentemente, mistura-se tudo em extensos regimentos que pouco colaboram para manter o bom funcionamento da instituição e o clima necessário à aprendizagem em sala de aula.

"A situação piora ainda mais se essas convenções se baseiam em permissões, proibições e castigos sem nenhum tipo de negociação", explica Ana Aragão, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os cartuns do adorável Calvin, criação do norte-americano Bill Waterson, exploram com maestria essa constante (veja exemplos ao longo da reportagem ou clique aqui para acessar uma galeria com mais de 150 tirinhas).

Mas, e na vida real? Existe algum jeito de driblar essas situações que só tem graça no papel? Sim, e seu papel é fundamental. É o que discutimos na continuação deste texto.

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CONHECIMENTO É AUTORIDADE O que se espera da escola é conhecimento. É isso que faz o aluno respeitar o ambiente à sua volta. Se não, a tendência é ele procurar algo mais interessante para fazer. Universal Press Syndicate

Sem sua ajuda, a criança não aprende o valor das regras 

O movimento contínuo de construção e reavaliação de regras, mais o respeito a elas, é a base de todo convívio em sociedade. Da mesma forma que os conflitos nunca vão deixar de existir na vida em comunidade - no contexto escolar, especificamente, eles também não vão desaparecer. Saber lidar com eles faz com que você consiga trabalhar melhor. "Esperar que os pequenos, de modo espontâneo, saibam se portar perante os colegas e educadores é um engano. É abrir mão de um dever docente", explica Luciene Tognetta, do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Unicamp. 

Mas muitos professores esperam que essa formação moral seja feita 100% pela família... "Não se trata de destituí-la dessa tarefa, mas é preciso enxergar o espaço escolar como propício para a vivência de relações interpessoais", pondera Áurea de Oliveira, do Departamento de Educação da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp), campus de Rio Claro.

As questões ligadas à moral e à vida em grupo devem ser tratadas como conteúdos de ensino. Caso contrário, corre-se o risco de permitir que as crianças se tornem adultos autocentrados e indisciplinados em qualquer situação, incapazes de dialogar e cooperar. Pesquisa de 2002 com 120 universitários, de Montserrat Moreno e Genoveva Sastre, da Universidade de Barcelona, indagou sobre a utilidade do que eles aprenderam na escola para a resolução de conflitos na vida adulta. Apenas 3% apontaram que os professores lhes ensinaram atitudes e formas específicas de agir. "Esses resultados certamente são próximos da realidade brasileira", afirma Luciene. "Nosso estilo de ensinar é parecido, pois joga pouca luz sobre o currículo oculto, aquele que leva em conta o sentimento do estudante, seus desejos, suas incompreensões."

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AULAS COM SENTIDO Não adianta exigir que os alunos cumpram as tarefas se o conteúdo ou a estratégia de ensino tem pouco a dizer para eles. Universal Press Syndicate

Em vez de agir sobre a consequência, procurar a causa 

Saber como o ser humano se desenvolve moralmente é essencial para encontrar as raízes da indisciplina. Antes de entender por que precisam agir corretamente, as crianças pequenas vivem a chamada moral heterônoma, ou seja, seguem regras à risca, ditadas por terceiros, sem usar a própria consciência para reelaborá-las de acordo com a situação. Por exemplo: se elas sabem que não se deve derramar água no chão, julgam o fato um erro mesmo no caso de um acidente. Nessa fase, a autoridade é fundamental para o bom andamento das relações.

Por volta dos 9 anos, abre-se espaço para a construção da moral autônoma, quando o respeito mútuo se sobrepõe à coação. Mas a mudança não é mágica. O cientista suíço Jean Piaget (1896-1980) questionava a possibilidade de a criança adquirir essa consciência se todo dever sempre emana de pessoas superiores. Assim, é possível dizer que a autonomia só passa a existir quando as relações entre crianças e adultos (e delas com elas mesmas) são baseadas, desde a fase heterônoma, na cooperação e no entendimento do que é ou não é moralmente aceito e por quê. Sem isso, é natural que, conforme cresçam, mais indisciplinados fiquem os alunos.

Isso deixa claro que a rota de combate à indisciplina não passa, como pensam alguns, por uma volta à "rigidez de antigamente" - inflexível, que contava até mesmo com castigos físicos. O professor precisa, sim, de autoridade perante a classe. Mas ela só é conquistada quando ele domina o conteúdo e sabe lançar mão de estratégias eficientes para ensiná-los.

Se não, como bem descreve o psicólogo austríaco Alfred Adler (1870-1937), a Educação se reduz ao ato de o aluno transcrever o que está no caderno do professor sem que nada passe pela cabeça de ambos. "O resultado é o tédio. E gente entediada busca algo mais interessante para fazer, o que muitos confundem com indisciplina. A escola é, sem dúvida, a instituição do conhecimento, mas é preciso deixar espaço para a ação mental da turma", afirma Luciene.

Olhar para a sala de aula tendo como base essa concepção de indisciplina faz diferença. Os benefícios certamente serão maiores se houver o envolvimento institucional. Por isso, o trabalho exige não apenas autorreflexão mas também formação e esforço de equipe. Para transformar o ambiente, o discurso tem de ser constante e exemplificado por ações de todos (leia reportagem sobre como lidar com o problema e um projeto institucional para a formação da equipe).

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REGRAS IMPOSTAS Quando a conversa é sempre proibida, perde-se a chance de favorecer a troca de ideias. Em muitas ocasiões, o diálogo é produtivo. Universal Press Syndicate

Quer saber mais?

CONTATOS
Adriana de Melo Ramos
Ana Aragão
Áurea de Oliveira
Luciene Tognetta
Maria Teresa Trevisol
Telma Vinha
Vanessa Vicentin   

BIBLIOGRAFIA
Crise de Valores ou Valores em Crise?, Yves de La Taille e Maria Suzana de Stefano Menin, 198 págs., Ed., Artmed, tel. 0800-7033-444, 38 reais
E Quando Chega a Adolescência - Uma Reflexão Sobre o Papel do Educador na Resolução de Conflitos entre Adolescentes, Vanessa Vicentin, 128 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. (19) 3241-7514, 32 reais
Falemos de Sentimentos - A Afetividade como um Tema Transversal, Montserrat Moreno, Genoveva Sastre, Aurora Leal, Maria Dolors Busquets, 144 págs., Ed. Moderna, tel. 0800-172-002, 38,50 reais
Formação Ética - Do Tédio ao Respeito de Si, Yves de La Taille, 316 págs., Ed. Artmed, 54 reais
Indisciplina na Escola - Alternativas e Práticas, Julio Groppa Aquino (org.), 152 págs., Ed. Summus, tel. (11) 3872-3322, 33,90 reais
Limites: Três Dimensões Educacionais, Yves de La Taille, 152 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115-152, 36,90 reais
O resgate da autoridade em educação, Gérard Guillot, 192 págs., Ed. Artmed, 44 reais
Quando a Escola é Democrática - Um Olhar Sobre a Prática das Regras e Assembleias na Escola, Luciene Regina Paulino Tognetta e Telma Pileggi Vinha, 144 págs., Ed. Mercado de Letras, 32 reais
Relação Pedagógica Disciplina E Indisciplina na Aula, Maria Teresa Estrela, 128 págs., Ed. Porto, www.portoeditora.pt, 53,17 reais (à venda na Livraria Cultura)
Resolução de Conflitos e Aprendizagem Emocional, Genoveva Sastre e Montserrat Moreno, 296 págs., Ed. Moderna, 44 reais

Internet
A Qualidade da Educação sob Olhar dos Professores, da Fundação SM e da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) 
Tese de doutorado O Processo de Resolução de Conflitos entre Pré-Adolescentes: O Olhar do Professor, de Sandra Cristina Carina 
Tese de doutorado Os Conflitos Interpessoais na Relação Educativa, de Telma Vinha 
Dissertação de mestrado A Construção da Solidariedade em Ambientes Escolares, de Luciene Tognetta
Anais do I Congresso de Pesquisas em Psicologia e Educação Moral 
Texto A Dimensão Ética na Obra de Jean Piaget, de Yves de La Taille 
Texto Moralidade e Violência: A Questão da Legitimação de Atos Violentos, de Yves de La Taille 
Pesquisa Valores dos Jovens de São Paulo, da Fundação SM

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