Ensino Médio: como ampliar o engajamento dos estudantes?

A participação ativa dos alunos nesta etapa de ensino pode colaborar para combater as altas taxas de evasão e desenvolver maior autonomia e protagonismo dos jovens

POR:
Ana Paula Bimbati
Foto: Getty Image

O engajamento dos estudantes com a escola pode torná-los protagonistas de suas aprendizagens, favorecendo a construção de cidadãos mais atuantes na sociedade, fora da escola, as relações entre professores e jovens, o desenvolvimento de competências e até mesmo ampliando a valorização docente. 

As taxas de evasão são altas: segundo dados de 2020 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), um em cada quatro alunos abandonam a escola nessa etapa. Por isso, mantê-los engajados pode inclusive mudar o cenário de desistências da escola, que tende a crescer com a pandemia da covid-19. “Alunos mais engajados têm menor chance de sair da escola e melhor desempenho”, afirma Clara Schettino, gerente de pesquisas e avaliações no Instituto Sonho Grande, entidade que pesquisa e apoia 2,8 mil escolas públicas de Ensino Médio integral, em 19 estados.

Embora os alunos nesta etapa já possuam mais autonomia, é neste momento também que eles fortalecem suas áreas de interesse e começam a se preparar para construir os planos para depois da escola. "Os jovens começam a criar sua identidade de uma forma mais forte e começam a ter mais independência, porém têm mais dúvidas sobre o futuro e também do presente, e o professor pode ser uma chave de apoio”, explica.

Clara aponta que é necessário apresentar a escola para o aluno como um espaço onde ele enxergue o que aprende ali como algo útil para sua vida fora da escola. É exatamente isso que Isabelle Nóbrega, professora na Escola Cidadã Integral Técnica Doutor Elpídio de Almeida, de Campina Grande (PB), apresenta no dia a dia das disciplinas de Inovação Social Científica e Intervenção Comunitária. A primeira foca no desenvolvimento de projetos com enfoque no dia a dia da comunidade escolar e a segunda desenvolve a criação de projetos para a comunidade. A aula é um dos componentes curriculares obrigatórios do 1º ao 3º ano do Ensino Médio da instituição. 

Apesar de tratar de temas interdisciplinares e atuais como empreendedorismo, marketing e recursos humanos, a professora destaca que, com a grande oferta e facilidade de acesso a informações, o papel docente precisa ir além da transmissão do conteúdo. “Além da teoria, eu apresento a relação prática sobre o tema e levo o aluno a entender porque vai precisar daquele conhecimento em sua vida”.  É isso que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) traz também sobre as competências gerais, elas têm o objetivo de focar no desenvolvimento integral do alunos, “para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho”.

Ensino Médio na BNCC: Criatividade e Empreendedorismo

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Para quem dá aula de um componente curricular mais tradicional, como é o caso de Tiago Ribeiro dos Anjos, professor de Biologia do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia em São Luís (MA), a relação com a vida prática e com temas de curiosidades dos alunos também é uma estratégia para que as aulas estejam conectadas ao cotidiano. “O importante, seja no ensino presencial ou remoto, é ter empatia com o aluno, estar próximo dele e considerar suas bagagens e interesses”, diz.

Para motivar a participação ativa dos estudantes, Tiago usa abordagens investigativas, que permitem desenvolver competências com a formulação e análise de problemas, uso de diferentes linguagens, colaboração e argumentação. As aulas com maior participação também são bem aceitas nas turmas de Isabelle. Ela trabalha com uso de jogos e metodologias ativas como a de aprendizagem baseada em projetos.  Na disciplina de Inovação Científica, a professora conta que os alunos fazem uma primeira pesquisa de campo para escolher o tema do projeto. Depois, juntos, a turma faz uma votação de qual será o problema atacado e divididos em grupos eles desenvolvem a solução. 

O protagonismo e projeto de vida estão previstos na BNCC e são conceitos transversais ao Novo Ensino Médio, que vem com o objetivo justamente de oferecer uma última etapa escolar mais conectada à realidade e às necessidades do aluno. “São documentos fundamentais para que a escola se reinvente e a gente pense na formação de um sujeito complexo, que abrange diversos aspectos”, afirma Tiago. Embora as novidades só passem a valer oficialmente a partir de 2021, as escolas de Ensino Médio Técnico e de tempo integral já possuem experiências que mostram como isso pode se desdobrar na prática.

Para Moisés Medeiros, de 17 anos, aluno do 3º ano da Escola de Referência em Ensino Médio Abílio de Souza Barbosa, em Orobó (PE), ter eletivas, e a oportunidade de trabalhar projeto de vida em sala de aula mudou sua experiência na reta final da escola. “Nós temos robótica e isso me instigou a saber mais, estudar sobre isso e o mesmo acontece com várias pessoas da minha sala que estavam desengajadas”, conta. “No dia a dia, os professores percebem o perfil de cada aluno e sabem trabalhar com o que cada aluno gosta, da forma que ele sabe aprender, torna tudo mais interessante”. Mesmo a temida Matemática se tornou mais divertida depois que as estratégias de aula mudaram. “Usar a competição, por exemplo, que é algo que muitos alunos gostam, chama atenção e nos faz querer nos envolver.”

Ensino Médio na BNCC: Investigação e Intervenção

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A relação entre engajamento e valorização docente
Uma pesquisa de 2020 do Instituto Sonho Grande, feita com professores de Ensino Médio da rede estadual de Pernambuco do ensino integral e da escola regular, apontou que 68,7% dos professores que lecionam em tempo integral se sentem valorizados ou muito valorizados pela comunidade. O resultado é 7,1% maior em relação aos educadores das escolas regulares.

Essa diferença poderia estar ligada ao fato de que as escolas integrais promovem um relacionamento mais próximo entre estudantes e professores, em parte, por ter professores que dão aula apenas em uma escola, conseguindo assim ter mais tempo para o planejamento e para se relacionar com a comunidade escolar. 

O relacionamento com os alunos e famílias e a qualidade desses relacionamentos são motivos citados pelos participantes da pesquisa como fatores de valorização. “Fortalecer o relacionamento com os estudantes resulta em um envolvimento maior e consequentemente em uma valorização do papel daquele educador”, explica Clara.

“Quando você olha para o aluno de uma forma integral, pensa no desenvolvimento dele para vida, conversando sobre futuro, ele também começa a te enxergar de uma forma diferente”, reflete Tiago. Para ele, essa relação é favorecida pela dinâmica da escola integral, que muda a forma como o professor se relaciona com o aluno ao investir em práticas como acolhimento diário, tutoria, disciplinas eletivas, clubes e projetos de vida (o que propõe o Novo Ensino Médio também). “São práticas que podem ser realizadas mesmo em escolas de tempo parcial e que pode fortalecer a relação com o aluno”, afirma Clara. Entretanto, mesmo sem projetos especiais, é possível trabalhar o engajamento nas próprias aulas considerando temas de interesse, conexão com a aplicação prática do conhecimento e por meio de metodologias ativas.

A perspectiva com isso é de que cada vez mais estudantes possam se envolver na escola, descobrindo e desenvolvendo diferentes habilidades, como aconteceu com Moisés. No último ano, ele já participou da “criação” de três empresas, desenvolveu inúmeros projetos, pensou de forma ativa sobre seu futuro, planos e sonhos, e se inspirou em um professor de Biologia para também seguir a carreira docente. “Quero estimular essa curiosidade e paixão que um dia estimularam em mim dentro da sala de aula”.

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