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Mulheres na tecnologia: esse espaço também é nosso

Premiada por seus trabalhos de robótica com sucata na rede municipal de São Paulo, Débora Garofalo relata sua trajetória na tecnologia e destaca como as meninas precisam ser incentivadas para explorar seus potenciais na área

POR:
Débora Garofalo
Crédito: Getty Images

Hoje quero compartilhar com vocês um pouco da minha trajetória profissional e como a tecnologia começou a fazer parte dos meus dias na sala de aula.

Como muitos de nós, tive uma infância muito difícil. Criada por minha mãe que fez também o papel de pai e que sempre nos dizia “estude muito, somente o estudo pode transformar sua vida”. Ainda muito nova optei pelo Magistério e, na sequência, estudei Letras, Pedagogia, Especialização em Língua Portuguesa e agora curso o Mestrado em Educação. Estudar faz parte da vida do professor.

Algo que sempre me chamou a atenção era desmontar coisas e brincar com carrinhos. Foi aí que sofri minhas primeiras frustrações. Ouvia que isso era coisa de menino e não de menina – muitas foram vezes que fui repreendida. Aquelas marcas que recarregamos para vida e que procuro sempre desmitificar com meus alunos.

O encontro com a tecnologia

Durante minha vida profissional como professora, tive um momento em que precisei atuar na indústria, acumulando os dois trabalhos. Foi o primeiro contato com a tecnologia. Na indústria, atuei na área de recursos humanos e tinha que entrevistar jovens, muitas vezes recém-saído do Ensino Médio. Me chamava a atenção o currículo destes jovens: sempre com boas referências ao uso das tecnologias e no teste prático não conseguiam desenvolver o que haviam descrevido ter vivência. No entanto, a experiência foi fundamental para minha carreira docente. Compreendi o que os nossos alunos necessitam quando é chegado o momento de atuar no mercado de trabalho.

É essencial que o jovem tenha contato com as tecnologias ainda na Educação Básica. E quando surgiu oportunidade de ser professora de tecnologias na rede municipal (já distante da indústria), me candidatei e fui aprovada pelo conselho de escola. Fiz uma proposta ousada entre elas, trabalhar com a cultura maker, programação e robótica em uma comunidade de extrema pobreza e sem possuir conhecimentos sólidos pelo assunto. Porém, a proposta tinha um ideal: transformar a vida de crianças e jovens através do uso das tecnologias trabalhando o raciocínio lógico, resoluções de problemas, colaboração e empatia.

Débora Garofalo em ação na sala de aula. Crédito: acervo pessoal/Débora Garofalo

Em conjunto com os alunos, criamos o trabalho de robótica com sucata, que nasceu do problema do lixo que a comunidade ao entorno da escola vivencia. Foi através de aulas públicas que sensibilizamos a comunidade sobre a sustentabilidade, recolhemos lixo das ruas e levamos a sala de aula para transformá-los em materiais para nossas aulas de robótica e destinando corretamente os recicláveis não usados em aula. Com esse material encontrado nas ruas aplicamos os conhecimentos do currículo de forma interdisciplinar em protótipos com sucata. Como resultado retiramos uma tonelada de lixo, melhoramos o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica  (Ideb) da escola, diminuímos a evasão escolar e, mais do que isso, contribuiu para levantar a autoestima dos estudantes e, principalmente das meninas, que falam com segurança de sua expectativa para futuro.

Recentemente minha aluna Jayne Leticia, disse que eu havia colocado desafios na frente dos alunos e, com isso, feito com que eles acreditassen que podiam vencê-los. “Na comunidade não tem tecnologia, ela nos disse que era possível ter e, através dela, melhorar a vida de todo mundo”. Para mim, é um presente ver o quanto o trabalho com as tecnologias vem transformando a vida dos estudantes e o quanto eles estão se apropriando dela, demostrando que não é o lugar que determina o que eles podem ser, mas sim os próprios alunos e alunas!

Representatividade

Muitas mulheres marcaram épocas pela presença feminina em um mundo ainda considerado masculino, como Alda Lovelace que criou a primeira linguagem de algoritmos ou Margareth Hamilton, responsável pelo sucesso da operação Apollo 11. Com o passar do tempo, a área tecnológica ganhou força e, por questões culturais, fez com a participação das mulheres fossem decaindo. A falta de estimulo social e a imposição de alguns paradigmas afastou as mulheres da tecnologia.

A escola exerce um papel fundamental para trabalhar a tecnologia como uma propulsora da aprendizagem e fomentar ações para envolver e desmitificar a ideia de que computação é uma área para homens. Muito pelo contrário, a tecnologia é uma área plural, que necessita da diversidade para torná-la cada vez mais democratizada.

Como professora de tecnologias, sou procurada por muitas jovens para contar da minha trajetória e o trabalho que realizo. Estamos ganhando voz e espaço e demostrando         que somos profissionais, que podemos estar onde queremos!

Chegou a hora e a vez de nós, mulheres, quebrarmos velhos paradigmas e de se apropriar dos espaços, seja ele para inovar na sala de aulas para alavancar o ensino de aprendizagem e ou se apropriar das tecnologias para alcançar voos mais altos.

Um abraço,

Débora Garofalo
Professora da rede Municipal de Ensino de São Paulo, formada em Letras e Pedagogia, mestranda em Educação pela PUC-SP, colunista de Tecnologia para o site da NOVA ESCOLA, Vencedora na temática Especial Inovação na Educação no Prêmio Professores do Brasil e Top 10 no Prêmio Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação.

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