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Faltam para:   

A Educação da alma pelo corpo

A realização ou a frustração de crianças e jovens com seu físico depende muito da orientação que recebem na escola

POR:
Luis Carlos de Menezes

Ao sair de manhã, vejo meninas pulando corda no pátio. Sua alegria espontânea invade nosso prédio. No semáforo, junto a um malabarista, um rapaz em cadeira de rodas exibe maestria com a bola de basquete. Os dois estão a serviço, orgulhosos por seu desempenho. Na colina, ao lado do caminho que percorro, garotos empinam pipas. Brincam, mas com o empenho de quem trabalhasse. Chego à universidade desviando de meninos que jogam bola e dividem o espaço livre do estacionamento com skatistas. Disputam entre si, pois a graça do esporte depende do adversário.

Nessas cenas urbanas, crianças e jovens desafiam a si mesmos no desenvolver contínuo do corpo e da mente. Isso se dá na prática de habilidades físicas, na estética da avaliação de movimentos e na ética das regras do jogo. O sentido lúdico só reforça a formação integral, pois preparar skates e pipas, por exemplo, demanda disciplina pessoal. Organizar partidas, por sua vez, exige planejamento coletivo e competência social. Todos estudam, mas nem todas as etapas escolares mobilizam corpo e mente.

Especialmente na Educação Infantil se dá continuidade à formação familiar para o afeto, a alimentação e a higiene. Nessa fase, o corpo é central para a realização de práticas como o canto, a dança, o desenho e os jogos. Os pequenos gostam de ir a essa escola, em que seu desenvolvimento socioafetivo passa pelo afago da professora e pelos esbarrões ou abraços dos colegas. A avaliação não se restringe ao cognitivo, pois se quer saber se eles estão felizes e saudáveis.

À medida que a criança avança nas séries, no entanto, é comum seu corpo se tornar mero portador da mente e seu bem-estar só merecer atenção se interferir nas notas, pois disciplinas limitadas ao cognitivo não tratam de aspectos corporais ou socioafetivos. Quando o ensino é assim, a Educação Física se desvaloriza em suas dimensões ética, estética e prática, que dariam continuidade à formação do ser que brinca e joga, o Homo ludens, da mesma espécie do Homo sapiens. O que se vê, então, é muita gente que detesta ir à aula ou que recebe equivocados diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Não por acaso, a sociedade em que escolas ignoram o corpo também vive um lamentável culto ao corpo, a cultura da malhação a serviço de uma estética ditatorial, que condena baixinhos, magrelos e gordos e exclui dos palcos e das telas quem não atenda a seus padrões, exceto para ridicularizar seu tipo destoante. Disso decorre a abominação das diferenças, que dá lugar ao bullying, o assédio moral para a infelicidade de muitos.

Mas onde está o corpo nas outras disciplinas, além da Educação Física? Em Ciências, nas escolas onde falar da máquina que come e se reproduz não é só prevenção mas também sabor e prazer, ao ensinar o gosto por cozinhar e a alegria e a ética nos jogos e no amor. Está em Arte, se há lugar para a produção individual e coletiva, além da apreciação da pintura, da música e do teatro. Está em História, em Geografia e na literatura, se a diversidade de etnias, tipos físicos, vestuários e expressões revelar a riqueza da vida.

Ilustro isso com emoção recente que vivi no doutoramento de minha amiga Maria Amália Barbosa, paralisada há anos por acidente cerebral e depois consagrada pelo trabalho com crianças tetraplégicas, que são levadas a museus e a um ateliê, onde seus poucos movimentos são valorizados em trabalhos de Arte, e seu corpo, desenhado ou carimbado em lindas telas. Esse é um exemplo definitivo de que todos nós, jovens ou velhos, exuberantes ou fragilizados, podemos nos realizar com o corpo com que trabalhamos e amamos. Aliás, é com ele que vamos ou fomos à escola, que, portanto, não pode ignorá-lo.

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