Muito mais que futebol

Educador Nota 10 adapta esportes como o tênis e o taco ao espaço escolar, permitindo a alunos do 6° ano conhecer novas práticas

POR:
Débora Didonê

No bairro de Vila Nair, uma região pobre de São José dos Campos, a 90 quilômetros de São Paulo, o único espaço público disponível para exercícios físicos e brincadeiras é uma praça quase abandonada com chão de areia e brinquedos quebrados. As crianças que moram por ali dificilmente têm acesso a clubes onde possam correr, jogar bola e praticar esportes. A opção é a quadra da EE Euclides Bueno Miragaia, na qual estudam. Lá as aulas de Educação Física não se limitam a futebol, vôlei, basquete e handebol. Mesmo sem quadras ou campos oficiais, o professor José Carlos dos Santos introduziu diversas práticas no currículo durante o ano passado.

Assim, 70 estudantes do 6º ano viram uma área de cimento se transformar em campo de beisebol. Cabos de vassoura viraram tacos. Para as partidas de tênis, a rede de vôlei foi adaptada. A introdução dessas modalidades, a adequação delas a espaços alternativos e o estímulo à superação individual fizeram parte de um projeto de esportes de taco e raquete criado por José Carlos.

Além de ter ensinado beisebol e tênis, ele levou a turma a discutir as regras do críquete e do softbol e a desenvolver habilidades nos pré-desportivos frescobol e taco. Por isso, recebeu o Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 de 2007. Leia abaixo a opinião do consultor Marcelo Barros da Silva:

Palavra do especialista

Para Marcelo Barros da Silva, selecionador do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10, o maior mérito de José Carlos foi ampliar o repertório de modalidades esportivas dos alunos e fazê-los ter consciência do próprio aprendizado. Ele possibilitou à turma conhecer jogos e esportes de elite e participar da construção de atividades e da solução de problemas relacionados a espaço e regras. O especialista destaca ainda a preocupação do professor premiado em fazer com que todos participassem das atividades, sem dar preferência aos mais habilidosos em detrimento de outros, como é comum ocorrer na disciplina.

Durante cinco meses, os jovens fizeram mais que praticar esportes. Eles ajudaram o professor a pensar em materiais alternativos que substituíssem o taco e a raquete oficiais (como a ripa e a raquete de madeira) e, após conhecer as regras de alguns esportes que não faziam parte de seu dia-a-dia, começaram a recriá-las.

À medida que novas partidas eram disputadas, todos ficavam atentos a decisões táticas e à razão para o uso de diferentes jogadas, como os arremessos para baixo do softbol (parecido com o beisebol, mas baseado em movimentos mais leves), os arremessos para cima do beisebol e o modo de segurar a raquete no tênis. "Se os alunos simplesmente repetem gestos, sem estar em situação de disputa, ficam desestimulados e não entendem a partida como um todo", explica José Carlos. Até meninas que nunca tinham ouvido falar das modalidades davam dicas aos colegas de como se posicionar melhor.

Quem é José Carlos

José Carlos dos Santos, nascido em São Sebastião, no litoral paulista, é louco por esportes e brincadeiras, como taco e futebol, desde pequeno. Antes de lecionar, tentou a carreira de boleiro. Aos 18 anos, tornou-se profissional, mas desistiu do campo por causa das dificuldades financeiras que seu clube enfrentava e dos constantes atrasos salariais. Ingressou no curso de Educação Física do Centro Universitário Módulo (Unimódulo), na vizinha Caraguatatuba, e, como professor de um projeto assistencial mantido pela prefeitura de São Sebastião, propôs a introdução de esportes raramente praticados na escola. Três anos depois, já trabalhando na rede estadual, reencontrou ex-alunos do projeto que se lembravam das aulas de beisebol e tênis. Assim, pensou em unir à grade curricular práticas mais elitizadas e outras, como o taco, típicas das ruas. Depois de levar
os estudantes a gostar e participar das aulas de Educação Física, aos 31 anos José Carlos se prepara para conquistar outro objetivo: casar-se ainda em 2008. 

Novo repertório

Para determinar as modalidades que fariam parte do projeto, o professor pesquisou quais seriam adaptáveis à estrutura da escola e do bairro e poderiam ser praticadas constantemente. "Pensei no tênis de mesa, mas precisaria das carteiras das salas do 1º andar para usar como mesa e perderíamos muito tempo para retirá-las de lá."

Para facilitar, ele escolheu modalidades que envolvem materiais, regras e estruturas táticas parecidas. Antes do críquete, trazido ao Brasil pelos ingleses e que prevê rebater a bola para defender uma casinha, José Carlos apresentou à garotada o jogo de taco, um de seus preferidos na infância. Praticado por duas duplas, tem regras parecidas com as do esporte britânico e movimentos menos técnicos.

Em seguida, ele ensinou o beisebol - criado pelos americanos e bastante praticado pelos japoneses -, em que o batedor lança a bola para longe a tempo de percorrer as bases de um losango. Em uma associação esportiva, a turma conheceu o campo e os materiais oficiais .

Em seguida, a garotada teve contato com o softbol. E a praça do bairro virou campo. "Começar com jogos simples para chegar a esportes sofisticados possibilita à turma aprender as semelhanças entre eles", diz José Carlos. "Se eu desse beisebol no início do projeto, seria mais difícil." Por isso, o frescobol - em que se usa raquete mas não há os limites da quadra e da rede - veio antes do tênis. Assimilada a modalidade, começaram as conversas sobre os tipos de quadra que podem ser de cimento, saibro ou grama. Mesmo sendo necessária a adaptação da rede de vôlei para as partidas, os jovens estufavam o peito e diziam: "Nós jogamos tênis de quadra."

Praticar para aprender

Os jogos foram uma etapa fundamental das atividades. José Carlos seguiu a abordagem do modelo de ensino Teaching Games for Understanding (TGFU) "Ensinando jogos pela compreensão", que visa a desenvolver habilidades com a realização de jogos que estimulam a pensar nas tomadas de decisão. Além disso, ele diversificou, incluindo meninos e meninas no mesmo time. É necessário discutir a participação de todos e despertar a consciência de que cada um tem uma habilidade para a soma geral dos pontos.
Para a avaliação da turma, o professor não se baseou apenas nas atividades práticas e elaborou questionários sobre cada modalidade. Esses estudos teóricos ganharam forma durante as jogadas. O objetivo era levar o grupo a refletir sobre o esporte, as funções de ataque e defesa, as regras e a maneira mais proveitosa de usar o espaço. E o melhor desempenho não foi atribuído ao rebatedor mais eficiente, mas a quem entendeu o que fazia em quadra e colocou o objetivo coletivo à frente do individual.

Quer saber mais?

CONTATO
EE Euclides Bueno Miragaia, Rod. dos Tamoios, 470, 12231-590, São José dos Campos, SP, tel. (12) 3923-4800

BIBLIOGRAFIA
Pedagogia dos Esportes:, Vilma Lení Nista-Piccolo (org.), 128 págs., Ed. Papirus tel. (19) 3772-4500, 31,50 reais
Educação como PráticaCorporal, João Batista Freire, Alcides José Scaglia, 184 págs., Ed. Scipione, tel. (11) 3990-1788, 41,90 reais

INTERNET
Saiba mais sobre o TGFU e como adaptar regras e espaços para diferentes práticas em www.tgfu.org 
 

 

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