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Como preparar uma boa aula de Ciências

Curiosidade e investigação são as palavras-chave para uma aula de sucesso

POR:
Paula Peres
Crédito: Getty Images

Professores de Ciências sabem como sua área pode ser fascinante. Ela explica o funcionamento da natureza, do Universo, do corpo humano, colabora para o desenvolvimento de tecnologias. Porém, nem sempre essa beleza é transmitida para a sala de aula.

Segundo a professora Lilian Bacich, assessora pedagógica de Ciências do Time de Autores NOVA ESCOLA, existe uma espécie de "tradição" em dar aulas expositivas, focadas nos conteúdos. E isso nem sempre consegue engajar os alunos. “O ensino das Ciências deve estar muito focado na investigação”, aconselha. Pode parecer uma afirmação óbvia, mas em muitos casos, os docentes acabam caindo na pegadinha da tradição expositiva e organizam a aula de uma maneira que não permite a exploração pelos alunos.

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Assim como todas as outras disciplinas, o planejamento de uma aula de Ciências também precisa olhar muito para o protagonismo do aluno, mas tem algumas características específicas. “A principal delas é o momento que nós estamos chamando de mão na massa”, explica Lilian. É quando o aluno vai mergulhar na construção do conhecimento.

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Apesar do nome, o mão na massa pode se referir tanto a uma construção concreta, de um projeto, modelo ou objeto, ou um momento de trabalho colaborativo, que pode estar relacionado com a leitura de um texto ou o debate entre os alunos com base em algum caso. “Se você tem uma sequência de dez aulas sobre determinado conteúdo, você pode usar três ou quatro delas para fazer experimentos, construir algo, ir ao laboratório. Outras atividades podem estar relacionadas a um debate, uma argumentação ou pesquisa no meio digital”, sugere a professora.

Nem só de produção sobrevive uma aula. Veja, a seguir, quais são os quatro momentos principais que uma aula de Ciências deve contemplar:

  1. Contextualização

O professor deve começar a aula fazendo um levantamento do que o aluno sabe. “Ou mostrando coisas que o aluno pode não saber diretamente, mas que contam com concepções prévias e podem estar envolvidas na temática”, lembra Lilian. Vale começar com a leitura de um texto ou notícia, a interpretação de uma imagem, uma roda de conversa inicial. Algo que ajude a contextualizar os estudantes em relação aos conceitos que serão trabalhados naquela aula.

  1. Questão disparadora

“É o que mobiliza o aluno para querer estudar mais”, resume Lilian. Dessa maneira, deve ser uma pergunta que precise de uma resposta mais complexa do que “sim” ou “não”. Uma sugestão é fazer a pergunta para um colega. “Se a resposta dele for muito simples, é um indicador de que a pergunta não sustenta uma aula de 50 minutos”, indica.

A professora dá o exemplo de uma aula sobre classificação dos animais para crianças do 3º ano. Neste caso, a questão disparadora foi: “Que critérios eu posso usar para organizar os animais em grupos?”. Com base nela, os estudantes começaram a pensar em como poderiam organizar os animais. Em geral, são acionados critérios do senso comum e dos conhecimentos cotidianos desses alunos nesse momento. E tudo bem. “Essa questão disparadora vai acionar os conhecimentos cotidianos dos alunos e também vai despertar a curiosidade para investigar”, diz Lilian.

  1. Mão na massa

É o coração da aula de Ciências e deve ocupar a maior parte de seu tempo. Neste momento, o professor deve propor uma atividade para que o aluno possa investigar, usar toda essa curiosidade que foi aguçada, e lidar com os conceitos. Conhecendo seus alunos, vale pensar em atividades que a turma dê conta de produzir em 50 minutos. “Não adianta colocar um mundo de atividades dentro de um só plano de aula, ou pensar em algo que demande muita energia e tempo. É uma questão de gestão do tempo, mirando nos objetivos da aula”, comenta Lilian.

Um equívoco comum entre professores é deixar o momento da experimentação para depois da explicação. Primeiro, o professor sistematiza os conceitos, e depois os alunos partem para a prática. Herança do estilo tradicional de dar aula. “Dessa maneira, não é uma construção de conhecimento. O aluno já vai receber a informação correta e depois vai só testar”, critica Lilian. Para que haja uma construção ativa de conhecimento, o adequado é que primeiro os estudantes façam os testes e produções e, a partir da experiência, organizem seus aprendizados de maneira sistematizada.

  1. Sistematização

Na sistematização, o professor deve retomar a questão disparadora. “Diante de tudo o que foi estudado, pesquisado e debatido, onde nós chegamos?” indica Lilian. É o momento de amarrar a aula, ligar os pontos daquilo que foi trabalhado, estabelecer as conexões conceituais e procedimentais.

Também é o momento de avaliar os avanços dos alunos. “Ao mesmo tempo em que o professor auxilia os alunos a perceber aqueles conceitos trabalhados na mão na massa, ainda que de maneira desorganizada, ele também avalia se o aluno chegou até o ponto que o professor estabeleceu, que era o objetivo da aula”, aponta a professora.

Isso pode ser feito de diferentes maneiras: em uma grande roda de conversa, da qual se tiram os pontos principais do que foi descoberto e aprendido, ajudando os alunos a escreverem um texto coletivo que envolva os conhecimentos, um mapa conceitual, entre outras possibilidades.

Vale lembrar que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também compartilha dessa visão do estudante como investigador, e organizar uma aula em que o aluno é o protagonista do processo colabora muito para sua aplicação. "O ensino de Ciências aparece na Base com um grande foco em despertar no aluno essa curiosidade, de fazê-lo se perguntar o que é isso, como isso foi construído, como isso se relaciona com a minha vida", lembra Lilian.

Outra vantagem é que, na BNCC, conteúdos antes focados no Ensino Fundamental 2 agora estão espalhados por todos os anos, com diferentes intensidades. Para os professores dos anos iniciais, que nem sempre têm formação específica na área, esse formato de aula ajuda a se livrar das amarras do ensino tradicional. “O professor não precisa ser o detentor do conhecimento na sua amplitude. Ele pode descobrir as coisas juntamente com seus alunos. Aquele professor que trabalha há 15 anos da mesma maneira, que tem a sensação de que tudo o que ele vai ensinar, ele já sabe de trás para frente, precisa passar por um processo de desconstrução”, aconselha a professora.

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