A história angolana recontada

Ex-guerrilheiro, sociólogo e professor, Pepetela mistura narrativa mítica, ficção e relato histórico para jogar luz sobre personagens e passagens que ficaram de fora das crônicas oficiais

POR:
Bruno Mazzoco
Pepetela | Foto: Jorge Nogueira
Pepetela, escritor angolano
Foto: Jorge Nogueira

"Quando eu faço ficção baseando-me na história, é claro que há fatos dos quais eu não posso fugir, mas a explicação desses fatos é normalmente diferente daquela que vem nos livros de História." É assim que Pepetela explica a relação de sua literatura com os fatos recentes de Angola, representados pela historiografia oficial.

O autor enxerga em sua obra a possibilidade de fazer um contraponto à versão do colonizador e dar destaque a personagens ou grupos retratados de forma secundária pelos cronistas e historiadores lusos, que escreveram boa parte dos livros sobre as ex-colônias portuguesas. Essa mesma vontade de atuar diretamente na história o fez ingressar no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que assumiu a vanguarda na luta pela independência do país e ajudou a forjar sua personalidade de escritor.

Batizado como Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o autor preferiu a alcunha dos tempos de guerrilheiro para assinar sua obra, pela qual já foi agraciado com o Prêmio Camões, em 1997. Na entrevista a seguir, Pepetela fala um pouco de sua formação como escritor, os reflexos da vida na guerrilha em sua literatura e a experiência vivida no Ministério da Educação de Angola.

Como você se tornou escritor?
Na instituição colonial portuguesa, a redação tinha um tema marcado, como: "O cão é o melhor amigo do homem?". E eu precisava escrever um texto que explicasse essa relação. Era sempre a mesma coisa. Ou era a vaca, ou era o burro, ou era a cabra. Estava cansado, então inventei uma maneira diferente de escrever sobre aquilo. Achei que seria castigado, mas, pelo contrário, a professora leu a história para turma toda e disse: "Era isso o que eu gostaria que todos vocês fizessem". Aí que eu comecei a ser escritor.

Como é seu processo de criação de um romance?
Digamos que eu não tenho um único processo. Depende um pouco do tema. Alguns livros que escrevi têm ligação com a história de Angola. Nesse caso, tenho algumas balizas, alguns pontos de referência que o registro me dá. Mas sempre pensando que a narrativa feita sobre Angola até hoje, até a independência, era praticamente colonial, realizada por estrangeiros, o que acaba empregando a visão do europeu em relação ao africano. Isso também ocorria muito nos fatos contados pelos cronistas portugueses.
Quando eu faço ficção baseando-me na história, é claro que há fatos dos quais eu não posso fugir, mas a explicação desses fatos é normalmente diferente daquela que vem nos livros. Podemos dizer que é a visão do colonizado, e não do colonizador.

Sua obra é permeada por acontecimentos recentes de Angola, dos quais você participou ativamente. Qual é o diálogo possível entre história e literatura?
Minha obra é essencialmente baseada na realidade angolana. Um escritor pode usar a história para fazer ficção e a ficção pode realçar aspectos dos fatos passados. Relatado de uma maneira diferente e mais atrativa, pode ser que o que aconteceu interesse mais às pessoas.
O ficcionista também pode criar um mito sobre os fatos, com intenção política ou de ajuda em um processo criativo. É um pouco o caso do livro lançado agora no Brasil: Lueji - O Nascimento de um Império (384 págs., Editora Leya). Eu utilizei o mito da fundação do império no nordeste de Angola para realçar figuras importantes do passado das quais nós devemos ter orgulho e, assim, reforçar a identidade angolana. A história trata algumas dessas figuras de maneira isolada, e meu interesse é mostrar que elas estão inseridas em uma sociedade. Portanto, eu tento corrigir um pouco a história que é contada.

Como sua formação política influenciou em sua literatura?
Eu já escrevia poesias e histórias quando era muito novo. Mas foi praticamente ao mesmo que a carreira de escritor e a participação ativa na luta pela independência ganharam importância. Assim, há uma grande interferência não só da política em minha literatura, mas também da literatura em minha atuação política. Eu observo esse fator porque o escritor deve ver os dois lados da realidade, ao passo que o político tende a ver apenas seus interesses. O fato de eu ter estudado Sociologia foi essencial para isso. Em minhas obras, é perceptível meu interesse por sociedades, particularmente aquelas em transição, como a angolana e a do Brasil.

Como foi sua experiência no Ministério da Educação de Angola?
Ser vice-ministro da Educação, de 1976 a 1982, significou um desafio, porque foi logo após a independência. Era preciso mudar radicalmente o ensino - ate então colonial e voltada para uma pequena elite - e criar uma nova Educação para um novo país. Houve uma revolução completa, pois abrimos a escola para o povo. Criamos instituições por todos os lados, que passaram a ensinar o que era Angola, e não o que era Portugal.
Também tive o privilégio de fazer o primeiro manual de alfabetização do país, adaptando em parte o método Paulo Freire, que depois nós chamamos para assessorar a campanha de alfabetização que fizemos no início. Ele foi um grande companheiro, um grande amigo, um grande professor. Nosso mestre.
Nesses aspectos, a experiência foi muito interessante e entusiasmante. Mas com o tempo, passou a ser um pouco penoso. Eu queria escrever, e não estar em funções administrativas.

Qual sua relação com a literatura brasileira? Você vê ecos dela em sua produção?
Sim. Quando eu era muito jovem, li muita literatura brasileira. Eu comecei a ler Jorge Amado com 14 ou 15 anos. Depois, Graciliano Ramos e José Lins do Rego tiveram uma grande influência em meu desejo de ser escritor. Especialmente porque o Nordeste do Brasil é muito similar ao litoral de Angola do ponto de vista geográfico, populacional e cultural. Eu reconhecia minha cidade, Benguela, na Salvador dos livros de Jorge Amado e em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, por exemplo. Então, certamente houve influência em minha literatura.

Autores de diferentes países da África têm conquistado expressão internacional. É possível afirmar que exista uma escola literária africana?
Eu acho que há muitas literaturas na África, por isso é muito difícil falar de uma escola de pensamento africano. Até acho que deveria haver mais ligação entre os países africanos, que antigamente acontecia por meio das metrópoles coloniais. Por exemplo, entre Angola, Namíbia e Congo, há pouco conhecimento dos escritores uns dos outros. E são livros muitos diferentes, como são os chineses ou finlandeses, obviamente.

De onde vem Pepetela?
Na guerrilha, todos nós tivemos um codinome, necessário para proteger a família, e um companheiro escolheu Pepetela. Essa é uma palavra quimbundo, língua banto de Angola, e quer dizer pestana, meu sobrenome. Achei Pepetela muito mais bonito e sonoro que Pestana. Por isso, adotei como meu nome de guerra e depois como pseudônimo.

A decisão de usar o nome de guerra para representar sua literatura ainda traz algo do seu espírito de guerrilheiro?
Essas coisas são muito subjetivas e subconscientes, mas provavelmente sim. Como eu já não uso armas, por vezes tenho vontade de disparar uns tiros, então escrevo alguma coisa. Nesse sentido, o nome de guerra ajuda a fazer a ligação.

 

 

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