Teresa Colomer: "Literatura não é luxo. É a base para a construção de si mesmo"

Coordenadora do Grupo de Pesquisa de Literatura Infantil e Juvenil e de Educação Literária (Gretel), da Universidade Autônoma de Barcelona, fala sobre o ensino de literatura na escola

POR:
Paula Takada
Teresa Colomer. Foto: Divulgação/Henrique Lenza
Teresa Colomer Doutora em Ciências da Educação e coordenadora do Grupo de Pesquisa de Literatura Infantil e Juvenil e de Educação Literária (Gretel), da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha

Literatura é um conteúdo que precisa ser ensinado nas escolas porque possibilita refletir sobre o mundo, criar realidades, ampliar o repertório de linguagem e formar comunidades que se identificam com um determinado conjunto de obras, entre outras habilidades. É o que defende a espanhola Teresa Colomer, justificando a importância de relacionar leitura, literatura infantil e juvenil e formação literária na sala de aula.

Para ela, um dos aspectos do fracasso do estímulo à leitura que mais chamam a atenção tem a ver com a aprendizagem escolar. Ler e escrever são as primeiras tarefas em que as crianças podem não alcançar o que se espera delas. Então, criam defesas, passam a dizer "eu não gosto de ler", na tentativa de se preservar.

Autora de Andar entre Livros - A Leitura Literária na Escola (208 págs., Ed. Global, tel. 11/3277-7999, 42 reais) e Formação do Leitor Literário: A Narrativa Infantil e Juvenil Atual (456 págs., Ed. Global, edição esgotada), Teresa palestrou no evento Conversas ao Pé da Página, promovido pelo Sesc São Paulo, pelo Centro de Estudos em Leitura, Literatura e Juventude A Cor da Letra e pela revista digital independente Emília.

Como definir o que é um leitor literário competente?
TERESA COLOMER É qualquer pessoa que pode desfrutar da literatura lendo. Todos os que completaram a escolaridade obrigatória ou estão nela deveriam ter competência mínima nessa área. Se depois de adultos não quiserem ler, é uma escolha deles. Mas ninguém tem condições de tomar essa decisão se não conhece suficientemente esse universo.

Que competências a escola precisa trabalhar para formar leitores literários?
TERESA São muitas as habilidades envolvidas para que se possa ler, compreender e interpretar um texto e relacioná-lo com o mundo cultural. Uma delas tem a ver com rapidez e fluência: quem lê de forma muito lenta não consegue entender o que o texto diz. Outra é saber relacionar as informações que aparecem na obra. Também é preciso ensinar os alunos a se movimentar no mundo da cultura e da língua literária. Isso implica saber como funcionam as bibliotecas - incluindo o que fazer para encontrar uma obra nas estantes -, que os livros são vendidos nas livrarias, que existem títulos traduzidos e que faz diferença saber quem traduziu, pois o texto lido pode não ser fiel à obra original.

Ler literatura de maneira satisfatória impacta na formação de um bom escritor?
TERESA Acredito que ninguém pode escrever literatura se não lê. É como quem se propõe a tocar música sem ter ouvido várias. Ao ler, temos condições de aprender como funciona a linguagem escrita, os modelos narrativos, as vozes dos personagens. Quem não é leitor pode até escrever como se fala, limitando-se aos modelos orais, mas não outros registros literários intencionalmente mais elaborados. Por isso, a prática da leitura tem tanta importância na escola.

Quais as funções da literatura?
TERESA São muitas, entre elas apresentar outras perspectivas, permitir ao leitor se colocar na pele de outras pessoas e ver o mundo com distintos olhos. Ela também está relacionada à fantasia, à fabulação, que é uma necessidade humana, e por isso inventamos histórias desde sempre. E mais: a literatura constrói comunidades ao reunir pessoas que têm os mesmos referenciais, gostam dos mesmos personagens e das linguagens. Graças à poesia, por exemplo, lutamos com a nossa incapacidade de expressar tudo o que sentimos. Ela é o laboratório da língua e, tal qual as artes plásticas e a música, gera prazer.

Ampliar o vocabulário é outra função da literatura?
TERESA Certamente. No cotidiano, usamos um conjunto restrito de palavras que aprendemos oralmente. Além dele, toda linguagem a mais é aprendida por meio de textos escritos. Se uma criança não lê, não progride nessa aprendizagem e tende a ser alguém que se porta de maneira muito frágil no mundo, pois não domina os discursos, pelo contrário, é dominado pela fala alheia. Ter um amplo repertório ainda é importante para saber o que sente e o que pensa e dialogar com os demais. Literatura não é luxo. É a base para a construção de si mesmo.

Como organizar o ensino da literatura?
TERESA Criando tempos e espaços distintos para que os alunos desfrutem de vários tipos de leitura, de acordo com os objetivos escolares, que são variados. Ensinar hábitos de leitura, por exemplo, é diferente de ensinar aos estudantes conceitos literários que permitirão a eles gozar mais das leituras que fazem.

A leitura autônoma deve ser foco das aulas?
TERESA Sim, é imprescindível que as crianças leiam de forma independente na escola porque nem todas vão fazer isso quando estiverem fora dela. O papel da Educação em relação a essa desigualdade social é muito importante. Para aprender a ler de forma rápida e eficiente, é necessária muita dedicação. Os alunos só conseguem isso com o investimento dos educadores, que precisam ensinar também como escolher o que ler.

Em um estudo do Gretel, os pesquisadores identificaram a categoria leitor mediano, que está entre o competente e o não leitor. Como a escola deve trabalhar com as pessoas desse perfil?
TERESA Estudantes assim classificados têm algum hábito de leitura e leem entre cinco e dez livros por ano. Eles precisam, contudo, alcançar leituras mais elaboradas e diversificadas. São fáceis de ser conquistados, mas podem se tornar leitores fracos se não tratarmos bem deles. O que geralmente ocorre, principalmente nos anos finais do Ensino Fundamental, é que eles acabam se viciando em determinados gêneros e acabarem virando colecionadores. Quando as possibilidades de leitura se esgotam, não sabem o que fazer, desconhecem outras opções. Precisamos, então, observar de que tipo de obra gostam e ampliar o universo leitor deles, relacionando os títulos que já leem a outros, mais desafiadores e mais elaborados, porém, que preservam alguma semelhança com o que já é apreciado. Lembremos de que são leitores medianos, podem se sentir desestimulados diante de uma leitura complexa, por exemplo.

Como o professor pode melhorar a própria formação literária?
TERESA Esse é um problema sério. Pesquisas sobre o que os alunos de Pedagogia e das licenciaturas leram ou leem indicam que essa formação deixa a desejar. Se o educador não conhece os livros não pode formar leitores. Há várias formas de entrar nesse universo: frequentar bibliotecas, trocar indicações com colegas e participar de clubes de leitores nas redes sociais, por exemplo.

O que acha do uso de livros adaptados e resumidos na escola, baseado no argumento de que os estudantes não conseguiriam entender os originais?
TERESA Não tenho uma opinião contundente. É uma questão complexa. Primeiramente, porque ainda não se fez um debate profundo sobre a qualidade da infinidade de material que está sendo produzido em suportes digitais. Em segundo lugar, porque temos de considerar que há boas adaptações, como a história de Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) assinada por Monteiro Lobato (1882-1948) (Dom Quixote das Crianças, 152 págs., Ed. Globo Livros, tel. 11/3767-7514, 32 reais). Por fim, porque podemos até não sugerir a leitura de adaptações e resumos, mas as pessoas vão acabar em contato com eles de alguma maneira. Nesse momento, acredito que a indicação de leitura e o uso em sala de aula depende do livro. Uns respeitam o argumento do original, por exemplo. Especificamente com esses, os alunos podem aprender, mas não terão contato com a linguagem usada pelo autor, pois o texto foi simplificado. Isso é melhor do que não ler nada? Creio que sim.

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