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Lana de Souza Cavalcanti fala sobre o ensino de Geografia com novas abordagens

Para a especialista, explicar conceitos geográficos não basta. O educador precisa de reflexão e atualização constantes

POR:
NOVA ESCOLA, Beatriz Vichessi
Lana de Souza Cavalcanti. Foto: Carolina de Góes
Lana de Souza Cavalcanti

Vários modelos educacionais já foram experimentados para tratar de questões geográficas na escola brasileira. Durante a década de 1970, predominava a tendência do ensino baseado no trinômio "natureza, homem e economia". Esses conceitos, no entanto, eram vistos de forma fragmentada, cada qual tendo uma lógica própria e isolada dos demais. Depois, até os anos 1980, ocorreu o movimento de renovação no ensino da disciplina, que apontava para a ineficiência da metodologia adotada anteriormente. Surgiu, assim, uma Geografia crítica, acompanhando a evolução da ciência geográfica. Vivia-se a passagem da década de 1980 para a de 1990, um momento de abertura política e de especificação dos problemas sociais que o Brasil enfrentava. A disciplina assumiu a missão de denunciar contradições do modo de produção capitalista, tendo como proposta uma sociedade alternativa. Foi quando a geógrafa Lana de Souza Cavalcanti apresentou sua tese de mestrado e deu início a um percurso acadêmico dedicado à disciplina escolar e à formação docente - caminho que ela trilha até hoje na Universidade Federal de Goiás (UFG). Na entrevista a seguir, a pesquisadora afirma que não existe Geografia escolar de qualidade sem uma ponte que ligue a disciplina à vida cotidiana dos alunos. Ela defende o protagonismo dos professores e fala sobre questões delicadas referentes ao ensino para turmas de Ensino Fundamental.

Existe alguma diferença entre a Geografia como disciplina escolar e a ciência geográfica?
LANA DE SOUZA CAVALCANTI
Sim, embora ambas analisem a realidade pela mesma perspectiva. O modo como cada uma compõe e organiza os temas de estudo é diferente. No mais, a primeira é um feixe de referências - e, entre elas, está a ciência geográfica estudada nas nossas universidades. Para lecionar no Ensino Fundamental, não basta aplicá-la diretamente, nem de um modo simplificado. A disciplina tem história, estrutura e lógica próprias. Muitos professores recém-formados não têm isso claro e se sentem atormentados por não conseguir aplicar o que aprenderam na graduação.

Qual é a chave para que as aulas da disciplina tenham bases sólidas?
LANA
O foco na escola deve estar nos mesmos conteúdos aprendidos na graduação. Mas eles devem ser estruturados de outra maneira para ser apresentados às crianças. Preocupa ver que isso nem sempre é discutido na universidade. Resultado: quando chegam à sala de aula, os recém-graduados abandonam os conteúdos que aprenderam e se rendem a uma estrutura engessada. É preciso que eles alimentem a disciplina com novas reflexões e abordagens. Isso evita a deterioração da Geografia acadêmica, pois quem torna a disciplina viva é o educador.

E a situação de quem leciona para os anos iniciais do Ensino Fundamental, que não é especialista?
LANA
Além de não ser geógrafo, esse profissinal não aprende muito sobre Geografia na faculdade de Pedagogia. Por isso, é normal que ele não tenha recursos, ou que os tenha de forma precária e sinta dificuldades. Para lecionar com qualidade, basicamente é preciso ter consciência do que é e de como se constrói o pensamento espacial - um conhecimento geográfico que faz parte do cotidiano - e saber os conteúdos da disciplina. Todos nós ocupamos e produzimos um espaço, o do nosso corpo.

É possível introduzir uma estrutura organizada para o ensino de Geografia nos cursos de Pedagogia?
LANA
Existem algumas disciplinas já consagradas e que recebem mais atenção: Matemática, Língua Portuguesa e Ciências. Socialmente, essas são consideradas as mais importantes para a formação básica do aluno. O pedagogo provavelmente sabe mais a respeito delas e de como trabalhá-las porque isso lhe foi ensinado com ênfase. Desejo que, um dia, todas as disciplinas básicas sejam trabalhadas com a mesma dedicação.

Quem está mais preparado para lecionar Geografia: o geógrafo ou o educador polivalente?
LANA
O professor Clermont Gauthier (titular do Departamento de Estudos sobre Ensino e Aprendizagem da Universidade Laval, no Canadá) diz que o educador é formado no ofício sem saber, ou no saber sem ofício. No primeiro caso, que ilustra bem a situação do especialista, aprende-se Geografia sem saber para que ela serve. Exemplo: ele é capaz de falar que a Geomorfologia trabalha o conceito de erosão, que isso ocorre no cerrado e só. O que o aluno vai fazer com esse conhecimento? Quanto ao ofício sem saber, que geralmente é a situação do professor polivalente, se discute o que é lecionar, ser educador, a escola e seus problemas... Mas o saber, que deveria ser a questão central, acaba sendo negligenciado. É claro que todos os educadores precisam de conhecimentos pedagógicos, mas também é preciso dominar as informações disciplinares. Gauthier propõe um ofício que seja baseado no saber.

Há professores que reduzem a Geografia à explicação de conceitos - o que é uma paisagem, por exemplo. Por que isso é insuficiente?
LANA
Porque, ao se deter no conceito, o professor deixa de explorar os conteúdos. E é com base nos conteúdos, mas não se reduzindo a eles, que se ensina uma forma de ver a realidade. Ao apresentar uma paisagem litorânea, uma montanha ou uma serra, estou mostrando coisas aos estudantes, e é por meio delas que ensino uma maneira de olhar para o ambiente. Não é preciso dizer logo de cara o que é uma paisagem, pois esse conhecimento será construído. O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) explica que o conceito não se forma na cabeça de uma criança quando lhe é ensinado. Ele é elaborado à medida que os estudantes o constroem. Em outras palavras: você dá o conteúdo e, com base nele, a turma elabora o conceito.

Muito se fala sobre o papel da escola na formação de cidadãos. O que a disciplina tem a ver com isso?
LANA
Cidadania tem a ver com a vida em sociedade, e isso é objeto de estudo da Geografia. A escola tem de ajudar o estudante a entender o espaço público como uma produção social, um direito e uma responsabilidade de todos. O professor forma cidadãos quando dá subsídios para a turma participar conscientemente da vida social. Infelizmente, o termo "cidadania" está desgastado. Não estou dizendo que experimentar práticas cidadãs na escola seja errado. A questão é como fazer isso. A união da instituição com organismos da gestão pública para lutar por determinadas causas, por exemplo, é possível e plenamente desejável. Trata-se de uma prática da cidadania real.

Temas cotidianos, como as questões extraídas do noticiário, vão além do conteúdo previsto no currículo. Como dar conta das duas coisas?
LANA
É uma questão de prioridade. Quando o professor tem clareza de para que serve a Geografia e conhece seu contexto, ele sabe o que é essencial. Além disso, não se deve ter a pretensão de esgotar um assunto. O conhecimento geográfico e seus conteúdos vão e voltam várias vezes ao longo do Ensino Fundamental e do Médio. A Região Nordeste do Brasil, por exemplo: é um assunto que pode ser enfocado pelo menos quatro vezes nesse período. Se o professor quiser interromper esse conteúdo para explorar um episódio momentâneo, como um terremoto que virou manchete de jornais e revistas, não há probema. O educador precisa estar ciente de que não tem de terminar o ano na última página do livro didático. Ele precisa cumprir a programação, é claro. Mas não necessariamente tem de esgotar todos os temas.

Faz sentido pedir a cópia de mapas nas aulas de Geografia?
LANA
Sim, desde que o objetivo seja levar os estudantes a aprender algo, como o nome de acidentes geográficos. O trabalho com cartografia é importante porque, para aprender a fazer uma leitura geográfica, a primeira pergunta que se faz é: "Onde?". Essa é uma habilidade de representação da realidade que precisa ser desenvolvida ao longo dos anos escolares. Mas isso não significa decorar mapas. O que importa é saber consultá-los.

Como a disciplina pode ajudar a entender o mundo globalizado?
LANA
Não há enfoques específicos para a abordagem de temas geográficos. Indicações recorrentes nas pesquisas sobre o ensino de Geografia, no entanto, apontam para a necessidade de ter o lugar em que se vive como uma referência constante na aprendizagem. Há vários temas geográficos que são mundiais, têm interligações e ressonância globais, mas apresentam ocorrências específicas em certos lugares. Ao trabalhar determinado tema - um conflito territorial que ocorre em outro continente, por exemplo -, recomenda-se buscar a ligação desse fenômeno com a experiência cotidiana dos alunos, destacando elementos correlatos em outros conflitos, que sejam mais próximos da sua vivência. Nessa abordagem, há uma articulação dialética entre escalas locais e globais na construção de raciocínios espaciais complexos.

Há quem defenda que, primeiro, é preciso trabalhar a ideia de rua para depois seguir com a de bairro, de cidade e assim por diante, até chegar a conceitos macro, como o de continente. De onde vem essa concepção?
LANA
Recomenda-se uma articulação entre escalas ao trabalhar conteúdos geográficos, diferente dessa abordagem que vai do ambiente local ao global, ou do mais imediato ao mais distante. Essa concepção é questionada desde o fim do século 20, mas ainda não foi superada. A abordagem multiescalar implica trabalhar, desde o primeiro ano, o lugar de vivência imediata das crianças (a casa, o bairro, a escola) com a ideia de que os espaços vivenciados por elas têm a ver também com a produção de espaços maiores (a cidade, o estado, o país e o mundo) porque são resultantes de um processo histórico e social mais amplo. Isso quer dizer que determinado lugar não está isolado e não se encerra nele mesmo. O ideal é trabalhar respeitando os níveis de abstração e de cognição da turma, sem dar definições formais, mas apontando evidências de um lugar como localização de algo que está ligado a processos e realidades globais.

Muitos conteúdos tratados pela Geografia mudam rapidamente devido a conflitos armados, disputas fronteiriças e emancipações políticas, por exemplo. Como o professor pode se manter atualizado?


LANA
Acredito e trabalho com ideias que integram teoria e prática, inter-relacionam ensino e pesquisa, formação continuada e autoformação. Os dois últimos itens têm tudo a ver com essa questão. Qualquer profissional deve ter acesso a um processo contínuo de capacitação, e isso não significa pensar apenas nos tradicionais cursos de aperfeiçoamento, especialização, mestrado e doutorado. A atitude do educador diante do mundo deve ser sempre investigativa, questionadora e reflexiva, pois os conhecimentos com os quais ele lida em seu exercício profissional estão em permanente mutação. O princípio da autoformação, por sua vez, enfatiza a ideia de que ninguém forma o outro, mas todos se formam concomitantemente. É um processo reflexivo e contínuo a cargo do próprio profissional. Sendo assim, defendo que ele mesmo persiga essa formação contínua. Com o apoio da escola, é claro - ela precisa reservar tempo e espaço para a aprendizagem coletiva e individual dos seus docentes. Mas a responsabilidade por esse processo também tem de ser assumida pelas instituições de Ensino Superior. É fundamental que ocorra um intercâmbio entre a universidade e a rede básica de ensino para que o educador se atualize constantemente em relacão às novidades da produção acadêmica.

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CONTATO
Lana de Souza Cavalcanti

BIBLIOGRAFIA
Geografia, Escola e Construção de Conhecimentos
, Lana de Souza Cavalcanti, 192 págs., Ed. Papirus, tel. (19) 3272-4500, 31 reais
Geografia Escolar e a Cidade: Ensaios Sobre o Ensino de Geografia para a Vida Urbana Cotidiana, Lana de Souza Cavalcanti, 192 págs., 37 reais 

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