Entrevista com Rodrigo Baggio

Em 1995, o especialista em inclusão digital montou a primeira escola de informática numa favela

POR:
Ricardo Falzetta, NOVA ESCOLA

"Antes de equipar o laboratório é preciso elaborar um plano pedagógico. Caso contrário, ensina-se a técnica pela técnica"

Foto: Ricardo Beliel

Se pessoas como Rodrigo Baggio estivessem no comando dos programas oficiais de informatização das escolas, é bem provável que não existissem os vergonhosos índices de carência tecnológica das redes públicas de ensino. Aos 33 anos, dos quais sete como criador e comandante da ONG Comitê para a Democratização da Informática (CDI), Baggio é hoje o responsável indireto pela formação de mais de 200 mil jovens nas 522 Escolas de Informática e Cidadania (EICs) espalhadas por comunidades carentes do Brasil e de outros nove países.

Assim que a primeira EIC foi inaugurada, na favela Santa Marta, no bairro carioca de Botafogo, muitos preconceitos rolaram morro abaixo, como o de que "pobre não sabe lidar com tecnologia". Este é só um dos aros da roda que Baggio, autodidata em informática, premiado pela Unesco, pelo BID e por outros organismos internacionais, precisou reinventar para levar sua idéia adiante. Leia a seguir os principais trechos da entrevista, concedida ao editor Ricardo Falzetta no Rio de Janeiro.

NOVA ESCOLA> Como surge uma Escola de Informática e Cidadania?
Rodrigo Baggio< Em primeiro lugar, procuramos uma liderança comunitária que seja respeitada por todos, tenha credibilidade e idoneidade. Essa escolha representa 95% do sucesso da EIC. Em três meses, fazemos a capacitação inicial dos futuros educadores. É um curso básico sobre informática, sobre a pedagogia que será usada nas aulas e sobre a condução de projetos comunitários. É o suficiente para iniciar uma turma. Essa formação continua com cursos de capacitação e de atualização oferecidos pelos CDIs regionais (há 38 no Brasil e nove em outros países). No início, nós procurávamos as comunidades. Hoje, muitas nos procuram. Vamos até lá, avaliamos e aprovamos ou não a abertura da escola. Olhamos as condições físicas e identificamos os líderes comunitários e as pessoas que podem se tornar educadores.

NE> O CDI cria EICs em parceria com escolas públicas?
Baggio< Estamos procurando um caminho para isso. Mas há dois problemas a enfrentar. O primeiro é a grande rotatividade de professores na rede pública. Já tentamos essa parceria algumas vezes. Numa das escolas, chegamos a capacitar dez professores, mas depois de seis meses só dois deles continuavam lá. Em outra, depois de uma mudança na direção, o novo diretor pegou todos os micros do laboratório e colocou-os na biblioteca. O modelo da EIC é de autogestão e, por isso, depende do envolvimento dos responsáveis. É preciso compromisso. A outra questão é que uma EIC é mantida com mensalidades simbólicas que variam de 5 a 10 reais. O que não impede a participação do jovem que não tenha condições de pagar. Nesse caso, ele dá em troca algum trabalho voluntário na escola ou nos projetos. Esse tipo de gerenciamento de dinheiro na rede pública é mais complicado, mas acredito que por meio das associações de pais e mestres chegaremos a uma fórmula bem-sucedida. Dessa mensalidade, metade serve para pagar os professores e a outra metade vai para a compra de suprimentos e a manutenção dos equipamentos e das instalações. Na verdade, esse valor não é suficiente. Para se manter, a escola ainda tem de fazer campanhas constantes para arrecadar verbas.

NE> Que tipo de campanha?
Baggio< Um corpo-a-corpo com empresários que atuam na comunidade. E não precisam ser os grandes. Pode ser o dono da farmácia, do mercadinho, das pequenas e médias empresas.

NE> É possível ensinar informática e cidadania ao mesmo tempo?
Baggio< Sim. O projeto político-pedagógico implementado nas escolas do CDI é inspirado nos pensamentos do educador Paulo Freire e baseado na metodologia de projetos. Queremos, com esses projetos, realizar microrevoluções em cada comunidade. São sempre ações comunitárias, nas quais os alunos procuram solucionar problemas locais. Funcionam na base da solidariedade e do respeito ao próximo. São exercícios de cidadania. É partindo desses projetos e das necessidades que eles apresentam que nossos alunos aprendem a utilizar as ferramentas do computador.

NE> Que projetos são esses?
Baggio< Para cada software utilizado há pelo menos duas idéias de trabalho. Com um editor de textos, por exemplo, eles podem criar um jornal comunitário. Ao fazer esse jornal, os jovens levantam os desafios do lugar onde vivem, os problemas existentes, os sonhos, a realidade dos moradores. E o fazem de uma forma divertida. Podem também criar material de divulgação de alguma campanha social. Com um administrador de banco de dados, podem fazer uma pesquisa na região e criar um sistema de informações sobre escolas públicas, postos de saúde, organizações não-governamentais, cursos, centros comunitários, enfim, tudo o que há disponível para o cidadão.

NE> As escolas do CDI estão conectadas à internet?
Baggio< Um terço delas está. Esse é um grande desafio que o CDI tem pela frente. Como grande parte das escolas está localizada em favelas, há locais em que não existem linhas telefônicas disponíveis para o acesso. Há comunidades ribeirinhas na região amazônica que estão recebendo agora o primeiro telefone público. E outra dificuldade é que, no Brasil, somente 350 municípios oferecem provimento de internet. Nos outros, é preciso fazer uma ligação interurbana para se conectar. Nesse caso, os custos se elevam muito.

"O professor tem de deixar de lado a tecnofobia, o receio em relação às novidades tecnológicas"

NE> Como é a receptividade das comunidades com relação às EICs?
Baggio< Quando começamos, 80% dos alunos eram homens. Hoje, 56% são mulheres. Acho que o segredo está no poder de sedução que a tecnologia exerce sobre as pessoas. Em avaliações de impacto que realizamos, detectamos que 87% dos alunos afirmam que tiveram sua vida mudada para melhor em três aspectos: 1) deixaram a criminalidade ou se afastaram da possibilidade de entrar nela; 2) conseguiram emprego; 3) voltaram para a escola pública. A tecnologia da informação, se usada como ferramenta cidadã, pode não só transformar vidas individualmente, mas também desenvolver as comunidades de baixa renda e ajudar a construir uma sociedade melhor, com mais eqüidade, liberdade e solidariedade.

NE> Que recado você daria ao professor, coordenador ou diretor de uma escola que já tem laboratório, mas não sabe muito bem o que fazer com ele?
Baggio< Encare o computador como meio e não como fim. Para isso, é preciso uma proposta pedagógica que defina a metodologia de trabalho. Se você não sabe fazer isso, procure uma universidade ou qualquer grupo de pesquisa que possa apoiá-lo nesse processo de criação ou de replicação de uma metodologia já existente. Se quiser, procure um CDI regional. Vamos ajudá-lo como pudermos. Esse aspecto é muito importante. Caso contrário, corre-se o risco de ensinar a técnica pela técnica. Vira um cursinho de informática. Outra questão é mobilizar a comunidade escolar. Educadores, professores, direção e alunos precisam estar comprometidos com o desenvolvimento desse laboratório. A gestão tem de ser compartilhada, inclusive com a participação de pessoas da comunidade, que pensarão juntas o funcionamento do laboratório. Dessa forma, o projeto tem continuidade, porque sempre haverá alguém cobrando. E, finalmente, deixar de lado a tecnofobia, o receio em relação às novidades tecnológicas.

NE> Esse receio da tecnologia vem do medo de ser substituído por ela?
Baggio< O professor nunca será substituído. No máximo, vai deixar de ser um transmissor de conhecimento para ser um facilitador, que ajuda o aluno a pesquisar de uma forma mais eficaz. Lembro-me do caso de uma professora de escola pública que pediu aos alunos uma pesquisa na internet sobre clonagem. Como resultado, os alunos trouxeram uma enorme quantidade de informações sobre projetos de ponta de laboratórios de todo o mundo. A professora ficou constrangida por não conhecer muito do que a turma lhe apresentou. Mas não pode haver esse constrangimento. O certo é usar a experiência prévia de educador para orientar a pesquisa.

NE> E para as escolas que ainda não têm computadores?
Baggio< Façam campanhas locais, envolvam as pessoas da comunidade. Sejam insistentes.

NE> Como surgiu o CDI?
Baggio< Até 1993, eu era empresário da área de tecnologia. Minha empresa ia muito bem e eu não tinha tempo para nada. Mas sempre tive vontade de fazer algo pelo social. Não sabia o quê, mas tinha vontade. No final daquele ano, tive um sonho em que vi crianças da favela sentadas em frente a computadores, debatendo os problemas da comunidade. Foi um sinal. Alguns dias depois eu lancei uma BBS, a Jovemlink, uma espécie de embrião da internet. A intenção era que os jovens pudessem se comunicar e realizar debates. Alguns meses depois, a BBS já tinha cerca de 100 usuários. Mas, obviamente, nenhum deles era das classes mais pobres. Então resolvi lançar uma campanha de doação de computadores. Sempre com a ajuda de voluntários, começamos a receber máquinas velhas, verdadeiro lixo tecnológico. Mesmo assim, fazíamos a manutenção e doávamos. Algum tempo depois, percebi que os micros estavam sendo usados, mas não com todo o potencial. Faltava criar uma cultura de uso da informática. Foi aí que tive a idéia de criar a Escola de Informática e Cidadania.

"O projeto político pedagógico do CDI é inspirado em Paulo Freire e baseado na metodologia de projetos"

NE> Quem ajudou no início?
Baggio< Saí atrás de empresários aqui do Rio, mas não foi nada fácil. Até então, trabalhar pelo social era dar comida para quem tem fome. Só que nos grandes centros urbanos as pessoas não morrem de fome. Morrem de falta de oportunidade, que leva à criminalidade, ao narcotráfico, à violência e à morte. As pessoas também diziam que pobre tem mente de pobre e não tem capacidade de lidar com novas tecnologias. Tive de reinventar a roda, com 24 anos. Passava horas nas ante-salas de diretores e gerentes e costumava ouvir: "Tem um garoto aí querendo falar com o senhor". É até compreensível. Eu estava literalmente vendendo sonhos. Não havia nada igual, um estudo de caso que eu pudesse apresentar como modelo ou referência. Acabei conseguindo apoio da empresa C&A Modas, que já tinha uma cultura na área social, compreendeu minha idéia e nos doou cinco micros 386, coloridos. Na época, fiz contato com uma instituição católica bastante progressista que atuava na favela Santa Marta e decidimos que a escola seria criada lá. Durante quatro meses, subi o morro duas ou três vezes por semana para capacitar os primeiros educadores e formar a primeira turma de dez jovens. Com tudo encaminhado, resolvemos fazer o lançamento oficial do projeto, em março de 1995. Convidamos todas as lideranças locais. Até hoje, não sei como a notícia se espalhou, mas no dia da inauguração apareceram onze jornais, duas revistas, sete emissoras de TV e três de rádio para cobrir o evento. No dia seguinte, já havia voluntários querendo ajudar e uma série de pessoas físicas dispostas a doar novos computadores. No final daquele mês, convocamos uma reunião e apareceram 70 pessoas. De lá para cá, o CDI cresceu sem parar.

NE> E a sua empresa?
Baggio< Desde 1999, dedico-me integralmente ao CDI. Minha empresa ficou com a família. Eu poderia estar ganhando quatro ou cinco vezes mais no mercado, mas não estaria tão feliz e tão realizado como estou hoje.

Quer saber mais?

Comitê para a Democratização da Informática, R. Alice, 150, CEP 22241-020, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2557-8440, e-mail: cdi@cdi.org.br, internet: www.cdi.org.br

 

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