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Lutar na aula? Claro que pode!

Jogos ajudam a turma a conhecer fundamentos das modalidades de combate

POR:
leonardo de sá, Fernanda Salla e Carla de Franco

Quando alguém ouve a palavra luta, muitas vezes pensa em briga. Se o contexto é uma escola, então, vem logo o receio de que propostas envolvendo práticas de enfrentamento possam estimular os indesejáveis conflitos entre os estudantes ou resultar em machucados. A experiência mostra, porém, que as lutas são um campo rico para que a turma desenvolva aprendizados corporais e, se bem planejadas, podem ser levadas para a quadra com segurança.

Clayton Cesar de Oliveira Borges, professor de Educação Física da EE Erasmo Braga, em São Paulo, deixou esses preconceitos de lado nas aulas do 5º ano. Antes, conversou com a gestão da instituição de ensino e com os pais dos alunos, explicando quais eram seus objetivos. Para que os fundamentos das várias lutas ficassem claros para a garotada, em vez de eleger uma modalidade, ele usou o que há de comum entre todas elas, que é exercer, de algum modo, uma opressão sobre o oponente. Isso pode envolver estratégias de desequilíbrio, imobilização ou exclusão de um determinado espaço, com ações de ataque e defesa.

Além disso, segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as lutas se caracterizam por uma regulamentação específica, que prevê punição para atitudes de violência e deslealdade. Esses aspectos as diferenciam das brigas.

Ao elaborar as atividades, o foco do docente esteve no processo. O trabalho visou promover a compreensão de conceitos básicos sobre as práti cas abordadas, a ampliação do repertório sobre o tema e o desenvolvimento de estratégias e de capacidades como força, agilidade e reflexo. "Levando em consideração o fato de que a escola deve formar cidadãos e não atletas, os professores de Educação Física precisam usar uma metodologia voltada para o pedagógico, lúdico, lazer, e não esporte de alto rendimento ou método militarista", escrevem Francinaldo Freitas Leite, Ricardo Silva Borges e Thaís Lorran Dias, no artigo aqui) e o combate sobre o banco sueco (em que dois estudantes devem se manter em pé no aparelho de ginástica enquanto um tenta derrubar o outro, empurrando com os braços). Nas duas atividades, é trabalhado o equilíbrio.

No cabo de guerra (duas crianças seguram uma ponta da corda cada uma e precisam puxá-la até que o oponente invada o interior do círculo no meio da quadra) e na disputa em solo (em que o adversário deve ser empurrado para fora do círculo), as duplas praticaram o esforço para a conquista de um território. O jogo de "roubar" bexigas e bolas do colega trabalhou a imobilidade.

Depois das experimentações, Clayton exibiu vídeos com diferentes lutas, como o kung fu e a capoeira. Em seguida, retomou a cartolina com a lista do que era conhecido pelos alunos e questionou que relação havia entre aquelas modalidades e os movimentos vivenciados anteriormente por eles. "Muitos apontaram que as atividades de equilíbrio estavam presentes no judô", conta o docente. Ele ainda sugeriu que as crianças perguntassem aos pais e conhecidos que outras brincadeiras envolviam as práticas feitas durante a sequência didática. "Este ano, uma das famílias até lembrou da esgrima", diz o professor.

As conversas seguintes continuaram relacionando as lutas ao que havia sido realizado na escola e a turma identificou que a conquista de território estava presente no judô, no sumô e no jiu-jítsu, e que o equilíbrio é essencial na capoeira.

 

Movimento também é cultura

Retirar a bola ou a bexiga do oponente foi um dos desafos propostos em aula.

Marcos Neira, livre-docente em Metodologia do Ensino de Educação Física pela Universidade de São Paulo (USP), alerta para a importância de evitar uma perspectiva que valoriza somente a técnica em detrimento da ampliação do conhecimento sobre a compreensão do contexto e da cultura que circundam uma modalidade. Ademir de Marco, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), complementa: "Qualquer luta de origem oriental, por exemplo, é parte de um todo maior, uma filosofia de vida, com princípios que dizem respeito não só ao corpo. Por isso, a abordagem filosófica, parte fundamental de algumas delas, precisa ser considerada".

O professor Clayton buscou mostrar para a turma que as lutas estão ligadas ao modo como determinado povo enxerga o repertório de gestos da sociedade em que está inserido. Para isso, traçou um paralelo entre o que havia sido objeto de análise nas aulas e o contexto dessas modalidades. No artigo As Técnicas Corporais, o antropólogo e sociólogo Marcel Mauss (1872-1950) ressalta que qualquer movimento é fruto de um aprendizado, mediado pela observação e pela prática. Desde o modo como seguramos um talher até os golpes do kung fu, tudo é uma construção elaborada como consequência da vida em uma sociedade.

Ampliar o enfoque realizado por Clayton e contemplar as lutas em si nas aulas é uma boa opção, mesmo que seja necessário adaptar os espaços e os materiais utilizados convencionalmente. Mas é possível aprender e refletir muito coma vivência de movimentos e estratégias, como fez a turma da EE Erasmo Braga. "As lutas têm muito a ensinar, finalmente estão chegando na universidade e na formação dos professores, mas ainda há muito a ser proposto", aponta Ademir.


Fotos: Arquivo pessoal/Clayton Borges