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Bons motivos para repetir, repetir, repetir...

Reflexões de Lino de Macedo

POR:
NOVA ESCOLA
Lino de Macedo,

Lino de Macedo,
Professor aposentado do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP)

Faz muitos anos que me intriga a função da atividade de repetir nos processos da vida e do conhecimento. No primeiro estudo de Jean Piaget (1896-1980) que li, O Nascimento da Inteligência na Criança, observei a importância que ele atribuía às repetições para o bebê formar reações circulares primárias. Em outras palavras, os pequenos enfrentam o desafio de organizar um corpo cujas partes ainda não se conhecem como um todo e eles precisam  regular os reflexos inatos a suas necessidades e gostos de mamar, olhar, prender objetos com as mãos. Repetir, repetir e repetir melhorando é o que mais fazem para a conquista dessas reações. Nesse caso, trata-se de repetir para aprender a se organizar como um todo.

Nós, os construtivistas, costumamos associar esse ato com um decorar sem sentido para quem o faz. Pensando nisso, ocorreu-me verificar que há, pelo menos, outros três propósitos para a repetição. O primeiro é para apreender o que observamos e vivemos na experiência, ou seja, repetir para duplicar ou imitar. Graças a essa prática, formamos hábitos e costumes da família ou da cultura, nos tornamos alguém como nossos pais ou professores, aprendemos com nossas referências, com nossas ações, com situações e objetos com os quais temos contato. Quem repete pode não saber por que o faz, mas a consequência é aprender com a experiência. É ela que permite registrar o que vemos ou sentimos e manter ou até aperfeiçoar uma tradição.   

O segundo propósito é para apreciar. Isso acontece no campo das artes e da religião ou na convivência com pessoas e coisas. Gostamos de escutar a mesma música, admirar um quadro ou uma escultura sempre de novo, ouvir ou ler diversas vezes a história preferida, estar com um determinado grupo de pessoas, reverenciar ou cultuar símbolos ou crenças com práticas recorrentes. Também repetimos regras, como ocorre nos jogos, para conhecer seu desfecho ou desfrutarmos de sua realização. Nesse caso, o ato de fazer de novo serve para contemplar, cultuar, manter ou renovar um gosto ou valor. Seu sentido é apreciação, obediência ou louvor. 

Há um terceiro propósito, que é repetir para compreender. Penso que é nesse ponto que as pessoas mais divergem. Não construtivistas julgam que aprender pressupõe, dentre muitos outros aspectos, repetir para memorizar, decorar, até que algo se torne um hábito ou costume, evitando erros ou confusões. Corresponderia, talvez, a uma redução do processo que cito no início desse texto o exercitado pela criança pequena, desconsiderando-se que ali isso acontece na perspectiva de quem a realiza, e não na de quem a transmite ou ensina.

Para construtivistas, as repetições em forma de exercícios ou tarefas são um bom motivo para interagir com objetos ou pessoas, cujo desafio é, pouco a pouco, proporcionar um fazer ou compreender com cada vez mais sentido para seu autor. Repetir pode ser fonte de algo novo ou melhor para quem o realiza, porque o faz na condição de um sujeito ativo, aberto aos problemas do mundo que o cerca. Os aspectos de repetir e de aprender podem acontecer indissociavelmente, no plano da prática ou da experiência, seja na sala de aula ou no desenrolar de processos educativos. Mas é importante fazer uma distinção para não confundir qualquer repetir com aprender, nem qualquer aprender com repetir.

 

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