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Duas civilizações e um conflito antigo

Como abordar o extremismo religioso sem cair em estereótipos e preconceitos

POR:
Bruna Escaleira, NOVA ESCOLA e Ariane Alves

O recente atentado à revista francesa Charlie Hebdo vem gerando discussões sobre extremismo, preconceito e liberdade de expressão. O veículo publicava charges com críticas ao Islã de maneira tida como ofensiva, e vivia sob ameaças de retaliações. Em 7 de janeiro, Said e Chérif Kouachi, muçulmanos franceses, invadiram a sede da revista e mataram 12 pessoas. O atentado causou forte comoção no mundo todo e foi seguido de novos casos de violência na França.

Ao tratar desse tema tão polêmico em sala, "é comum que o professor resolva pegar o atalho e fazer as relações mais fáceis", aponta Daniel Helene, coordenador pedagógico do Centro de Estudar Acaia Sagarana, em São Paulo. Muitos acabam reproduzindo estereótipos - especialmente sobre os árabes, cuja cultura é mais distante da nossa. Esse tipo de preconceito também aparece no discurso dos europeus. Mas isso foi sempre assim? Algo mudou ao longo da história?

Para responder a essas perguntas, Helene sugere que o professor promova discussões com base na comparação de relatos escritos antigos e notícias atuais (como mostra este plano de aula). Observando o estranhamento mútuo entre as culturas e evidenciando o intercâmbio intelectual que sempre existiu, é possível promover a compreensão de diferentes concepções de mundo e construir repertório para que o aluno amplie sua visão sobre o tema.

O primeiro ponto que deve ser esclarecido à turma é que a relação entre árabes e europeus data de antes do surgimento do islamismo e que esses conflitos não são apenas religiosos. Pelo contrário, "as religiões não são opostas", afirma Helene. "O problema é como essas crenças convivem", diz Natalia Calfat, pesquisadora de Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (USP). "Não se pode culpar o cristianismo ou o islamismo pelos conflitos. As duas religiões foram apropriadas por seus seguidores com fins políticos e militares", explica Natalia.

Originado no Oriente Médio no século 1, o cristianismo tornou-se a religião dominante no Império Romano a partir do século 4 e, na região que hoje se conhece como Europa, desde a Idade Média. Surgido no século 7, o islamismo rapidamente ganhou força na Península Arábica e deu início à sua expansão. Além de ocupar a Índia e o norte da África, os muçulmanos dominaram os atuais territórios de Portugal e Espanha por oito séculos, o que motivou as batalhas da Reconquista Cristã.

Mais que retomar a Península Ibérica, o que só ocorreria em 1492, os cristãos buscaram dominar a Terra Santa nos atuais territórios de Israel e Palestina, historicamente ocupados pelos árabes. No entanto, as nove expedições militares comandadas pelo Vaticano, que ficaram conhecidas como Cruzadas, fracassaram.

Apesar das inúmeras mortes em nome da fé, tanto as Cruzadas como o domínio árabe na Europa não tiveram resultados apenas negativos. O contato entre as duas civilizações gerou um rico intercâmbio comercial e cultural. A bússola, a pólvora e a fabricação de papel trazidos do Oriente foram fundamentais para os novos rumos do Velho Continente; as noções de Matemática e Filosofia da Antiguidade foram incrementadas por pensadores árabes, como Averróis e Avicena; até as atuais noções de higiene dos europeus sofreram influência dos costumes mouros.

Os efeitos da marginalização

Integrada à cultura europeia, a contribuição intelectual e comportamental árabe foi levada a suas colônias nos séculos seguintes, influenciando todo o Ocidente. No entanto, nem sempre a notamos. "Temos a sensação de que todo conhecimento produzido no Ocidente é mais válido e melhor, enquanto o Oriente é classificado como atrasado e bárbaro", afirma Natalia. Associações como essa criam uma equivocada noção de superioridade da civilização ocidental diante da oriental, o que ajuda a promover a discriminação contra árabes e muçulmanos.

Para compreender a onda de extremismo que amedronta a Europa, é preciso observar a marginalização dos estrangeiros no continente. Os irmãos responsáveis pelo indefensável atentado à revista Charlie Hebdo viviam em situação precária na periferia de Paris como muitos outros descendentes de imigrantes de ex-colônias francesas do norte da África - onde predomina o islamismo - que buscam uma melhor qualidade de vida em países mais desenvolvidos, mas nem sempre encontram oportunidades.

Para Natalia, a discriminação muçulmana na Europa é semelhante à postura de desumanização de outros povos, como a apresentada pelos europeus na colonização da América e da África. No Brasil, negros e índios sofrem com os resquícios dessa marginalização histórica até hoje. Mostrar essas relações é uma maneira de aproximar o debate sobre extremismo e intolerância da realidade dos alunos, mesmo falando de casos tão distantes geograficamente.


Fotos: Getty Images / Boston Globe / Contributor