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Construir espaços para troca de experiências com os demais facilita a integração do docente novato

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Karina Padial, Lucia de Menezes, Larissa Teixeira e Rosi Rico
Coordenadores ( em pé) acompanham formação com os recém-chegados, em escola de São Paulo. Foto: Ricardo Toscani

A entrada de um novo integrante é sempre  um desafio para qualquer equipe. Seja um docente iniciante, seja alguém mais experiente que está trocando de escola, a adaptação ao ambiente pode trazer dificuldades.

Em um estudo realizado na rede municipal de Joinville, a 176 quilômetros de Florianópolis, a pesquisadora Márcia de Souza Hobold identificou as questões enfrentadas pelos que estão ingressando na profissão. Segundo ela, que é professora da Universidade da Região de Joinville (Univille), as principais queixas referem-se à falta de um espaço de troca de experiências, para que os recém-chegados possam entender o funcionamento e a política da instituição, e de uma formação continuada específica para eles. 

Outro problema apontado é que muitas vezes os novatos são encaminhados para as salas em que os alunos têm mais dificuldade, justamente aquelas que necessitariam de um educador experiente. "Os docentes chegam a um contexto diferente e precisam lidar com situações complexas, quando ainda deveriam se familiarizar com a cultura da rede e da comunidade", afirma Márcia. Isso ocorre com o iniciante e com quem já lecionou antes, mas precisa recomeçar em outra instituição. 

Uma boa recepção não deveria depender apenas do diretor ou do coordenador, mas também da colaboração das redes municipais ou estaduais. De acordo com Márcia, porém, são poucos os estados brasileiros que possuem algum tipo de programa de acolhimento para docentes em início de carreira, o que aumenta a responsabilidade do gestor para resolver esses dilemas. O que a escola pode fazer, então, para que o educador se sinta integrado e preparado para entrar em sala? 

Para Marli André, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), quem chega tem antes de tudo a necessidade de ser ouvido e respeitado como igual. "Nem sempre esses educadores têm a oportunidade de dizer o que pensam e fazer perguntas. Por isso, a equipe gestora deve propiciar um ambiente de confiança para que eles possam expressar suas dificuldades."

Conhecer o contexto

O primeiro passo é incluir na rotina do diretor e do coordenador pedagógico um tempo para receber esse novo professor. A conversa inicial deve incluir as informações básicas sobre o funcionamento da escola. Depois, pode ser feita a apresentação aos colegas e um passeio para conhecer os espaços, o entorno e o contexto em que a instituição está inserida. Para Márcia, uma opção interessante é levar o recém-chegado para caminhar pelo bairro e conversar com as pessoas da comunidade, caso ele não seja da região.

Outro ponto essencial é mostrar o projeto político-pedagógico (PPP), compartilhando os objetivos e as metas que norteiam o trabalho da equipe. Esse encontro deve englobar questões sobre o funcionamento e as diretrizes da rede, assim como a postura e as atitudes que a instituição espera desse educador. "Os gestores podem fazer reuniões para explicar o que já está estabelecido na escola e envolver os iniciantes no próprio desenvolvimento do PPP", explica Marli.

Essa ação demonstra que o projeto é construído democraticamente. "Ao abrir espaço para que ele seja alterado de forma coletiva, o novato percebe que pode opinar e expressar inquietações", diz Maria Beatriz Pauperio Titton, professora do mestrado em Gestão Educacional da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, a 35 quilômetros de Porto Alegre.

"Os gestores podem fazer reuniões para explicar o que já está estabelecido na escola", Marli André, professora da PUC-SP

Levantar o perfil dos alunos

Antes de iniciar as aulas, o recém-chegado necessita obter informações sobre as classes com as quais vai trabalhar. Na primeira semana, o coordenador pode ajudá-lo a fazer um diagnóstico para traçar o perfil dos alunos, o que será útil na hora de elaborar o planejamento. "É preciso haver uma conversa sobre as características de cada turma. Conhecê-las é importante para adaptar as estratégias, porque o que funciona em uma sala pode não dar certo em outra", aponta Marli. 

Vale também programar um momento com os professores que trabalharam anteriormente com as crianças ou os jovens. Assim, os docentes mais experientes podem compartilhar as particularidades de aprendizagem de cada estudante, a rotina da sala e a organização do ensino, por exemplo. 

Saber mais sobre as características e o contexto social dos familiares é outro ponto. É recomendável marcar reuniões para que o novato conheça os responsáveis por cada aluno e saiba o que eles esperam para a Educação dos filhos.

Novata ( no meio) recebe ajuda de outra docente  ( à esquerda) e da diretora adjunta, no Rio . Foto: Arquivo Pessoal  

Trocar experiências

As reuniões de formação exigem atenção especial. Para que o docente se sinta um participante ativo e integrado, é papel do coordenador fazer a mediação desses encontros e criar espaços de interlocução entre os novatos e os demais. "No horário coletivo, a equipe gestora precisa ter um protagonismo para garantir a inserção desses professores, favorecendo a troca de experiências", destaca Marli. Segundo ela, podem ser utilizadas estratégias de articulação e diálogo.

Esse intercâmbio pode ser mais eficiente se o planejamento das aulas for feito em parceria. Ao ser colocado com um docente experiente e que já conhece a proposta da escola, o recém-chegado se sente valorizado e mais preparado. Outra iniciativa interessante é organizar uma espécie de tutoria em que, por um tempo, os mais antigos ajudem na adaptação daqueles que estão começando para tirar as dúvidas pontuais. 

As duas medidas são adotadas na EMEF Haydea Vianna Fiúza de Castro, no Rio de Janeiro. Primeiro é feita a apresentação do novo integrante a todos os funcionários e docentes, bem como são mostrados os espaços e os materiais aos quais ele terá acesso. Depois que ele já está familiarizado com o ambiente, o planejamento é realizado em conjunto com o coordenador e com os outros colegas para garantir a troca de ideias. "Nas primeiras aulas, o professor que já conhece as turmas entra em sala de aula junto com o novato, ajudando-o na adaptação à nova rotina", explica a diretora, Patrícia Gomes de Azevedo. 

Outra opção é a estratégia adotada na EEEFM Dona Ana Rosa Araújo, em São Paulo. Depois do período de recepção ? que inclui orientações sobre o PPP e o regimento da escola, além de informações sobre as turmas ?, o próprio coordenador entra em sala, observa o trabalho do professor e, posteriormente, faz um atendimento individual para debater sobre as práticas pedagógicas e realizar as intervenções necessárias. "Essa conversa, porém, não significa fiscalização. É um momento para se criar uma parceria que proporcione uma reflexão sobre o trabalho e a busca da melhoria da aprendizagem dos alunos", diz Ana Regina dos Santos Alberti, coordenadora pedagógica dos anos finais do Ensino Fundamental. 

"Claro que a parceria se dá ao longo do convívio, mas um 
bom começo ajuda", Alberto Trecco, professor da EEEFM Dona Ana Rosa Araújo

Alberto Trecco, professor de Ciências do 6º ao  8º ano, que entrou na escola este ano, acha a atitude importante. "O papo foi uma oportunidade para conhecer melhor a coordenadora com quem iria trabalhar. Claro que a parceria se dá ao longo do convívio, mas um bom começo ajuda ambos, afinal ela também precisava saber o perfil de quem estava chegando à equipe."

Além desses encontros específicos, o novato participa das reuniões de formação para se integrar com os colegas e aprender com suas vivências em sala e também, como os demais, para debater sobre o processo de ensino e aprendizagem. Outra iniciativa, que foi criada para ajudar todos os educadores e pode ser particularmente útil para o professor iniciante, é consultar o Memorial de Boas Práticas Docentes, como é chamado o banco de atividades. Organizado a cada final de ano letivo, esse material ajuda a formar um quadro de referência sobre as práticas pedagógicas de toda a equipe. 

Essas políticas para uma boa recepção, porém, não devem ser restritas apenas aos primeiros meses. "Não adianta acolher o docente e depois deixá-lo sozinho. É preciso fazer um acompanhamento constante, não no sentido de controle, mas de colaboração", completa Márcia.

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