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Sala de Aula | Anos finais do Ensino Fundamental – Língua Portuguesa | Sala de aula


Por: NOVA ESCOLA

Poemas: escutar, ler, compreender, interpretar e declamar

Introdução

Esta sequência didática aborda um conteúdo curricular pouco ensinado atualmente: a poesia. Conhecer esse gênero é altamente desejável não só para a formação do leitor e do escritor que aprecia e sabe fazer uso de recursos da linguagem literária como também para a formação de um ser humano mais sensível à poesia da realidade que está à sua volta.

Antes de iniciar o trabalho, vamos refletir sobre por que vale a pena ensinar poesia na escola. A poesia desperta a sensibilidade para a manifestação do poético no mundo, nas artes e nas palavras. O convívio com a poesia favorece o prazer da leitura do texto poético e sensibiliza para a produção dos próprios poemas. O exercício poético desenvolve uma percepção mais rica da realidade, aumenta a familiaridade com a linguagem mais elaborada da literatura e enriquece a sensibilidade.

 

Objetivos

  • Aprender a escutar, ler, compreender, interpretar, declamar e produzir poemas.
  • Reconhecer e fazer uso de recursos da linguagem poética, como sonoridade e diferentes significados.

 

Conteúdos

  • Poesia e poema, rima, verso e estrofe.

 

Anos

8º e 9º do Ensino Fundamental.

 

Tempo estimado

12 aulas.

 

Materiais necessários

  • Uma lata média ou um balde com alça.
  • Papel-cartão, tintas ou páginas de revistas para decorar o objeto (a lata ou o balde).
  • TV e DVD.
  • Os poemas, de Mario Quintana, L&PM,1980.
  • Amor É Fogo Que Arde Sem Se Ver, de Luís Vaz de Camões
  • Metáfora, de Gilberto Gil.
  • A Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society), EUA, 1989.

 

Desenvolvimento 

1ª etapa  O mundo da poesia e do poema

Para criar um ambiente favorável ao estudo, leve para a classe imagens e breves biografias dos poetas que serão lidos. Organize um painel num canto da sala com esse material e dê um título a ele ou faça um concurso entre os alunos para a escolha do nome da área. Na medida em que o trabalho avançar, ali podem ser fixados poemas de autores escolhidos pelos alunos ou poemas produzidos por eles.

Explique para a classe que, juntos, vocês vão ampliar a compreensão da linguagem poética, dedicando-se agora ao estudo específico da metáfora. Para introduzir o assunto e conhecer o que os estudantes pensam sobre o tema, pergunte:

  • Você sabe o que é metáfora?
  • O que é linguagem subjetiva e linguagem objetiva?
  • Em que a linguagem de um texto científico é diferente da linguagem de um poema?
  • Alguém da classe já escreveu um poema? Qual?

 

A diferença entre poesia e poema

No ensino da poesia, é muito comum haver confusão entre o que é poesia e o que é poema, como se fossem vocábulos sinônimos. Então, poesia e poema significam a mesma coisa?

Não. Poesia é um termo que vem do grego. No sentido original, poiesis é a atividade de produção artística, a atividade de criar ou de fazer. De acordo com essa definição, haverá poesia sempre que, criando ou fazendo coisas, somos dominados pelo sentimento do belo, sempre que nos comovermos com lugares, pessoas e objetos. A poesia, portanto, pode estar nos lugares, nos objetos e nas pessoas. Assim, não só os poemas, mas uma paisagem, uma pintura, uma foto, uma dança, um gesto, um conto podem estar carregados de poesia.

Poema é uma palavra que vem do latim poema, que significava composição em 'verso, comédia ou peça teatral', e do grego poíéma, que significa 'o que se faz, manual, criação do espírito ou invenção'. Portanto, poema é poesia que se organiza com palavras.

 

Dê um tempo para a classe discutir as questões em pequenos grupos. Depois, abra uma roda de conversa e solicite que comentem sobre o que conversaram. Esse momento dará a você uma ideia do que seus alunos já sabem ou pensam sobre metáfora e linguagem subjetiva e objetiva.

 

2ª etapa  Leitura

Diga aos alunos que você vai ler para eles um poema de Mário Quintana. Estude previamente a leitura do texto. Prepare-se para ler em voz alta e leia com bastante expressividade. Peça para prestarem atenção à definição que o poeta dá para poemas.


Os Poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti... 


(Esconderijos do Tempo, de Mário Quintana, L&PM,1980)


Depois dessa primeira leitura, escreva o poema no quadro ou forneça cópias do texto para os alunos. Pergunte:

  • Poemas são a mesma coisa que pássaros?
  • Que semelhanças o poeta vê entre pássaros e poemas e que permitem ao poeta dizer que os poemas são pássaros?


Após essa indagação, explique o que é sentido literal e figurado.

 

O que é sentido literal e sentido figurado

De maneira geral, usamos as palavras com dois diferentes sentidos: o sentido literal e o sentido figurado.

Sentido literal: nesse caso, o sentido da palavra é exato, direto, simples, não deixa dúvida. Geralmente, nos textos em que deve predominar uma linguagem clara e objetiva, como os jornalísticos e científicos, as palavras aparecem com um único sentido, aquele que aparece nos dicionários. O sentido literal também é chamado denotativo.

Sentido figurado: quando a palavra aparece com um sentido ampliado ou alterado no contexto, sugerindo ideias diferentes da literal, dizemos que ela está no sentido figurado. Ele também é chamado conotativo. 

 

A linguagem que os poetas utilizam não é uma linguagem comum. Eles não usam as palavras em seu sentido literal, do modo como estão no dicionário. Eles se expressam de modo subjetivo. O mesmo não ocorre com os cientistas. Com base nisso, peça para os alunos imaginarem o que aconteceria se um cientista explicasse uma nova descoberta em linguagem subjetiva. Cada profissional faria uma interpretação diferente da explicação e essa variedade de interpretações poderia causar muitos problemas. Por exemplo: para o cientista, a Lua é um satélite natural da Terra. Para poetas, a Lua pode ser a Casa de São Jorge, uma fatia de queijo, um colar de prata da noite.

 

Outras possíveis atividades para praticar a linguagem conotativa

1. Pergunte para a classe por que motivo um cientista ou um professor usam o sentido literal das palavras ou a linguagem denotativa, quando escrevem um texto para explicar uma teoria.

2. Peça para a classe ampliar a lista acima: para os poetas, a Lua pode ser...

3. Os poetas se expressam de modo subjetivo. O mesmo não ocorre com os cientistas. Selecione poemas e textos científicos. Proponha aos alunos que comparem a linguagem de um com a do outro para perceber as diferenças entre esses gêneros textuais.

4. Peça para a classe comparar o verso de Quintana com uma definição de poema encontrada no dicionário. Comente o efeito de sentido de cada definição:

a) Poemas são pássaros.

b) Poema é obra em versos.

5. Solicite que os alunos, em dupla, elaborem uma definição científica e uma definição poética para coração. Organize um painel com essas definições distribuídas em duas colunas: Coração para o cientista é... e Coração para o poeta é....

6. Pergunte para a classe por que um cientista não pode fazer uso de linguagem subjetiva e o poeta pode.

7. De acordo com o que responderam acima, peça para concluírem: um cientista precisa fazer uso de uma linguagem objetiva, utilizando o significado mais conhecido das palavras porque sua intenção comunicativa é.... Já a intenção dos poetas não é explicar nada, sua linguagem é subjetiva porque a intenção comunicativa é....

8. Leia para a classe o poema do poeta português Luís Vaz de Camões, Amor É um Fogo Que Arde Sem Se Ver, e que vem comentado logo abaixo. Peça para os alunos fazerem um levantamento em todo o poema do que é o amor para o poeta.

 

 

3ª etapa  Conversando sobre a linguagem poética 

Explique para a classe que a linguagem subjetiva dá um novo sentido a palavras conhecidas. O novo sentido nasce de uma semelhança percebida pelo autor. Para Quintana, os poemas são como os pássaros. No famoso soneto de Camões, o poeta português enumera várias semelhanças que ele vê para o sentimento do amor.

 

Dicas

Quando for ensinar linguagem poética:

  • Selecione poemas não só pela temática, mas, sobretudo, pela sonoridade e/ou metáforas.
  • Proponha sempre a leitura de poemas em voz alta para a percepção auditiva da sonoridade e do ritmo dos versos.
  • Compare a objetividade da linguagem científica com a subjetividade da linguagem da poesia. A poesia é expressão da subjetividade do poeta. Caracteriza-se, portanto, pela linguagem criativa e metafórica. Seu estudo não pode ser reduzido apenas ao estudo de rimas, versos e estrofes. É preciso ir além disso, explorando os recursos que dão efeito sonoro, como a aliteração e a assonância, e o sentido conotativo e o caráter polissêmico das palavras.
  • Mostre que o trabalho do poeta é árduo e que a linguagem poética tem um caráter subversivo, como nos casos em que há desobediência às normas da língua.

 


Amor É um Fogo Que Arde Sem Se Ver 

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer; 
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade; 
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor 
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? 

 

Explique que a linguagem poética é chamada de figurada porque faz uso de figuras de linguagem. Tais figuras são recursos que os poetas usam para criar efeitos de expressividade, ou seja, para emocionar o leitor. Há vários tipos de figuras e uma delas é a metáfora.

 

A metáfora

Essas semelhanças ou relações que o poeta estabelece entre dois elementos, sem usar o termo de comparação "como", chama-se metáfora e é uma figura de linguagem muito usada na poesia. Ela ocorre quando um termo é substituído por outro em função de algum ponto de contato, de alguma semelhança entre eles. Se o primeiro verso do poema de Camões fosse: o calor do amor arde como o calor do fogo, ele estaria fazendo uma comparação. Camões preferiu escrever uma metáfora. No poema de Quintana, se a opção fosse a comparação ficaria assim: ospoemas chegam não se sabe de onde como os pássaros chegam e não se sabe de onde.

 

Distribua vários outros poemas para a classe. Peça para os alunos compararem o efeito de sentido da comparação e da metáfora nos textos citados aqui e nos que você levou para a turma.

 

A internet como aliada no trabalho com poesia

Professor, sempre que possível, use os benefícios da internet como ferramenta auxiliar para o ensino e a pesquisa. Para ampliar a análise e a reflexão sobre os recursos da linguagem poética, além dos poemas aqui apresentados, ofereça à classe outras opções. Uma boa fonte para encontrá-los é a Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesahttp://bit.ly/29enM7T

 

4ª etapa  Criação da lata do poeta

O cantor e compositor baiano Gilberto Gil escreveu uma letra para uma canção que é uma explicação poética para metáfora. Leia a letra para a classe e, depois, procure a música na internet para todos cantarem juntos.

 

Metáfora

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo 
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta 
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta 
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora 

 

Peça para que os estudantes interpretem os versos de 7 a 12 e pergunte se eles concordam com eles. Solicite que expliquem por que tudonada está escrito como se fosse uma palavra só.

Depois do exercício, leve uma lata média ou um balde com alça para a classe. Oriente os alunos a decorar a lata por fora, pintando-a ou recobrindo-a com papel colorido. Ela será a Lata do Poeta, onde tudonada cabem.

Organize um acervo de livros de poesia ou cópias de poemas de diferentes poetas. Exponha os livros e os poemas sobre um tecido bem bonito no chão da sala de aula e solicite que cada aluno selecione metáforas nos poemas expostos. Para isso, eles terão de ler vários. Deixe-os escolher à vontade. Este momento não pode ser apressado.

As metáforas deverão ser copiadas em papel-cartão e colocadas dentro da Lata do Poeta. A lata (ou balde) ficará pendurada no pátio da escola. Peça aos alunos que convidem os colegas das outras turmas, os professores, os funcionários e os pais a jogar mais metáforas na lata, se quiserem.

 

5ª etapa - Poesia e cinema 

Organize uma sessão de cinema com debate. O filme a ser exibido para a turma é A Sociedade dos Poetas Mortos (Dead Poets Society), EUA, 1989, dirigido por Peter Weir e estrelado por Robin Williams, Robert Sean Leonard, Ethan Hawke e Josh Charles. O longa conta a história de um professor que fez com que os estudantes se encantassem com a literatura. Segundo ele, o que dá sentido à vida tem a ver com o espírito e com o prazer, e a literatura, incluindo aí a poesia, é uma fonte riquíssima desses elementos.


6ª etapa Sarau: preparando um poema para ler para os outros 

Falar para um público não é tarefa fácil, principalmente para os mais inibidos. Este momento tem como objetivo desenvolver a oralidade. Dê um tempo para que os alunos escolham poemas para declamar e se preparem para falar. Instrua os estudantes a levar os textos escolhidos para casa e ensaiar sua leitura em voz alta. Desafie-os a decorar os poemas. Em data marcada previamente, organize um sarau para eles se apresentarem.

 

Avaliação 

Peça para os alunos produzirem textos para que você possa avaliar o que compreenderam do que foi estudado e averiguar se os objetivos de aprendizagem foram atingidos. Diga à classe que cada um planeje o que vai escrever (lembre-os de usar as figuras de linguagem e os sentidos estudados), faça rascunho, revise e finalmente passe a limpo seu poema. Reúna as produções dos estudantes e exponha-as num mural ou organize uma antologia.

Outra possibilidade é pedir que escrevam um texto expositivo, em prosa, para explicar o que é metáfora. O escrito será lido por colegas de outra série. Compartilhe com os estudantes que eles serão avaliados pelo maior ou menor entendimento dos leitores depois de ler a explicação que deram.

 

Bibliografia

Para ampliar o estudo, recorra a antologias e boas obras didáticas que abordam o ensino da linguagem poética.

Verso, Sons, Ritmos, de Norma Goldstein. Ática, 2006, Coleção Princípios.

Trabalhando com Poesia, Volumes 1 e 2, de Alda Beraldo. Ática, 1990.

Produção e Leitura de Textos no Ensino Fundamental, de Beatriz Citelli. Cortez, 2001, vol. 7.

Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, seleção de Ítalo Moriconi. Objetiva, 2001.

Coleção do programa do MEC Palavra da Gente, o volume de antologia poética brasileira.

No Meio do Caminho Tem um Poeta, matéria publicada na edição 150 de NOVA ESCOLA, março de 2002.

 

 

Consultoria

Heloísa Cerri Ramos Professora de Língua Portuguesa