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Eles estão com a cabeça no futuro

Os adolescentes ouvidos pela pesquisa estão conectados às novas tecnologias e anseiam pela entrada no mercado de trabalho

POR:
NOVA ESCOLA

Pessoas fascinadas pela tecnologia, que vivem conectadas e buscam a independência e a autonomia. Os jovens ouvidos - quase metade deles pertencentes a famílias cuja renda não ultrapassa 1,5 mil reais - compõem um público que privilegia o acesso a equipamentos tecnológicos. Segundo a pesquisa quantitativa, 70,7% dos entrevistados têm acesso à internet em casa. E mais: para uma parte significativa - 57,6% -, esse acesso se dá por meio de tablets e celulares. Todos declararam usar as redes sociais. "Garanto que eles trocam outro tipo de consumo pelo consumo da informação por meio da tecnologia. É uma forma de se sentirem pertencentes a uma sociedade tecnológica, é uma questão de identidade", conclui a pesquisadora Priscila Albuquerque Tavares, da Fundação Getulio Vargas (FGV). "Me surpreende a escola não estar demonstrando muito interesse em se apropriar desses recursos", diz José Armando Valente, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os adolescentes procuram emprego cedo, talvez enxergando um caminho para a obtenção dos bens de consumo que apreciam. Na pesquisa, os que estudam e trabalham somam 17,3% do total e os que trabalham e deixaram de estudar chegam a 12,5%. Porém, os que declararam já haver trabalhado e recebido remuneração por isso, antes da pesquisa, chegam a 41,4%. As condições variam nas duas metrópoles pesquisadas. Entre os alunos de São Paulo que trabalham, 45% foram contratados em condições formais. Já no Recife, 83,5% dos que estão no mercado não têm carteira assinada. "O trabalho precoce faz parte da identidade juvenil e a escola deve se adequar a isso", diz Maria Inês Fini, consultora da Fundação Roberto Marinho. Mesmo os que só estudam estão em busca de colocação: nas duas metrópoles, pouco mais de um quarto dos entrevistados procurou emprego na semana anterior à pesquisa.

O ingresso no mercado de trabalho não parece ocorrer por pressão das famílias, nem nas economicamente menos favorecidas. Mais de 85% dos alunos acreditam que para os pais o mais importante é concluírem os estudos. Outro fator que indica a valorização da escola é que 76,7% dos adolescentes haviam cursado a Educação Infantil. "Conseguir ter acesso a um ensino de qualidade é a busca desses pais, que veem nisso um meio de crescimento para os filhos", diz Maria Inês. A maioria das famílias pesquisadas possui um nível relativamente baixo de escolaridade: 47,7% dos pais tinham cursado parte ou todo o Ensino Fundamental, número que sobe para 54,9% no caso das mães. Já 20,6% dos pais tinham chegado ao Ensino Médio - completando ou não - perante 28,1% das mães. "O grau de escolaridade da mãe é um importante fator para a manutenção dos filhos na escola. De modo geral, são elas que coordenam a rotina da casa", diz Maria Inês.

Chamou a atenção, durante a análise dos dados da pesquisa, um ponto ligado à religião. Ainda que os católicos sejam maioria - 41,5% -, o número de evangélicos chega a 30,6%. A literatura sobre o tema aponta que a maior importância atribuída à Educação pelos protestantes influencia o investimento nessa área. A leitura da Bíblia, num contexto de baixa escolaridade, por exemplo, é uma experiência relevante, já que é incorporada à prática familiar e à experiência dos jovens.

Perfil do adolescente

  • 46,6% Tem menos de 1,5 mil reais de renda familiar
  • 41,4% Já trabalhou e recebeu remuneração por isso
  • 30,6% É protestante evangélico

Capital cultural

  • 84,9% Tem mesa para estudar
  • 84,4% Usa a internet para estudar
  • 76,7% Frequentou a Educação Infantil
  • 70,7% Tem computador com internet
  • 60,4% Conta com alguém para ajudar nas atividades
  • 57,6% Tem celular com internet ou tablet
  • 25,9% Utiliza celular ou tablet para estudar
Jovens de 15 a 19 anos residentes nos setores censitários 40% mais pobres, que frequentam ou frequentaram o Ensino Médio. Regiões Metropolitanas de São Paulo e Recife, 2012.