Memórias literárias - Minha cidade

POR:
professor

Objetivo(s) 

  • Analisar e reconhecer os gêneros literários memorialistas (autobiografia, crônicas, correspondências, lendas, literatura de viagens, poesia, diário)
  • Produzir textos narrativos a partir das histórias da cidade contadas por familiares e por escritores regionais
  • Montar albúm da história do bairro e da cidade com fotos ou figuras antigas e recentes
  • Apresentar a produção final nas comemorações do aniversário da cidade
  • Doar para o arquivo da escola as "Memorias literárias - Minha cidade". 

Conteúdo(s) 

  • Memorialismo literário
  • Leitura
  • Produção de textos

 

Ano(s) 

Tempo estimado 

2º BIMESTRE EJA

Material necessário 

  • Cópias da crônica  "Reencontro com o passado", de Yvonne Silveira
  • Cópias do texto "O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA...", de Cyro dos Anjos
  • Cópias "CURIOSAS RUAS DE MONTES CLAROS ", de Wanderlimo Arruda.
  • Fotos antigas e atuais do bairro e da cidade
  • Relatos das famílias dos alunos
  • Data show

 

Desenvolvimento 

1ª etapa 

Introdução

O passado pessoal e coletivo, com suas histórias, memórias, acontecimentos e particularidades, sempre foi uma fonte muito importante para produção literária. Contar a própria história ou fazer dela base para construção de uma obra ficcional é um exercício literário realizado por muitos autores. A narrativa do passado, seja de forma realista ou saudosista, psicológica ou sociológica, serve de excelente fonte para a leitura e produção de textos.
Autores de várias épocas e estilos criaram obras memorialistas. Muitas delas se tornaram clássicas, e a diversidade narrativa prova que narrar os fatos do passado pode ser bastante estimulante. A literatura de viagens, por suas características próprias, sempre foi uma referência no gênero memorialista. Obras que relatam as aventuras e desventuras de personagens como os exploradores do início da colonização, como Cabeza de Vaca e Hans Staden, as viagens de Marco Polo, ou mais recentemente, as memórias de antropólogos, arqueólogos e exploradores, seduziram leitores de várias partes do mundo.
A literatura também utiliza a memória como inspiração. No Brasil, autores de várias épocas produziram obras marcadas pelo memorialismo. Taunay, Casimiro de Abreu, Cora Coralina, Pedro Nava, Rubem Braga, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e José Lins do Rego são alguns nomes que produziram literatura sob o signo da memória. Em Montes Claros, Cyro dos Anjos, Yvonne Silveira, Vanderlino Arruda, entre outros, também produziram literatura memorialista.

Comece a aula falando sobre o gênero memorialístico na literatura. Mostre aos alunos que vários autores produziram obras com o intuito de preservar memórias de fatos marcantes de suas vidas, dando vida a obras literárias de grande importância.

Mostre aos alunos os vários tipos de textos literários que podem se enquadrar no memorialismo: autobiografia, cuja característica principal é a narrativa pessoal da própria história; correspondências, que por sua forma pessoal e privada, acabam expondo detalhes e lembranças das vidas dos missivistas; crônicas, em que os autores fazem uso de acontecimentos cotidianos como inspiração; diários, por si só destinados a preservar s memórias de quem escreve; lendas, que são histórias contadas de geração a geração, muitas vezes baseadas em nossa memória ancestral; genealogia, que narra a história das famílias e poesia lírica que, por sua característica sentimental, é um gênero que muitas vezes mistura recordações, nostalgia e memórias da vida do autor.

Ressalte que em qualquer texto memorialístico, as características principais são: sequência narrativa (o autor conta uma história, a sua própria ou a de outrem, em ordem direta ou indireta); confessionalismo (o tom de exposição da própria vida, como uma forma de redimir ou explicar o passado); subjetivismo (o autor expõe sua visão absolutamente pessoal dos fatos, por vezes trazendo um aspecto psicológico para a narrativa).

Explique as características da crônica e diga aos alunos que objetivo desta sequência é a produção de crônicas e poesias a partir das memórias que irão coletar com a família e a partir de suas leituras.

Utilize o texto de yvonne Silveira, "Montes Claros", como ponto de partida para estimular os alunos a produzir textos narrativos a partir das memórias coletadas com familiares. Peça que leiam e que observem o tom memorialístico, especialmente no trecho em que a autora descreve a cidade, ressaltando as qualidades, em tom alegre, ainda que nostálgico.

Montes Claros

Yvonne Silveira

As cidades, como as pessoas, nascem, crescem e morrem. A diferença está na longevidade. Nas pessoas, a vida é curta, passageira como os cometas, enquanto as cidades, como as estrelas, duram milênios. 
Com cento e cinqüenta anos, Montes Claros é jovem e bela, dançando no tempo, crescendo e enfeitando-se com a sabedoria e arte, depois do esforço árduo dos pioneiros para a estabilidade econômica e financeira.
Na educação, foram surgindo escolas, depois faculdade, a primeira tornando-se nossa Universidade, referência para a formação profissional, imprescindível no contexto do crescimento. São elas as mais altas expressões do saber, nesta jovem urbis de cento e cinqüenta anos e delas têm surgido artistas notáveis na Música, Pintura, na Dança, no Teatro, que se aliam aos de outra formação e brilham nas vestes da jovem e predestinada Montes Claros.
A literatura, pelo poder da palavra, é arte imprescindível para o crescimento dos cidadãos que enformam a cidade.
Projetada, internacionalmente, com Cyro dos Anjos, contando com outros poetas e prosadores de valor indiscutível, vários pertencentes à Academia Montesclarense de Letras, outra referência cultural, a literatura montes-clarense cresce, principalmente na crônica memorialista, “quase história”.
Governantes, políticos, administradores, empresários, instituições. Comerciantes, profissionais, operários têm impulsionado o crescimento desta, surgida de uma fazenda, há trezentos anos uma vila e há cento e cinqüenta uma cidade altaneira e primeira do norte de Minas.
E, se arte literária, cujo barro é a palavra, para o artesão escritor, é importante, esta mesma palavra, arma poderosa para construir e destruir, é a mais poderosa para a consolidação do poder. E ela tem sido assim, para nossa cidade. Vindo, quase com o seu nascimento, com o Correio do Norte, a imprensa montes-clarense vem colaborando com o progresso, abrindo horizontes, aplaudindo, criticando alertando e divulgando as realizações, em todos os setores, mostrando a pujança jovem mais formosa do sertão, estrela iluminando o sucesso. Ao lado está a imprensa falada, inicialmente, com a força ZYD-7, hoje, com tantas outras e a televisão, força poderosa. Da imprensa escrita e falada, nomes de valor surgiram e permanecem indeléveis na história. 
Para o lazer, o colunismo social é indispensável, para os combativos construtores do progresso, amenizando o viver, alegrando e, também colaborando na divulgação do crescimento da Montes Claros polivalente como todas as cidades e como todo ser humano.
Quantos anos viverás ainda, ó Montes Claros, terra do meu nascer, onde cresci e onde vejo fechar-se o círculo? Quantas glórias ainda terás? Quantos nomes ficarão ainda na tua história? Ainda, ainda reinarás, eu sei e pressinto, porque, com o meu amor, outros amores surgirão para tornar-te mais bela, mais pujante e chegares aos duzentos, trezentos, mil anos...

 


Ao final da aula, peça para os alunos pesquisarem a história de Montes Claros, conhecida por suas famílias. Oriente-os a perguntar aos pais e outros familiares sobre fatos marcantes da história do bairro e da cidade (pais, tios, avós e bisavós). Datas e locais, origens, ocupação, formação, além de acontecimentos marcantes, participação em momentos históricos, ou até mesmo histórias peculiares, trágicas ou engraçadas, podem ser anotadas. Deixe claro, entretanto, que o objetivo é apenas recolher os dados, pois a produção será feita nas aulas seguintes.

2ª etapa 

Distribua aos alunos cópias do texto "O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA...", de Cyro dos Anjos, pedindo que observem o tom confessional, autobiográfico, nostálgico e subjetivo presente no diário.

O LUAR DE CARAÍBAS TUDO EXPLICA...

Há três ou quatro semanas não tenho tocado nestas notas senão ligeiramente, para acrescentar uma ou outra linha a esta ou àquela página.

Examinando-as, hoje, em conjunto, noto que, já de início, se compromete meu plano de ir registrando lembranças de uma época longínqua e recompor o pequeno mundo de Vila Caraíbas, tão sugestivo para um livro de memórias.

Vejo que, sob disfarces cavilosos, o presente se vai insinuando nestes apontamentos e em minha sensibilidade, e que o passado apenas aparece aqui e ali, em evocações ligeiras, suscitadas por sons, aromas ou cores que recordam coisas de uma época morta.

Analisado agora friamente, o episódio do Carnaval me parece um ardil engenhoso, armado por mim contra mim próprio, nesses domínios obscuros da consciência. Tudo se torna claro aos meus olhos: depois de uma infância romântica e de uma adolescência melancólica, o homem supõe que encontrou sua expressão definitiva e que sua própria substância já lhe basta para as combustões interiores; crê encerrado o seu ciclo e volta para dentro de si mesmo à procura de fugitivas imagens do passado, nas quais o espírito se há de comprazer. Mas as forças vitais, que impelem o homem para a frente, ainda estão ativas nele e realizam um sorrateiro trabalho, fazendo-o voltar para a vida, sedento e agitado. Para iludir-lhe o espírito vaidoso, oferecem-lhe o presente sob aspectos enganosos, encarnando formas pretéritas. Trazem-lhe uma nova imagem de Arabela, humanizando o “mito da donzela” na rapariga da noite de carnaval. Foi hábil o embuste e o espírito se deixa apanhar na armadilha...

Não farei violência a mim mesmo, e estas notas devem refletir meus sentimentos em toda a sua espontaneidade. Já que as seduções do atual me detêm e desviam, não insistirei teimosamente na exumação dos tempos idos. E estas páginas se tornarão, então, contemporâneas, embora isso exprima o malogro de um plano.

Começarei por contar honestamente os motivos por que, durante as três últimas semanas, abandonei este caderno de apontamentos. São dois, e o segundo é fácil de dizer: foram as velhas. Mas o primeiro... ainda há pouco eu hesitava em confessá-lo: foi a moça.

Depois da Quarta-feira de Cinzas veio-me uma aura romântica que me pôs meio lunático, trazendo-me dias agitados. Presumivelmente curado da moléstia, posso contar as coisas tal e qual se passaram. Como na noite de Carnaval, e já sem a desculpa do álcool e do éter, voltei, de novo, a essa a que vou chamando Arabela, por lhe ignorar o nome de batismo e porque, afinal, o que lhe dei se me afigura o adequado. Pus-me a procurá-la quase com aflição e, perdendo a noção do ridículo, confiei o episódio e minha desordem sentimental ao Silviano. Felizmente (e com certeza por solidariedade, visto que anda em maré análoga), ele não fez troça. Pelo contrário, ouviu, sério, a confidência.

Podem rir-se de mim, mas os namorados me compreenderão: amei, como se se tratasse de um ser real, aquilo que não passava de uma criação do espírito. A vida não se conforma com o vazio, e a imagem da moça encheu-me os dias.

Tive noites difíceis, bebi algumas vezes e andei como vagabundo pelas ruas. Até o chefe da Seção notou minha inquietude e fez-me assinar um requerimento de férias: “O senhor está precisando de repouso e deve aproveitar a ocasião. O Secretário está fora, e temos pouco serviço.” (Na verdade nunca tivemos serviço, e jamais conheci ficção burocrática mais perfeita que a Seção do Fomento...). Em tal estado de espírito, é fácil de ver que eu não poderia retomar estas notas.

Devo retificar, nesta página, o que atrás foi dito sobre o amanuense que espia o amanuense e lhe estiliza o sofrimento. Observo agora que o namorado, no momento preciso de sua agitação sentimental, não é capaz de se desdobrar ao ponto de permitir ao espírito, quando o coração bate desordenadamente, estudar, para fins literários, os movimentos desse desvairado músculo. As modificações que a paixão determina em nossa substância e a diversa visão, que ela nos proporciona, dos seres e das coisas, poderão vir lucidamente, mais tarde, ao plano da nossa análise, quando, tudo já serenado, o espírito calcula e mede, mas certamente não são suscetíveis de registro, no instante em que devastam nossa sensibilidade. E ninguém o ignora: a literatura das emoções é feita a frio, e a memória ou a imaginação é que reproduz ou cria as cenas passionais. No momento da devastação, alma e corpo se solidarizam.

Eu pediria inutilmente o socorro do bom senso ou da análise nas horas em que vivi a perseguir uma imagem que teria um terço de realidade e dois de fábula. Naquelas horas, entreguei-me inteiramente aos secretos impulsos, percorrendo toda a cidade em busca de Arabela.

Postava-me nos logradouros públicos, penetrando a multidão, não muito convicto, e contudo esperançoso. Muitas vezes entrevi uma figura gentil e fui, em vão, ao seu encalço. Logo verificava o engano. É extraordinário que nesta altura da vida me tenham acontecido tais coisas, mas o luar de Vila Caraíbas tudo explica, e o adolescente permanece no adulto.

Só passados alguns dias a tola ideia deixou-me, e a aventura de Carnaval se foi dissipando no meu espírito. Quis, então, voltar a estas notas, que se vão tornando o centro de interesse de minha vida. Mas, na noite em que comecei de novo a folheá-las, ocorreu outro empecilho: o estado de saúde das velhas. Falarei nisso amanhã. Acho-me cansado e não há pressa.

                                          (O amanuense Belmiro, capítulo 8, 1937.)


 

Observe também que um texto memorialístico literário é marcado por sua capacidade de fazer uma análise contextual do tempo a que se refere a partir de uma memória pessoal, aparentemente sem grande relevância. 

Fale sobre a bibliografia de Cyro dos Anjos.


Outro autor nontesclarense que pode servir de parâmetro para uma compreensão mais aprofundada do memorialismo é Haroldo Lívio. Várias, de suas crônicas estão baseada em aspectos memorialísticos bastante pessoais. Ao narrar sua chegada a Montes Claros, ele descreve aspectos marcantes da cidade na metade do século 20. A memória pessoal do autor ajuda o leitor a visualizar o ambiente, apesar das mudanças decorrentes do processo de passagem do tempo.

Projete o texto e  leia para a turma, procurando enfatizar o aspecto memorialístico contrapondo-se a um contexto histórico e social.

Montes Claros criança em 1953

Haroldo Lívio

Esta crônica é só para registrar lembranças que não couberam na outra em que contei minha chegada nesta cidade, há sessenta anos passados. Não falei do mercado municipal, onde pulsava o coração da pequena metrópole sertaneja. Era ali, por perto dele, que aconteciam os fatos mais importantes do cotidiano. Negócios, comícios, mortes, prisões. Quem fosse ao mercado voltava para casa sempre trazendo novidades. Seu relógio marcava as horas e era ouvido longe, porque não havia o barulho do trânsito nem prédios altos impedindo a propagação do som. Já que falei de trânsito, antes que me esqueça, quero lembrar que a cidade contava com apenas um guarda de trânsito, o inspetor Pimentel, do DET, que ficava na esquina de Dr. Santos com a Praça Dr. Carlos Versiani orientando o fluxo de veículos. Nesse caso, o guarda podia chamar o condutor do carro pelo nome, uma vez que havia poucos carros. Possuir um carro era luxo permitido a milionários, como o capitão Enéas, Osmane Barbosa, João Athayde, Oldemar Santos, mais alguns outros pecuaristas e industriais. O jovem cirurgião Konstantin Christoff e outro rapaz, Bolivar Silveira, tinham carro conversível. Nem o gerente do Banco do Brasil tinha carro, e seus funcionários iam para o trabalho de bicicleta. Diferentemente de hoje, era um tempo romântico e saudável... 
Já que falei em romantismo, quero evocar o Montes Claros Tênis Clube, ou seja a Praça de Esportes, que era a sala de visitas da cidade. Toda a beleza e suavidade de nossa urbes se resumia neste logradouro de ar puro, paisagem verde e céu azul de anil. Quem não fosse sócio da praça, estaria fora da história e da geografia da cidade. Era um pedaço do paraíso transportado para cá e plantado na várzea, um jardim de delícias da juventude.
Mas a cidade era bem menor. Ainda não existiam bairros como o Todos os Santos, Jardim são Luis, Melo, Major Prates, Delfino Magalhães, Planalto. O São José estava sendo medido para loteamento. A Vila Guilhermina estava recebendo as primeiras moradias. Lembre-se que a Avenida Coronel Prates terminava em frente à Santa Casa e era limite do perímetro urbano. A cidade, realmente, explodiu e multiplicou-se, como fogos de artifício, clareando e abrindo novos caminhos.
Funcionavam, aqui, três bons cinemas: o São Luís, o Coronel Ribeiro e o Ypiranga. Os filmes de maior sucesso, em 1953, formando extensas filas, foram O Cangaceiro, nacional, e Sansão e Dalila, de Cecil B. de Mile, com Victor Mature e Susan Hayward. O antigo Cine Montes Claros estava fechado para reformas e no local funcionava a churrascaria do gigante Leon Soltz, que era gaúcho e não estrangeiro. Os tipos populares, muito encontrados nas ruas, eram o pintor louco Alá-laô, que tocava violão, cantava e trabalhava nos raros momentos de lucidez; Juscelino, um doido calado que veio de Bocaiúva; Geraldo Tatu, no início de sua carreira, totalmente inofensivo; uma garota da vida fácil chamada (impiedosamente) de Chimbica, que poderia ser uma doente mental; outros menos expostos, e finalmente Mané Quatrocento, que era trabalhador e artista, apresentando-se em programas de auditório da ZYD-7 como cantor e galã. Montes Claros montesclareava e tinha de tudo um pouco.



Após a leitura, selecione alguns alunos e peça que contem quais as histórias que encontraram. Estimule a turma a refletir sobre como as memórias dos familiares mostram a formação do lugar em que vivem. Ajude-os a perceber se o que conhecem hoje tem características citadas nas histórias contadas  pelos familiares. De que forma o ambiente que conhecem  é fruto das características desse passado? Qual o papel das tradições na formação de nosso bairro/cidade? Essas reflexões poderão direcionar a produção dos textos, ao final da sequência.


Distribua à turma cópias de "CURIOSAS RUAS DE MONTES CLAROS ", de Wnderlimo Arruda. Evidencie a presença da historiografia. É importante relembrar a crônica de Yvonne Silveira, lida na primeira aula, que tem um tom de nostalgia parecido.

 

CURIOSAS RUAS DE MONTES CLAROS 

Wanderlino Arruda 

Vínhamos do Bairro São José para o Todos os Santos e lá, pela altura dos fundos da Praça de Esportes, sem ser solicitado, emiti uma instrução par o colega João Leite, dono e motorista do carro: "Siga em frente e entre na Rua do Marimbondo". É claro que ele se espantou, primeiro porque não estava me perguntando nada, segundo, porque não sabia que danada de rua era essa, a do marimbondo. Tive de explicar: a rua mencionada era a que ele conhecia pelo nome de Rua Altino de Freitas, aliás Rua Cel. Altino de Freitas, um famoso delegado municipal, pai de Deba, o mais poderoso chefe político que a cidade já teve. Logo adiante, pedi a João Leite para olhar à esquerda, para que pudesse ver e conhecer também as Ruas Marimbondinho e Marimbondão, ruelas, bequinhos estreitíssimos, até há pouco tempo locais de rendez-vous, tremendas barras-pesadas. Falei de outras ruas depois disso, mas nem sei se o companheiro estava interessado em dados históricos desta querida e sempre louvada cidade dos Montes Claros. Em casa, à noite, para me instruir mais no assunto de nomes antigo de ruas, fui em busca do auxílio de Hermes de Paula, no seu famoso "Montes Claros, sua História, sua Gente e seus Costumes". Não era a primeira vez que eu o consultara no assunto, mas esta foi muito importante, possivelmente pela motivação de novo interesse. Tudo bastante curioso. Por exemplo, a Rua do Marimbondo, além, desse nome, teve também o de Costa Carvalho, de Oriente, Xavier de Mendonça, Marquês de Paranaguá. O Costa Carvalho foi um erro na confecção da placa, pois a lei homenageava um dos fundadores da cidade, o Alferes José Lopes de Carvalho. Por azar, o Lopes passou a Costa. Hoje, isso não tem importância, porque várias camadas de denominações soterraram o engano. Um teste para você, leitor. Qual seria a Rua da Cagaiteira? Quais seriam as ruas da Assembleia, do Pedregulho, do Bate-Couro, do Pequizeiro, do Jatobá? Vejamos pela ordem estabelecida por Doutor Hermes. A rua da Cagaiteira, também chamada depois de Rua Sete de Setembro, é a atual Camilo Prates, que perdeu parte desse nome para João Souto, logo depois para Praça Cel. Ribeiro. Da Assembleia (por causa de uma famosa reunião de boêmios) era a Afonso Pena; do Pedregulho, chamada mais tarde de Ocidente, Joaquim Nabuco, que hoje se chama Gonçalves Figueira; do Bate-Couro, mais tarde Coração de Jesus, é a atual Governador Valadares; do Pequizeiro e também Juramento, a Rua Cel. Antônio dos Anjos; e a do Jatobá que, em outros entretantos, foi chamada de Avenida Estrela, claro, é a Cel. Prates, que perdeu as extremidades para a Praça Portugal e para a Avenida Mestre Fininha, porque hoje ela só é Cel. Prates dos fundos da Nau Catarineta (igrejinha do Rosário) até a Praça Honor ato Alves, mais chamada de Praça da Santa Casa. A rua São Francisco, bipartida para dar nome a D. Tiburtina (depois do Automóvel Clube, construído no terreno da casa dela), chamava-se da Soledade. A Doutor Santos era todinha Bocaiúva, antes chamada de Floresta. A Doutor Veloso era a Rua Direita, enquanto a atual Presidente Vargas havia passado por Rua Maria Souto e depois Quinze de Novembro. A Praça Doutor Chaves era a Largo da Matriz, e a Padre Augusto era a São Paulo. Por causa da antiga Santa Casa, a Praça Doutor Carlos foi por muito tempo denominada Largo da Caridade. O mais interessante deixei para o final. A Rua Simeão Ribeiro, antes Rua do Comércio, era a mesma Justino Câmara que desembocava ou começava na Rua da Raquel, que, por sua vez, teve os nomes de General Osório e depois Padre Teixeira, nome atual. Como nos velhos tempos montes-clarenses, nenhuma rua tinha nome de gente (pode haver exceções, que não sei), fiquei intrigado com o nome de Raquel. Veio em meu socorro o próprio doutor Hermes de Paula, explicando que Raquel foi uma famosa hetaira nos bons tempos. Aí danou tudo, tive que ir ao dicionário para ver o que significa hetaira. Caldas Aulete, sem mais nem menos, remeteu-me para outro vocábulo: hetera. Aí estava a explicação: hetera quer dizer cortesã, mulher de vida livre, mulher perdida, mulher dissoluta. Na Grécia antiga, prostituta, puta elegante, bonita e distinta. Falou, doutor Hermes!...

Finalize propondo uma atividade de produção de textos. Cada aluno deverá elaborar um texto literário com as pesquisas feita: A ideia é que, a partir dos modelos literários analisados, os alunos produzam individualmente, na forma de crônica, poema ou uma narrativa semificcional, narrativas que tratem de histórias sobre seuprópriobairro ou sobre a cidade. Para finalizar o Memória Literária, o aluno pode acrescentar fotos  recentes e atuais expondo o que narrou nesse trabalho.  

 
Alguns assuntos que podem render boas narrativas: o modo como o bairro foi formado; a história de algum familiar que tenha imigrado; a participação de familiar em algum acontecimento histórico marcante; o estabelecimento da família no bairro ou na cidade; algum familiar que tenha se destacado em alguma atividade. Mesmo uma memória pessoal marcante pode render um bom texto. Deixe-os livres para optar pela forma, que pode ser prosa ou poesia. O texto pode ser iniciado na sala de aula e finalizado em casa. Ao final do trabalho, digite os textos, monte um painel com as memórias e histórias descritas e exponha para o restante da escola.

Escolha alguns dos textos produzidos para exposição nas comemorações do aniversário da cidade.

Como encerramento, indique aos alunos a leitura de uma obra memorialística. 

 

Avaliação 

Avaliar se seus alunos foram capazes de compreender a importância do gênero memorialístico para a literatura; e também se conseguiram produzir narrativas coerentes e coesas, a partir das memórias coletadas com a família. Procurar valorizar as histórias narradas, mas avaliando os aspectos criativos e formais da construção dos textos.  Também se os alunos conseguiram distinguir os diferentes gêneros literários memorialísticos. Esses métodos serão usados no momento da exposição da narrativa: Depois da entrega do trabalho: "Memórias literarias  construindo o futuro" os alunos farão uma breve exposição para outras turmas, deixando essa narrativa para o arquivo da escola.   

Flexibilização 

Flexibilidade que usarei será encima do conhecimento que tenho dos alunos desta escola. Pois os mesmos foram desprovidos de uma educação  qualitativa e quantitativa no transcurso de sua vida escolar, a falta de professores qualificados, estrutura física da escola, merenda escolar e orientação pedagógica, área indígena e de dificil acesso,tudo isso e muito mais, contribuiram para esta deficiência intelectual privando os mesmos de acompanhar a aceleração da educação atual.    

Deficiências 

Intelectual

Créditos: André Rosa Formação: Professor de Literatura e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), PR

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