Reescrever, editar e remixar na era digital: novos conteúdos?

Artigo | Natalia Zuazo e Mirta Castedo

POR:
Natalia Zuazo, Mirta Castedo
Natalia Zuazo, cientista política argentina e jornalista especialista em Novas Mídias. Foto: arquivo pessoal
Natalia Zuazo
Cientista política argentina e
jornalista especialista em
Novas Mídias
Mirta Castedo, especialista argentina em Didática da Leitura e da Escrita, é docente e pesquisadora da Universidade Nacional de La Plata. Foto: Daniela Mac Adden
Mirta Castedo
Especialista argentina em Didática
da Leitura e da Escrita,
é docente e pesquisadora
da Universidade Nacional de La Plata

Redes sociais

O episódio é útil para pensar o impacto que a internet provoca na relação com a informação: tem a ver com o modo como a acessamos, produzimos, modificamos e buscamos3. Essas novas formas pelas quais transitamos são transcendentes, pois rompemos com a ideia de que só alguns podem produzir, publicar e modificar a informação e acessar o que foi publicado4. A presidente não precisou criar um jornal para fazer com que os demais falassem de outros temas. Bastou saber ler, escrever e operar um meio disponível para as pessoas que têm um aparelho celular e sabem usá-lo.

No mundo digital, o mais importante não são somente os conteúdos digitais5 mas também a reelaboração que se faz com base neles e as experiências que permitem: editar um vídeo com algumas imagens de outros vídeos, escrever um texto para um blog valendo-se de fontes distintas, adicionar notas a vídeos, criar uma biblioteca digital pessoal sobre um tema etc. Reelaborar e experimentar com conteúdos digitais poderia ser explorado como um conteúdo escolar: quando tem sentido e como fazê-lo? Como resolver a questão da citação e da autoria se a fonte se apropria do texto de um site que não cita o autor?

Nessa nova língua, a do remix permanente, poderão dominar mais o meio os que compreenderem como funcionam as plataformas6 e as ferramentas, já que é nos suportes que transcorrem as narrações (por exemplo, ao passar de um suporte a outro: do papel para a internet ou de um site para uma rede) e são as ferramentas postas em ação para realizar essas operações que modificam os conteúdos digitais. O que dos conteúdos digitais deve (por necessidade social) e pode (pelas possibilidades dos alunos de acordo com as condições de ensino) passar a ser conteúdo escolar não é algo que se possa decidir por meio da tecnologia. É por meio de uma política educativa e do progresso coletivo que os educadores podem construir as melhores e mais oportunas formas de comunicar novos saberes.

Não é só saber ler e escrever, mas mexer com a tecnologia? Não. Como revela Manuel Castells (2009), são as práticas de comunicação de massa que se transformaram. Há duas décadas, os meios massivos (o rádio, a televisão e a imprensa escrita) dominavam o panorama da produção-publicação-circulação, a informação era escassa, o tempo dado às notícias era maior e torná-las acessíveis era caro. O controle dos meios sobre a produção de informação desempenhava um papel fundamental. Hoje essas práticas convivem com outras em que sobra informação, o tempo de leitura é menor e fragmentado (o que não quer dizer que ao fim do dia se tenha lido menos - ao contrário) e o custo para publicação e distribuição é menor (podemos publicar uma notícia e distribuí-la em uma rede social).

Com essa modificação do poder de publicação e distribuição, os grandes meios perdem parte do poder e estão acompanhados de outras redes que diversos grupos constroem às margens. A boa notícia é que, quando a informação deixa de funcionar horizontalmente (a partir de um centro, de cima para baixo) e toma a forma da rede (o rizoma de Deleuze), cada margem pode se converter em um novo centro.


3 Sobre acesso e busca na escola, ver os capítulos de Flora Perelman e Marina Kriscautzky em Las TIC en la escuela, nuevas herramientas para viejos y nuevos problemas.

4 BARICCO, A. (2008). Los bárbaros. Anagrama.

5 Conteúdo digital: aquele que se publica; um texto, uma canção, uma foto, um vídeo etc.

6 São "plataformas", por exemplo, um tablet, um celular ou um notebook. Também as plataformas de armazenamento e produção como os programas (software) e as máquinas (hardware), sem esquecer a nuvem, a saber, os espaços digitais de armazenamento na internet (como os utilizados por Youtube, Wikipedia, Dropbox, Google?).

Tempo e fragmentação

Voltemos ao problema do tempo e à fragmentação que tanto preocupa a escola. Como assinala Roberto Igarza em Burbujas de Ocio (2009), a distribuição dos tempos de ócio nas grandes cidades está mudando. A vida no trabalho e fora dele, de estudo e de descanso, foi preenchida com pausas. Para as novas gerações, o trabalho e o estudo estão misturados com o entretenimento e o ócio, num mundo de micropausas que coincidem com o tempo de consultar um blog e o Facebook. Essas "bolhas" já não são só para consumir ou acessar, mas para produzir ou distribuir conteúdos breves, como comentários. O desafio que essa mudança apresenta está relacionado ao valor do tempo para produzir, buscar ou consumir informação.

Se os leitores não estão em lugar nenhum, mas em todos, e consomem mais informações do que nunca (fragmentadas e ao longo do dia), talvez existam desafios e muito valor em boas práticas escolares já desenvolvidas. Primeiro, se sabemos que os conteúdos, quanto mais breves, melhores possibilidades têm de se infiltrarem nos tempos de interrupção, então, não se trata de evitá-los, mas de ensinar a contextualizar o breve. E como se ensina e se aprende a contextualizar? Em parte, estabelecendo uma relação com outras informações e saberes para dar sentido, para compreender. Segundo, será indispensável, para a tarefa de contextualização do breve e rápido, contar com outras práticas de leitura, que criem a possibilidade de um conhecimento (não só de informações) que permita pôr cada peça em seu lugar (como vincular um tweet com o que já sabemos sobre a produção petroleira do país porque já estudamos o tema). Terceiro, diante de tanta oferta informativa, dispersa e variada, serão cada vez mais importantes a capacidade de comparar e escolher e a de editar ou encontrar o que tem valor e compartilhar a informação.

Editando também se aprende e se ensina a contextualizar. Há algumas décadas, nós, autores, entregávamos os manuscritos aos editores e o texto passava por várias pessoas que os completavam e transformavam: revisores, ilustradores, editores em sentido estrito etc. Hoje, esses papéis se concentram no autor. Saber escrever é uma prática mais complexa do que foi para as gerações anteriores. Mas, ainda que não se trate de um livro, no papel de editor, contextualizar é cada vez mais relevante. Com isso, nos referimos não só ao que se escreve mas também ao modo como se apresenta, acompanhado de paratextos7. Em uma edição online, eles são tão importantes como os textos centrais porque nas narrações digitais o primeiro contato com uma história não é sempre o mesmo, mas tão distinto quanto os links, referências ou hipertextos que o complementam. Essas referências periféricas, que nos meios de massa "de cima para baixo" eram quase irrelevantes, ou em um diário impresso eram boxes, nos meios digitais são muito importantes. Ou os comentários sobre uma notícia não fazem parte dela? Ou o vídeo de um fato similar ocorrido no passado não revela informações sobre um acontecimento atual? A diferença está na escolha, na hora de editar, para contextualizar, agregar valor ou outro sentido a uma história. Na função de editor, se aprende a contextualizar.

Ainda que tenha de aprender e ensinar conteúdos novos, a escola sempre terá de agregar à prática a necessidade de pensar como algo está dito, admitir que o mundo traduzido em palavras tem versões intencionais e que tem efeitos sobre os outros. E ainda podem explicar os usos da linguagem que geram tais efeitos. A escola cumpre um papel fundamental para trabalhar essa capacidade, que é impossível construir se não se participa de uma comunidade de leitores e escritores digitais e no papel. A escola deve se orientar especialmente por esse propósito de conscientização sobre o poder das palavras e, atualmente, de maneira mais contundente que em outros tempos, do poder das imagens e da combinação de ambas.


7 Conjunto dos elementos que acompanham um texto: título, subtítulos, prefácio, indicação de inserção, índice de materias etc. O paratexto estabelece o marco em que se apresenta o texto como forma de comunicação.

Resumo
Com o avanço da tecnologia, a escola tem de garantir não só o acesso ao computador. A verdadeira inclusão digital é bem mais profunda. Há novos modos de comunicação e jeitos de ler e escrever para serem estudados, discutidos e problematizados com os estudantes. É preciso, então, investir em atividades de análise e reelaboração de textos.

Referências bibliográficas

- CASTELLS, M. (2009). Comunicación y poder. Madrid: Alianza Editorial.

- IGARZA, R. (2009). Burbujas de ocio. Buenos Aires: La Crujía Ediciones.

- LERNER, D. (2012). La incorporación de las TIC en el aula. Un desafío para las prácticas escolares de lectura y escritura. In: Las TIC en la escuela, nuevas herramientas para viejos y nuevos problemas. Coords. Daniel Goldin e outros, México: Océano Travesía.

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