"Melhor tomar vacina do que ficar doente"

Carteirinhas, computador e leituras levaram a uma nova opinião sobre gotinhas e injeções

POR:
André Bernardo
A turma sistematizou o aprendizado sobre a história da vacina em um cartaz coletivo. Arquivo pessoal/Anelise Torres Valle A turma sistematizou o aprendizado sobre a história da vacina em um cartaz coletivo Todos os estudantes trouxeram a carteirinha de vacinação e a esmiuçaram em classe. Arquivo pessoal/Anelise Torres Valle Todos os estudantes trouxeram a carteirinha de vacinação e a esmiuçaram em classe Durante a visita de um bioquímico à escola, a classe analisou várias lâminas com sangue. Arquivo pessoal/Anelise Torres Valle Durante a visita de um bioquímico à escola, a classe analisou várias lâminas com sangue

Anelise Torres Valle contribuiu para que os familiares das crianças do 4º ano da EM Rodrigo Damasceno, em Sinop, a 508 quilômetros de Cuiabá, não ouçam reclamação em dia de vacinação. Agora, a turma não só acredita na frase do título desta reportagem como também sabe a importância de gotinhas e injeções e conhece a evolução desses instrumentos de proteção.

"Quando perguntei por que devemos tomar vacina, a maioria dos alunos respondeu que era para não ficar doente. Mas eles não sabiam como ela atua no organismo. Disseram que funciona como repelente, que gruda no sangue e espanta a doença", lembra a docente. Muitos comentaram que não gostavam de tomar por que sentiam dor. Então, Anelise começou a mudar essas percepções contando a história do médico britânico Edward Jenner (1749-1823).

Ele observou que, após contraírem a varíola bovina, as mulheres que ordenhavam vacas ficavam imunes à varíola humana. Depois de 20 anos de pesquisa, fez sua primeira experiência em um garoto de 8 anos ao imunizá-lo com o soro da varíola bovina. Por isso, o termo vacina vem do latim vaccinus, que significa vaca. Essas informações compuseram a apresentação em PowerPoint que a docente levou para as crianças.

Na sequência, todos foram conhecer mais sobre essa doença. No laboratório de informática, a professora orientou que visitassem o site da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com a missão de responder: "Que microrganismo causa a varíola?", "Como a doença é transmitida?" e "Quais os seus principais sintomas?". As respostas foram escritas em uma cartolina, depois afixada no mural da sala. Aprenderam que a doença está erradicada desde a década de 1970.

Flávia Pereira Lima, professora do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (Cepae) da Universidade Federal de Goiás (UFG), ressalta que os sites para pesquisa científica são escassos e que é importante buscar fontes fidedignas. Para complementar o conhecimento sobre o tema em foco, ela sugere a leitura do artigo do virologista Hermann Schatzmayr (1936-2010), A Varíola, uma Antiga Inimiga. O autor descreve o esforço de milhares de pessoas para a erradicação da doença. "Apesar das críticas e dos receios com base em convicções religiosas e filosóficas, bem como a existência de efeitos colaterais, o medo da doença levou à rápida disseminação desta prática de infeção voluntária", escreve Schatzmayr.

Anelise pediu, então, que os alunos trouxessem de casa os cartões de vacinação deles e na aula seguinte questionou: "Para que serve essa carteirinha?", "Com que idade as vacinas foram tomadas? " e "Quantas tiveram mais de uma dose?". "Ao descobrir pendências na caderneta de algumas crianças, pedi a elas que conversassem com os familiares e procurassem um posto de saúde para regularizar a situação", recorda a professora. A atividade aguçou a curiosidade de todos. Muitos queriam saber o que significavam siglas como BCG. Para decifrar esse mistério, a docente apresentou o Calendário Básico de Vacinação, elaborado pelo Ministério da Saúde. Entre outras informações, ele apresenta as vacinas disponíveis na rede pública, as doenças que elas evitam e quantas doses devem ser tomadas. Viram, então, que a BCG previne a tuberculose.

Após a análise do calendário, Anelise dividiu a turma em duplas e pediu que pesquisassem no site do médico Drauzio Varella sobre febre amarela, rubéola, rotavírus, tuberculose, hepatite, poliomielite, coqueluche, sarampo, meningite, pneumonia e tétano. Cada equipe investigou uma enfermidade. Depois, montou uma tabela com as informações coletadas e partilhou as descobertas com os demais.

A biomédica Camila Mathias dos Santos, doutoranda em Microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP), considera importante abordar temas complexos como esses com alunos tão jovens. "A pesquisa realizada nas carteirinhas e na internet ajuda a conferir se todos estão em dia e, principalmente, leva a turma a entender que as vacinas nos protegem de doenças que podem até levar à morte", comenta.

Adulto também precisa

Para seguir com a reflexão, os estudantes tiveram de entrevistar pais e avós sobre por que é importante se imunizar, quais doenças já foram erradicadas no Brasil e se há um calendário de vacinação para adultos. De volta à sala, contaram que, entre as doenças erradicadas, a mais citada foi a poliomielite - o último caso de paralisia infantil registrado no Brasil foi em 1989. Constataram, ainda, que vários pais não sabiam que tinham de se vacinar ou reforçar doses já tomadas. "Os meus pensavam que vacina era coisa de criança", entrega Gabriel Ashimoto da Silva, 10 anos.

Ao longo das aulas, a professora instituiu um mural interativo e um dicionário científico. O primeiro é um grande painel, onde a turma foi fixando tudo o que encontrava relacionado ao tema, como recortes de jornais e revistas. Já o segundo é um glossário individual, em que os alunos anotavam termos de difícil compreensão, como antígeno e fagócito, e escreviam o significado com suas palavras. "Nunca soube a diferença entre soro e vacina. Para mim, era tudo a mesma coisa. Agora, eu descobri que a vacina previne e o soro cura as doenças", resume a aluna Maianny dos Santos, 10 anos. O pediatra Reinaldo de Menezes, consultor científico do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), ressalta que como intervenção médica não há nada melhor que a imunização. "Muitas doenças podem ser evitadas por ações preventivas, que são mais eficazes que as curativas."

Para ensinar à turma como funciona o sistema imunológico, a professora recorreu ao livro Por Dentro do Sistema Imunológico, de Paulo Cunha (55 págs., Ed. Atual, tel. 0800-011-7875, 38 reais), que explica a importância da memória imunológica na prevenção de doenças. Após a leitura do capítulo Um Sofisticado Sistema de Defesa, um dos estudantes se apressou em comparar o corpo humano a um campo de batalha, onde os anticorpos formam um exército que está sempre alerta para proteger o organismo da invasão de vírus e bactérias.

Para complementar a explicação, Anelise convidou o bioquímico Anderson Alves Valle, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), para conversar com a turma. Ele falou sobre hemácias, leucócitos e plaquetas, deixou que a classe manuseasse um microscópio com lâminas de sangue e todos puderam fazer as perguntas que haviam elaborado em uma aula anterior. Sanadas as dúvidas, os alunos montaram um painel com os principais pontos estudados, desde a descoberta de Jenner até os dias de hoje. Esse material foi usado para apresentar o tema a outras classes e sensibilizar professores e estudantes sobre a importância da vacinação.

1 As injeções do bem Pergunte o que a classe sabe sobre vacinas e, em seguida, faça uma apresentação a respeito da descoberta da imunização contra a varíola.

2 Carteirinha e computador Oriente uma pesquisa sobre as vacinas indicadas para crianças e adultos. Peça que cada um analise sua carteirinha e, depois, pergunte para os pais e avós se continuam se imunizando.

3 Sistema imunológico Leia com as crianças um texto científico sobre o sistema imunológico. Depois, peça que sistematizem todo o aprendizado e apresentem para outras classes da escola.

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