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Jornalismo

Convide a turma para organizar um diário

A atividade permanente faz com que todos se dediquem com frequência à produção de texto

PorAnna Rachel Ferreira

01/06/2013

Com diários, Simone Salermo fez a turma do Sesi Petrópolis tomar gosto por escrever. Giselle Galvão Com diários, Simone Salermo fez a turma do Sesi Petrópolis tomar gosto por escrever O uso de Trecho do Diário de uma Patricinha Simpática O uso de mais no lugar de mas foi um dos problemas notados pela educadora

Já fazia um tempo que Simone Salermo, professora da Escola Sesi Petrópolis, em Petrópolis, a 72 quilômetros do Rio de Janeiro, observava uma febre que tinha tomado conta das crianças do 4º ano. Elas carregavam para cima e para baixo os livros da série Diário de um Banana (Jeff Kinney, V&R Editoras, tel. 11/4612-2866), se divertiam com a leitura e se identificavam com as situações e as emoções vividas pelo personagem principal, o garoto Greg Heffley. Ela então teve a ideia de dar um novo significado para o caderno de produção textual dos alunos. "Por que a gente não faz um diário como Greg e registra coisas do cotidiano?", ela perguntou ao grupo.

Com a proposta, a professora pôs em jogo uma tarefa permanente de escrita, algo valioso para formar escritores competentes e identificar as necessidades de aprendizagem de cada aluno. A escolha do gênero foi um acerto para fomentar o prazer por redigir, segundo Cláudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. "No diário, é possível relatar vivências, sonhos e o que mais der vontade. É um gênero com grande liberdade estrutural", ele explica.

As crianças adoraram a ideia e logo surgiu o Diário de uma Princesa, de Julia Marçole de Oliveira Cunha, 10 anos, entre outros. Simone explicou que todos deveriam escrever pelo menos uma vez por semana, e que ela analisaria os registros para ajudá-los a produzir cada vez melhor. Quem quisesse poderia ler os textos para os colegas às segundas-feiras.

Antes de a turma começar, Simone apresentou o filme Diário de um Banana (Thor Freudenthal, 94 min, Fox Filmes, tel. 11/2505-1746) para que quem ainda não tivesse lido os livros conhecesse a história. Usando os livros dos alunos como apoio, ela organizou um debate em sala para que as crianças conversassem sobre o personagem e a forma com que ele organizava o diário. Também é de grande valia apresentar outros textos da mesma natureza. Selecione diversos autores e estilos para que todos possam se apropriar do gênero. Uma recomendação é a série de livros O Pequeno Nicolau (René Goscinny, Ed. Martins Fontes, tel. 11/3116-0000). "O professor também pode escrever um diário para ler para os alunos. Além de se aproximar da classe, contar um pouco sobre ele é uma forma de apresentar novos caminhos e possibilidades de produção textual para a criançada", explica Bazzoni.

Análise e devolutiva

Semanalmente, a professora recolhia os cadernos para ler os textos, analisar e registrar os percursos de cada criança. Ela se dedicava ao trabalho em casa e na escola, enquanto a turma estava na aula de Educação Física. "Prestava atenção à ortografia, às questões gramaticais e aos aspectos relacionados à coesão e à coerência. Com isso, pude planejar aulas específicas para explorar as questões mais recorrentes", diz Simone. "Notei que os estudantes se esqueciam de usar letras maiúsculas para iniciar frases e nem sempre respeitavam a paragrafação", explica.

Ela observou ainda que eles se confundiam com as terminações "am" e "ão" de verbos e ao usar "mais" e "mas". O ideal, segundo Kátia Bräkling, consultora do programa Ler e Escrever, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, é que os erros não sejam corrigidos ou marcados nos diários. Afinal, neles estão textos de foro pessoal e autoral. O mais indicado é o professor registrar suas anotações à parte. Quando fazia as leituras, a educadora também deixava recados no fim dos textos, comentava o que havia lido e lançava perguntas como estímulo para a turma.

Pouco depois de começar a fazer os diários, as crianças já iam além do combinado: escreviam várias vezes por semana e até organizavam entre elas a ordem da leitura em voz alta. A ideia de estarem escrevendo para outros destinatários era muito clara e significativa para todos. Compreender para quem se escreve é um saber fundamental relacionado à produção textual, conforme descrito no livro Produção Escrita e Dificuldades de Aprendizagem (Joaquim Dolz, Roxane Gagnon e Fabrício Decândio, 112 págs., Ed. Mercado de Letras, tel. 19/3241-7514, 22 reais). Também é necessário que os alunos aprendam quem é o enunciador (nesse caso, o autor do diário), qual o objetivo comunicativo a atingir (compartilhar coisas que aconteceram, sentimentos e opiniões) e qual o lugar social (a escola).

No desenrolar da atividade, Simone fez boas intervenções, como sugerir temas para a turma se inspirar - como os sonhos que tinham (leia um trecho na galeria escrito por Alice Guedon, 9 anos, autora do Diário de uma Patricinha Simpática). "O diário é um suporte para registros diversos, não só a narração do dia a dia. Vale copiar trechos de livros e colar fotografias que reflitam o que o autor quer dizer naquele momento", diz Bazzoni.

A professora avalia que os objetivos foram plenamente alcançados pelos estudantes. Eles adquiriram o hábito de escrever por prazer, ampliaram o vocabulário, passaram a usar com mais propriedade os sinais de pontuação e passaram a produzir textos de fôlego. "A disposição para fazer as atividades aumentou e a evolução da escrita foi gritante", conclui. Dora Goffredo, 9 anos, autora do Diário de uma Flamenguista, deixou isso registrado: "Querido diário, fazer você foi uma experiência boa. Eu amei porque pude escrever textos, colar fotos e fazer desenhos. Escrevi sobre desenhos animados, filmes, séries, sonhos e dias legais que passamos. Que venham mais dias legais com novos textos, fotos e desenhos!"

1 Contato com o gênero Converse com os alunos sobre as funções sociais que o diário pode ter (registro de memórias e apresentação de uma viagem, por exemplo) e proponha que a turma leia diários publicados em livros para conhecer esse tipo de texto. 

2 Hora de escrever Convide as crianças para fazer diários e registrar coisas que aconteceram, sonhos etc. Peça que todos escrevam semanalmente. Diga que você vai ler as produções para ajudá-los a avançar. Quem quiser pode ler o material para os colegas em voz alta. 

3 Análise e devolutiva Avalie a produção dos alunos com atenção e escreva comentários no fim dos textos, para incentivá-los a escrever cada vez mais e melhor. Diagnostique os erros mais comuns em um material à parte e planeje explorá-los em outros momentos.

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