Preservar é preciso

Há vinte anos, as igrejas e os casarões de Ouro Preto ganhavam o status de Patrimônio da Humanidade

POR:
Priscila Ramalho

O mulato Duarte Lopes acompanhava uma expedição bandeirante na região do Pico do Itacolomi, no final do século XVII, quando sentiu sede. Dirigiu-se ao primeiro córrego que avistou e, ao retirar a gamela cheia de água do rio, notou pequenas pedras escuras no fundo. Embora não soubesse, acabara de encontrar ouro coberto por óxido de ferro. Sua descoberta iniciou um período de riqueza na região que duraria um século e daria origem a Vila Rica, mais tarde rebatizada de Ouro Preto, no Estado que ganharia o nome de Minas Gerais. Considerada um dos conjuntos mais marcantes da arquitetura colonial e do período barroco no Brasil, a cidade comemora no dia 5 de setembro os vinte anos de seu reconhecimento como Patrimônio da Humanidade.

As igrejas barrocas, cuja beleza foi cantada em versos por poetas como Olavo Bilac e Manuel Bandeira, foram tombadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Ouro Preto foi a primeira cidade brasileira a entrar na seleta lista de bens tombados, que inclui lugares como Roma e Egito, com suas pirâmides.

Patrimônio cultural

Além de uma boa aula de História sobre a Inconfidência Mineira, que teve sua base em Ouro Preto, aproveite o aniversário do tombamento para trabalhar os conceitos de preservação e patrimônio cultural com seus alunos. Mostre a importância desses dois aspectos para o exercício da cidadania. "Resgatar a memória é essencial para que um povo se perceba como sujeito de sua própria história", explica o professor de Geografia José Carlos Carreiro, da Universidade de São Paulo. "Para evoluir, o homem precisa conhecer suas raízes."

Partindo dessa afirmação, é possível realizar um debate sobre o descaso das autoridades brasileiras com a preservação. Cite o exemplo de Olinda, a segunda cidade brasileira a ser tombada pela Unesco, em 1982, que corre o risco de perder o título porque vários de seus monumentos estão em situação de abandono são igrejas com rachaduras nas paredes, ladeiras esburacadas e altares de madeira infestados de cupins. Lembre outro exemplo da falta de cuidado: a demolição, em 1896, da igreja do Pátio do Colégio, marco da fundação da cidade de São Paulo, reconstruída nos anos 70 deste século.

 Se você tem dúvidas sobre como educar para a preservação, aproveite as dicas do arquiteto Mauro David Artur Bondi, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ele ensina que o homem tende a preservar aquilo a que dá valor. O primeiro passo, portanto, é chamar a atenção dos alunos para as coisas à sua volta, fazendo-os observar a cidade, suas ruas, praças e monumentos. Siga o roteiro de atividades propostas por Bondi e pelos professores José Carlos Carreiro e Vanderlei Pinheiro Bispo, da Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo, para montar uma bela aula.

Temas transversais

De 5ª a 8ª séries

Cada um tem uma história
1. Peça aos seus alunos que façam um levantamento dos locais, construções, relevo e recursos naturais do bairro ou da cidade onde moram e, depois, desenhem o que observaram. Proponha que, em grupos, eles montem painéis contando um pouco da história e da geografia do local.

2. Num outro dia, organize um estudo do meio para alguma cidade histórica próxima à sua (se houver) ou leve para a classe fotos e livros sobre lugares como Olinda (PE) e Parati (RJ).

3. Compare os dados coletados nos dois trabalhos e levante discussões. Por que as construções utilizavam determinados materiais? Por que as casas são diferentes de um lugar para outro? O relevo interfere no modo de vida dos moradores de cada cidade? Os alunos devem pesquisar as respostas. Junto com eles, produza versões, relacionando a arquitetura com a economia, a sociedade, os costumes, o local e a época dos lugares analisados.

4. Peça aos alunos que conversem com pessoas mais velhas (avós, vizinhos) e perguntem como era a cidade na época em que eles eram jovens. Oriente-os a tomar notas e depois, em classe, a compartilhar a experiência com os outros. No final, conclua atentando para a importância da história oral, aquela que não se aprende em livros, mas pela conversa entre as pessoas de diferentes gerações.

Nove lugares muito especiais

O Brasil demorou a entrar para a lista dos países que possuem Patrimônios da Humanidade porque o cuidado com a preservação é recente. Ele começou a ganhar espaço em 1937, com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Depois de Ouro Preto, outros nove sítios foram escolhidos pela Unesco.

Olinda Fundada em 1537 por Duarte Coelho, foi a primeira capital pernambucana. Reconstruída pelos portugueses após a expulsão dos holandeses, ainda tem templos e conventos coloniais, como a Igreja do Amparo, de 1644. Apesar da beleza dos monumentos, está malcuidada.

São Miguel das Missões As ruínas da igreja construída pelos jesuítas no Rio Grande do Sul foram tombadas em 1983. São o exemplo mais bem conservado dessa arquitetura, que se expandiu no país nos séculos XVII e XVIII.

Pelourinho Tombado em 1985, o conjunto arquitetônico do centro de Salvador, na Bahia, é um bom exemplo da miscigenação africana e portuguesa na cultura brasileira. São cerca de 350 casarões em estilo colonial, além de igrejas, fortes e palácios.

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos Em Congonhas do Campo (MG), tornou-se Patrimônio da Humanidade também em 1985. Com as estátuas dos doze profetas no adro, é o exemplo mais grandioso da obra de Antônio Francisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho.

Parque Nacional do Iguaçu Suas cataratas em forma de ferradura têm 2700 metros de extensão e são visitadas por 2 milhões de turistas todo ano. Foi tombado em 1986.

Brasília Tornou-se, em 1987, a primeira cidade moderna (e totalmente projetada) a entrar na lista da Unesco. As linhas traçadas por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer foram tombadas por representar o modernismo na arquitetura (leia mais sobre a capital federal na página 30).

Sítios Arqueológicos de São Raimundo Nonato O local onde a pesquisadora Niéde Guidon encontrou, em 1971, restos de alimentos e carvão datados de 48000 anos fica no interior do Piauí. Foi reconhecido pela Unesco em 1991.

São Luís A capital do Maranhão, fundada pelos franceses em 1612, teve o nome escolhido em homenagem ao rei Luís XIII. Três anos depois, os portugueses dominaram a região e iniciaram a colonização. Sua arquitetura, tombada em 1997, preserva características dessa ocupação nas ruas estreitas e nos sobrados com fachadas de azulejos e sacadas de ferro.

Diamantina Em dezembro do ano passado, a cidade mineira foi escolhida por ter sido um centro artístico e comercial durante o Ciclo do Ouro, no século XVIII.

Temas transversais

De 1ª a 4 séries

Como as cidades mudam
1. Pegue fotos antigas de sua cidade e distribua-as entre os alunos (divididos em grupos). Peça a eles que as comparem com a paisagem atual, identifiquem as mudanças e discutam como elas ocorreram (o que ficou melhor, o que piorou, o que deixou de existir). Aqui é possível introduzir a questão do desenvolvimento e do progresso como fatores de destruição do patrimônio histórico.

2. Dê uma volta no bairro ou na cidade com os alunos e peça a eles que observem tudo. Depois, na sala de aula, é hora de desenhar. Assim, eles estarão dando ao ambiente cotidiano um valor artístico, primeiro passo no processo de valorização.

3. Não há cidade que não tenha uma praça e não há praça sem um banco. O banco é um bem de extremo significado na história das cidades. É o espaço de convívio social, onde as pessoas se encontram, se conhecem, namoram e brincam. Sente-se com os alunos na praça e converse com eles sobre a importância dos bancos para a história de sua cidade. Faça-os imaginar quanta coisa já aconteceu nesses bancos, as conversas que se passaram, como mudaram as pessoas que nele se sentam e se sentaram. Fazendo-os enxergar o banco de uma maneira diferente, você os levará a dar mais valor a esse espaço.

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