O valor das férias para a formação cultural dos alunos

A hora do descanso é essencial para ampliar o repertório de cultura. Mas é preciso garantir que todos tenham a chance de fazer isso

POR:
Rodrigo Ratier, Ana Rita Martins
MUNDO DESIGUAL No Brasil, desfrutar do tempo livre ainda é privilégio dos ricos. Foto: Ilustrações de Olavo Costa sobre fotos de Doable/A.collection/Getty Images e Randy Faris/Corbis
MUNDO DESIGUAL No Brasil, desfrutar
do tempo livre ainda é privilégio dos ricos

Dezembro. A última folha do calendário. Conforme nossos alunos enfileiram um X após o outro na sequência dos dias do mês 12, em sua cabeça parecem ecoar algumas palavras que prenunciam o que vem por aí: liberdade, exploração, descoberta. De fato, ao acenar com um cenário de diversão, as férias têm o potencial de alargar horizontes e enriquecer histórias de vida. Pelo menos para as famílias de maior poder aquisitivo, que se programam para viajar, conhecer novas culturas ou ir a museus, teatros e cinemas.

Nas periferias e em muitas áreas rurais do Brasil, porém, o verão está bem longe disso. Sem opções culturais ao alcance dos pés (ou do bolso), o tempo livre das crianças pobres acaba restrito a poucas opções: ajudar nas tarefas de casa, assistir televisão ou, em tempos de inclusão digital, passar o dia navegando na internet. Em resumo, nada que ofereça grandes oportunidades de crescimento social e intelectual.

Há quem defenda que as férias - "certo número de dias consecutivos destinados ao descanso", como define o dicionário Aurélio - não têm nenhum impacto na aprendizagem. É um equívoco. O tempo dedicado ao ócio, como indicam muitos estudos, é parte integrante do que se entende, hoje em dia, por Educação. Como explica o pesquisador espanhol Javier Melgarejo Draper, um sistema educativo é composto de três subsistemas. Dois são bem conhecidos: o escolar e o familiar. O terceiro deles, o sociocultural, é mais difuso. Compõe-se dos recursos culturais que podem ter alguma finalidade na formação individual: bibliotecas, cinemas, museus, corais, centros esportivos, teatros, televisão, associações e grupos de amigos.

Ao analisar por que a Finlândia apresenta os melhores resultados nas avaliações internacionais, Draper chegou à conclusão de que, além de apostar em soluções óbvias para melhorar o ensino (selecionar os melhores professores, valorizá-los profissionalmente e oferecer boa formação inicial e continuada), ajuda muito ter os três subsistemas funcionando como engrenagens conectadas entre si. O acesso a opções culturais, portanto, é parte fundamental de uma Educação de qualidade.

Entretanto, em países marcados pela desigualdade, a cultura tende a ser considerada um artigo de luxo. No Brasil, uma pesquisa da consultoria J. Leiva Cultura & Esporte, realizada na capital paulista em parceria com o Datafolha e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), indica que 40% dos entrevistados não costumam ir ao cinema, 60% não vão a teatros e 61% não frequentam museus. Nos Estados Unidos, onde a diferença entre ricos e pobres têm aumentado nas últimas décadas, começa a ganhar corpo uma tese polêmica: já que os alunos pobres não têm possibilidade de aprender muito durante as férias, que tal reduzi-las - ou mesmo eliminá-las?

 

Notas no Pisa e carga horária: uma falsa relação

Cruzamento da quantidade de horas estudadas com o desempenho no Pisa mostra que mais tempo na escola não é garantia de nota boa

Notas no Pisa e carga horária. Ilustração: Mario Kanno
*Considerando as médias de cada país no exame de Matemática. Fonte Education at a Glance 2010 e Pisa

Nessa perspectiva, uma saída seria aumentar o número de dias letivos. NOVA ESCOLA realizou uma comparação exclusiva sobre o assunto: cruzamos as notas do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) com a carga horária total que uma criança recebe dos 7 aos 14 anos em diversas nações (veja o gráfico acima).

O resultado é que não há relação clara entre as duas variáveis: há nações com cargas menores e notas baixas (como o Brasil), outras com cargas menores e notas altas (como a Finlândia e a Coreia do Sul), um grupo com cargas altas e notas baixas (como México e Israel) e, finalmente, países com boas notas e muitas horas de aula (como a Holanda).

Uma segunda alternativa são os cursos de verão educativos, que mesclam lazer com aulas como liderança, saúde, esportes, astronomia, informática etc. Em certo sentido, equivale a converter o ócio em um período de ensino sistemático, sob a lógica da produtividade que rege o mundo do trabalho e, tantas vezes, o da escola. A estratégia vai contra o significado das férias: um tempo livre não programado, para apenas descobrir mais sobre si e sobre os outros. No descanso, é melhor poder escolher o que fazer.

Ampliar o equipamento cultural e utilizar melhor o que já existe

Os especialistas apontam que uma solução melhor passa pelo fortalecimento do subsistema sociocultural. Isso significa investir consistentemente em opções culturais, algo que na maioria dos países do mundo exige a participação governamental, seja no aporte de recursos, seja na sua regulação. "No caso finlandês, o apoio por parte do Estado é decisivo para formar uma rede de bibliotecas bem equipadas e financiar fundações musicais e de dança", confirma Draper.

Por aqui, a dificuldade de acesso aparece como um dos principais entraves à democratização da cultura. No texto "Os Equipamentos Culturais na Cidade de São Paulo", a pesquisadora Isaura Botelho revela que, enquanto as alternativas culturais clássicas (bibliotecas, museus, centros culturais etc.) se restringem às áreas centrais e de alta renda da capital paulista, a maior parte das crianças e dos jovens entre 10 e 19 anos forma uma espécie de cinturão nas periferias, em regiões quase desprovidas dessas instalações.

O ideal seria equilibrar o acesso com a construção de mais opções - algo improvável no curto prazo por exigir enormes investimentos em infraestrutura. Mas há alternativas imediatas que não pediriam tanto. Uma providência imediata seria utilizar melhor o que já está construído. O bom exemplo vem da Inglaterra, onde desde 2001 não se cobra entrada para os museus públicos. O resultado foi um aumento de 83% no número de visitantes - um público adicional de 30 milhões num período de cinco anos. No caso das bibliotecas, pode-se apostar na digitalização dos acervos, permitindo seu acesso em regiões distantes ou isoladas, e também nos ônibus-biblioteca, que transportam as coleções de forma itinerante até bairros mais carentes.

Também é importante fortalecer as iniciativas culturais que já existem, ainda que de forma menos institucionalizada nesses locais: ONGs, oficinas culturais, escolas de samba e outras associações e entidades desenvolvem atividades importantes (inclusive com a divulgação de padrões diferentes do erudito, o que impulsiona a diversidade cultural), muitas vezes interrompidas pela falta de apoio.

Por fim, vale discutir como aproveitar o espaço das escolas (essas, sim, mais bem distribuídas pelo tecido urbano) para produzir cultura fora do horário de aulas. Ainda, é claro, que a maior contribuição que a Educação pode dar para a democratização da cultura seja outra, como ensina Isaura: "A melhor política de formação de público para as artes é a possibilidade de apreciá-las e praticá-las de forma sistemática na escola".

Quer saber mais?

INTERNET 
Artigo Os Equipamentos Culturais na Cidade de São Paulo, de Isaura Botelho. 
Artigo La Selección y Formación del Profesorado, de Javier Melgarejo Draper (em espanhol).

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