Em favor da escola pública

O discurso de que o ensino público é, necessariamente, pior do que o particular, além não ser verdadeiro, é um desserviço. É preciso valorizar o que a escola pública tem de bom e lutar para resolver os problemas existentes.

POR:
NOVA ESCOLA
Escola pública x particular. Ilustração: André Menezes

Ao comparar a qualidade de escolas públicas e particulares, não é difícil imaginar um grande abismo separando esses dois grupos. De um lado, as instituições privadas, com melhor infraestrutura, professores de ponta e, por consequência, alunos com aprendizagem garantida. Do outro, salas sucateadas, professores mal pagos e mal formados e crianças deixadas completamente de lado. Infelizmente, essa imagem distorcida é cada vez mais comum no país - e é extremamente prejudicial à Educação brasileira.

O discurso negativo sobre o ensino público tem origem na segunda metade dos anos 60, com o início da democratização do acesso à Educação. O aumento expressivo na quantidade de matrículas exigiu que a rede se adaptasse à nova realidade. Infelizmente, essa adaptação não foi eficiente. "Continuou-se a oferecer um serviço no mesmo molde elitista de antes", explica Carlos Roberto Jamil Cury, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Como consequência, houve uma redução na qualidade do atendimento e quem tinha melhor poder aquisitivo começou a recorrer ao ensino privado.

Muitos anos se passaram, a escola pública vivenciou mudanças importantes e melhorias consideráveis, mas a imagem negativa persistiu. Em paralelo, com a ida das elites para colégios de ponta, surgiu a falsa ideia de que toda escola privada é boa e foram criadas centenas de instituições pagas de má qualidade. O que se tem hoje é um cenário no qual não se pode generalizar nem de um lado, nem do outro. Dados das avaliações externas mostram que há instituições públicas e particulares dividindo tanto as primeiras como as últimas posições nos rankings de desempenho. As escolas que abrigam as elites são, ainda hoje, as que figuram no topo da lista, ao lado de instituições públicas de ponta, como os colégios federais e os de aplicação ligados às universidades.

De posse dessa informação, é preciso olhar o ensino oferecido pelo governo a partir de uma nova perspectiva. Negar a possibilidade de melhoria das escolas públicas é o primeiro passo para que ela não seja possível. "Muitos pais hoje acreditam que a única maneira de garantir uma Educação de qualidade para os filhos é matriculando-os em uma instituição privada", explica Jamil Cury. Esse pensamento, além de fazer com que desembolsem valores altos sem garantia de um retorno concreto, enfraquece a luta por um ensino gratuito e de qualidade. Mudar essa realidade é necessário.

A escola pública é um direito e precisa ser vista como tal, além de ser uma instituição de extrema importância para o fortalecimento da democracia. "Países como França, Estados Unidos e Alemanha, que possuem um sistema democrático bastante amadurecido, têm um ensino público extremamente forte", destaca Maria do Pilar Lacerda, ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC) e atual diretora da Fundação SM. Isso porque é na escola que as crianças aprendem a conviver e a respeitar as diferenças. Também é lá que a comunidade pode vivenciar um cotidiano mais democrático, por meio da participação direta de todos na gestão da instituição.

Negar os problemas da Educação pública não é o caminho para melhorá-la. Fugir dela, dirigindo-se a escolas particulares, tampouco. A melhoria só é possível quando a comunidade escolar - educadores, funcionários, pais e alunos - deixa de lado o discurso derrotista e passa a valorizar as boas ações, encarar os problemas e lutar para que sejam resolvidos.

Com apuração de Wellington Soares, editado por Elisa Meirelles

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias