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A cultura indígena que se fortalece na escola

Currículo é instrumento da valorização da língua e dos costumes dos índios Katukina e Puyanáwa

por:
EF
Elisângela Fernandes
Na sala de aula, o professor trabalha com os alunos os significados dos desenhos. Foto: Marina Piedade
ARTE E CULTURA Na sala de aula, o professor trabalha com os alunos os significados dos desenhos: só as índias katukinas fazem a pintura corporal nos homens e nelas mesmas

A ideia de uma escola indígena capaz de respeitar e valorizar os conhecimentos e a cultura locais é recente no país. Na lei, o tema foi contemplado pela primeira vez na Constituição de 1988. Na prática, ainda há muito a construir. Isso porque garantir um Projeto Político-Pedagógico (PPP) específico para cada uma das mais de 200 etnias que existem no Brasil não é uma tarefa fácil. Cada povo possui uma história própria - inclusive no que diz respeito à assimilação ou à resistência contra a descaracterização étnica. Estima-se que o Brasil chegou a ter 10 milhões de índios. Hoje, eles são pouco mais de 800 mil, ou 0,4% da população (e apenas 2,2% dessas crianças que frequentam o 3º ano do Ensino Fundamental falam a língua indígena, um dos menores porcentuais entre os países da América Latina). Alguns ainda preservam a língua e os costumes. E a escola, que antes só trabalhava pela aculturação, busca agora valorizar a diversidade. NOVA ESCOLA visitou duas terras indígenas no Acre para ver como estudam os índios katukinas e puyanáwas. Nesta reportagem, você vai ver como as diferenças entre elas podem ajudar nesse processo de construção de escolas mais próximas das necessidades de cada povo.

Nas seis escolas da Terra Indígena Campinas Katukina, cujo centro urbano mais próximo é o município de Cruzeiro do Sul, a 648 quilômetros de Rio Branco, os alunos são alfabetizados em noke vana, língua que pertence à família pano - encontrada na Bolívia, no Peru, no Acre, no sul do Amazonas e em Rondônia. Toda a proposta pedagógica tem como eixo norteador o fortalecimento da cultura e dos saberes locais, com aulas sobre o processo de demarcação do território, o uso dos recursos naturais e as técnicas de artesanato e pintura corporal. Até o 5º ano, as aulas são restritas à cultura noke koi - expressão que significa "nosso povo". A Língua Portuguesa e as demais disciplinas obrigatórias da Educação regular só são ensinadas a partir do 6ºano.

Na zona rural de Mâncio Lima, a 617 quilômetros de Rio Branco, a realidade da Terra Indígena Puyanáwa é diferente. A língua puyanáwa está praticamente esquecida, resultado de um violento processo de repressão do início do século passado e por isso o português é predominante. Para essas pessoas, o grande desafio é resgatar a cultura e aproximá-la das crianças por meio do currículo escolar. "Mais do que discutir uma Educação diferenciada, defendemos que cada povo encontre o melhor caminho para atender às suas especificidades", diz Maria do Socorro de Oliveira, coordenadora da Educação Indígena no estado. Desde 2000, são realizadas reuniões entre os líderes das aldeias, pesquisadores, professores e técnicos da Secretaria para fazer a construção e revisão dos currículos e do PPP.

Português como língua estrangeira

Alunos aprendem como era a Matemática de seu povo. Foto: Marina Piedade
MATEMÁTICA NA MATA Alunos aprendem como era a Matemática de seu povo: as mãos servem para medir os cipós, utilizados para definir o tamanho dos roçados
Para os katukinas, o português só aparece no 6º ano. Foto: Marina Piedade
ESCOLA BILÍNGUE Para os katukinas, o português só aparece no 6º ano: a noke vana, cuja tradução é nossa língua, é ensinada em toda a Educação Básica

Os primeiros contatos entre os katukinas e não-índios ocorreram por volta de 1880, época em que a região do alto do rio Juruá foi invadida por brasileiros e peruanos para a extração da borracha. Muitos índios foram mortos, escravizados e outros se dispersaram na floresta. Depois desse processo, eles se fixaram na divisa entre os estados do Acre e do Amazonas. Hoje, as aldeias katukinas estão distribuídas ao longo da rodovia BR-364 (Rio Branco-Cruzeiro do Sul) e menos da metade da população tem fluência em português. Todos utilizam a língua noke vana para se comunicar.

Ao organizar suas escolas e o currículo, os katukinas optaram por um ensino bilíngue, mas há quem conteste a decisão de só começar a trabalhar com o português no 6º ano. "Muitas mulheres e crianças têm dificuldade em se comunicar em situações básicas, como uma consulta médica", explica o linguista Aldir Paula dos Santos, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). "Em 2012, teremos a primeira formatura de uma turma de Ensino Médio em nossa escola. Uma grande conquista que vai ajudar a valorizar e manter viva a nossa cultura", comemora o diretor Fernando Katukina, que também é o cacique. Das 36 terras indígenas do estado, em apenas quatro há escolas de Ensino Médio.

Campinas Katukina

Homologada pela Funai em 1993
Área: 21.624 mil hectares
População: 674 pessoas
Total de professores: 24
Total de alunos: 290

Uma luta contra o tempo

Os índios mais velhos vão à escola para ensinar alunos e professores como eram feitos os artesanatos. Foto: Marina Piedade
APOIO DA COMUNIDADE Os índios mais velhos vão à escola para ensinar alunos e professores como eram feitos os artesanatos, como o kãkã, utilizado para carregar mandioca
A escola Ix Bãy Rabu Puyanáwa luta pelo resgate da cultura indígena. Foto: Marina Piedade
ESPAÇO DE EXPRESSÃO A escola Ix Bãy Rabu Puyanáwa luta pelo resgate da cultura indígena: por quase 100 anos, os conhecimentos dos índios não tiveram vez

Na Terra Indígena Puyanáwa, a realidade é bem diferente. A escola Ixubãy Rabui Puyanáwa, inaugurada em 1914, chamava-se 13 de Maio e nasceu para ensinar o português a todos. Naquela época, os índios foram escravizados pelo coronel Mâncio Lima e obrigados a trabalhar na exploração da borracha. Entre 1915 e 1950, o período chamado "cativeiro", homens e mulheres foram separados e proibidos de falar o próprio idioma sob pena de serem torturados e até mortos. "Minha avó era índia da mata, mas meu pai nem sequer aprendeu a nossa língua", conta o coordenador pedagógico Jorge Constante. Em pouco tempo, a cultura local quase desapareceu.

O "reavivamento da língua", como diz o professor Aldir Santos, começou em 1990, quando ele iniciou o trabalho de construção da grafia da língua puyanáwa. Hoje, só Railda Manaitá, 80 anos, é considerada fluente. O trabalho do professor inclui a elaboração de materiais pedagógicos e livros com mitos e canções indígenas. Toda a comunidade, sob a supervisão de Santos e da Secretaria de Educação, participa desse processo. "Eles são autores e atores. Isso contribui para o fortalecimento da própria língua", explica.

O professor Samuel Rondon Iraqui é quem ensina a língua puyanáwa para os alunos da pré-escola e das séries iniciais do Ensino Fundamental. "Além da dificuldade com a escrita, que ainda está em construção, as crianças não falam a língua fora da escola." O que foi possível resgatar da cultura poyanáwa é contemplado no currículo. E, apesar de muito do artesanato ter se perdido, alguns itens ainda resistem, como peneiras, bolsas e chapéus. Mesmo com as dificuldades, o professor Santos vê avanços importantes. "Antes, em reuniões com outros índios, eles tinham vergonha de falar na sua língua. Hoje, são os primeiros a tomar a iniciativa." E a escola tem muito a ver com isso. 

Puyanáwa

Homologada pela Funai em 2001
Área: 24.499 mil hectares
População: 566 pessoas
Total de professores: 19
Total de alunos: 224

Reportagem sugerida por 2 leitores: Flaviana Alberton, São Miguel, PR, e Janndayr Jann, Feira de Santana, BA

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