Visões do passado: a História do Brasil em telas e gravuras

Analisar telas e gravuras leva estudantes de sextos e sétimos anos a aguçar o senso crítico e conhecer mais um recurso didático

POR:
Débora Didonê, Débora Menezes
MERCADO DE ESCRAVOS Johann Moritz Rugendas(1802-1858. ACERVO CULTURA INGLESA/RJ
MERCADO DE ESCRAVOS Johann Moritz Rugendas(1802-1858) A cena criada pelo artista alemão é clássica. Em tom romântico,a interpretação do lugar e da forma como os escravos eram vendidosameniza a dura condição dos negros na época. ACERVO CULTURA INGLESA/RJ

Seus alunos provavelmente conhecem várias gravuras do artista alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) que ilustram os livros didáticos e sabem dizer que elas retratam a escravidão no Brasil. Mas o que mais eles são capazes de afirmar sobre elas? A vida dos escravos era mesmo do jeito ali mostrado? Qual o objetivo do artista ao retratar o cotidiano dos negros daquela forma? Responder a essas perguntas é fazer a leitura de imagens, uma importante estratégia para o estudo de História.

"Esse não é um recurso muito usado em sala de aula", afirma Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo. Uma pena. De acordo com ela, ao se prender somente ao material escrito, muitos professores privam a turma de mais uma alternativa para interpretar acontecimentos e desenvolver o olhar crítico. "É preciso mostrar que os documentos escritos não são as únicas fontes para interpretar o passado", destaca a historiadora Gislane Azevedo, autora de livros didáticos, de São Paulo.

Esse não é, portanto, apenas um meio para dar mais dinâmica à aula e torná-la mais estimulante. As pinturas e gravuras são atrativas e têm uma mensagem imediata, mas, se bem utilizadas, podem contar muito mais do que mostram. O desafio é ensinar o jovem a não levar tudo o que vê ao pé da letra. Para isso, o primeiro passo é desfazer o mito de que o elemento visual é um retrato fiel da realidade. "Nenhuma imagem traduz o verdadeiro significado de um acontecimento", diz Eduardo França Paiva, da Universidade Federal de Minas Gerais. Dos desenhos rupestres às propagandas que vemos na TV, tudo sofre a influência do olhar do autor.

É isso o que a professora mineira Adriana Maria Sudário Pires, da EE Marconi, em Belo Horizonte, mostra aos alunos. Um dos exercícios que ela propõe à turma tem como objetivo discutir as diferentes faces com que Tiradentes é mostrado em pinturas de diversas épocas. Outra forma de fazer a garotada se aprofundar no estudo das imagens é explicar a origem delas."Uma tela, por exemplo, deve ser lida de acordo com a condição de sua produção e de seu tempo", diz Thaís Nívia de Lima Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Usando o livro didático

O trabalho pode ter como base o próprio livro didático, que é rico em pinturas, como A Primeira Missa no Brasil, e gravuras dos artistas viajantes Jean Baptiste Debret (1768-1848) e Rugendas. Eles, é preciso que se diga, tinham uma visão européia do Brasil e, por um período, receberam apoio financeiro da corte portuguesa. Telas com negros sentados calmamente esperando para serem comprados, por exemplo, amenizam os impactos negativos da escravidão. " Os livros pecam ao não tratar as imagens como documentos históricos e utilizá-las apenas como ilustrações. Elas reproduzem uma mentalidade", avalia Maria Luiza.

O exercício a ser proposto, nesse caso, é descobrir o que não está mostrado explicitamente. Como era o dia-a-dia dos escravos? De que forma eles eram tratados? O trabalho se torna mais rico quando a possibilidade de contrapor essas ilustrações a outras, como as do dinamarquês Paul Harro-Harring (1798- 1870). Uma de suas gravuras (acima) mostra um mercado de escravos com senhoras aristocratas e compradores de escravos. "É uma cena desumana, em que as escravas são cutucadas, apalpadas e examinadas. A imagem funciona como uma denúncia", completa a professora.

Sua intervenção, portanto, é essencial para levar os alunos a refletir sobre os documentos visuais que analisam. "O livro didático é uma referência. Sempre que possível, é importante complementá-lo com materiais que preenchem lacunas como essa", diz Maria Luiza.

Para utilizar da melhor forma as imagens em sala de aula, confira as recomendações dos especialistas:

 - Incentivar a busca de respostas para as seguintes perguntas: qual a natureza desse documento? Quem o produziu? Quando? Com que objetivo? Como chegou até nós? Qual a questão central dele? Que tipo de mensagem o autor quer transmitir? Que avaliação você faz dele? Em sua opinião, existe algo que esteja subentendido nele? Como ele nos permite conhecer o passado? É importante garantir que cada um exponha o valor da obra enquanto testemunho de uma época e também a própria impressão sobre ela.

 - Discutir o fato de que um quadro é uma representação da realidade. Isso porque, quanto mais colorido e bem traçado, maior a tendência de ele ser confundido com o real.

- Pedir que os alunos façam uma descrição minuciosa das obras, estimulando- os a verificar enquadramento, ponto de vista, plano, técnicas (foto, pintura, litografia etc.) e outros detalhes que poderiam passar despercebidos em uma observação menos atenta.

 - Alertar para a necessidade de considerar possíveis elementos ausentes na cena. Eles podem revelar uma nova interpretação daquele momento.

- Além de analisar imagens de forma isolada, propor a comparação de trabalhos sobre um mesmo tema de autoria de artistas diversos com diferentes percepções. 

Feito dessa maneira, o trabalho em classe se assemelha ao dos historiadores, que consideram diversos documentos como fontes e os analisam em busca de conclusões. A turma compreende, assim, que os fatos históricos não mudam. O que muda é a forma como são interpretados. Essa percepção amplia o espírito crítico ao descobrir que há várias maneiras de entender a História, os jovens constróem sua visão."Quando aprendem a fazer essa leitura crítica, ganha sentido a análise do que acontece no presente. Eles percebem a relação do passado com o que vêem no noticiário político, por exemplo", afirma Gislane Azevedo.

Retratos do Brasil Colônia

Adriana Maria Sudário Pires, professora da EE Marconi, em Belo Horizonte, recorre à análise de imagens nas aulas para turmas de 6o e 7o ano. Para que esse tipo de trabalho faça sentido para os estudantes, ela pede, primeiro, que cada um faça um desenho mostrando sua percepção do tema que está sendo estudado. "Ao destacar que nunca um trabalho fica igual ao outro, explico que todos têm diferentes visões sobre um mesmo assunto e que a imparcialidade não existe", conta.

Quando trabalha a Inconfidência Mineira, no 7o ano, por exemplo, Adriana pede que a turma escreva uma pequena biografia de Tiradentes com o objetivo de responder esta pergunta: "Por que ele é considerado um herói brasileiro?" A leitura de imagens é proposta sempre após o estudo do tema, com base em vários exemplos (veja dois acima). O desafio dirigido à classe é descrever cada obra e explicar seu significado. Por que em um quadro - como o de Pedro Américo - Tiradentes aparece de barba e cabelos compridos e em outro - como o de José Washt Rodrigues - ele está barbeado e vestindo farda militar? O que essas diferentes aparências denotam?

Não há nos livros registros de descrições físicas claras de Tiradentes. No entanto, os historiadores lembram que, antes da execução por enforcamento, os condenados tinham barba e cabelo raspados. Por que o personagem aparece cabeludo e barbado na maioria das representações artísticas? Possivelmente, para dar uma aura de mártir, em referência a Jesus Cristo. A questão não é derrubar a fama de Tiradentes, mas mostrar como os heróis são construídos por meio de símbolos.

A professora afirma que, por meio do estudo de obras como essas, a garotada passou a entender que há diversas interpretações do passado. O quadro que retrata um fato histórico não necessariamente apresenta uma verdade. "Explicar isso apenas com textos não tem o mesmo efeito. A análise das imagens ajuda a entender esse conceito."

Quer saber mais?

CONTATO
EE Marconi, Av. do Contorno, 8476, Belo Horizonte, MG, tel. (31) 3337-4098

BIBLIOGRAFIA
História E Imagens, Eduardo França Paiva, 119 págs., Ed. Autêntica, tel. (31) 3423-3022, 26,50 reais

O Olhar Europeu: O Negro na Iconografia Brasileira do Século XIX, Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro, 240 págs., Ed. Edusp, tel. (11) 3091-4150, 79,80 reais

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