Sem perder a história do bonde

No Morro de Santa Teresa, no Rio, trabalho junta passado e presente numa inesquecível viagem ao mundo do conhecimento

POR:
Ricardo Prado
A escola pega o bonde: estudantes da rede pública em Santa Teresa produzem livro sobre um dos últimos bondes em operação no país. Foto: André Valentin

A escola pega o bonde: estudantes 
da rede pública em Santa Teresa 
produzem livro sobre um dos últimos 
bondes em operação no país. 
Foto: André Valentin

Quem passa pelo bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, tem o privilégio de viajar ao início do século com um simples aceno de mão. Por módicos 60 centavos, qualquer um pode embarcar num dos antigos bondes que ainda circulam pelas ruas sinuosas e estreitas do morro e dividir os bancos de madeira com turistas e estudantes. Há também os "sem-passagem", que se aproveitam da pouca velocidade com que a pequena composição amarela serpenteia entre as ladeiras para se pendurar no veículo até a chegada do cobrador. Tal comportamento certamente seria criticado por Machado de Assis, no tempo em que o escritor publicava suas crônicas na Gazeta de Notícias.

Cem anos depois, o bonde continua o mesmo, mas mudaram os costumes e a observação deles. Na classe de aceleração da professora Maria Lúcia Pereira Guimarães, na Escola Municipal Júlia Lopes de Almeida, localizada no coração do bairro, as crianças debruçam-se justamente sobre uma crônica de Machado na qual ele comenta alguns maus costumes dos usuários do transporte. O objetivo, agora, é criar um manual de etiqueta adequado aos tempos modernos. Um aluno sugere que quem está nas calçadas não deve "mexer com os gringos" ? preocupação que não fazia parte do cotidiano da então capital federal, um século atrás. Outro, inspirado no grande escritor, comenta que é muito feio sentar-se com as pernas abertas.

Projeto pedagógico

Nome do projeto: Estudando coletivamente os bondes de Santa Teresa

Ciclo/série: 2ª e 4ª séries (1º e 2º ciclos)

Tempo de duração: quatro meses

Objetivos de aprendizagem: Língua Portuguesa: reconhecer o uso social do texto informativo, valorizando-o como fonte de pesquisa; diferenciá-lo dos demais; conhecer seus principais suportes (livros, enciclopédias, sites, catálogos); utilizar procedimentos adequados de pesquisa, identificando os dados mais importantes; realizar e compartilhar registros pessoais por meio de listas, desenhos, legendas etc.; produzir textos informativos; preparar e realizar entrevistas, extraindo as informações úteis; comunicar a pesquisa realizada a um destinatário específico.

Produto final: pequenos textos informativos para um mural, um álbum de fotografias ou um livro a ser entregue para outra classe ou para arquivar na sala de leitura ou na biblioteca.

Quando propuser um projeto didático (acima), você deve ter em mente o que pretende ensinar e se o tema é capaz de mobilizar as crianças. Um trabalho sobre meios de transporte antigos com certeza tem essa capacidade. E mesmo que você não tenha bondes na sua cidade, é possível adaptar a idéia de Maria Lúcia e Rosana Pinto da Silva, sua colega neste projeto, para outros tipos de transporte (leia o quadro no final da página).

Maria Lúcia e Rosana não tinham dúvidas de que a idéia de fazer um livro sobre os bondes de Santa Teresa seria bem recebida. Afinal, quase todas as crianças não só conheciam como já haviam andado neles, muito embora poucas tivessem se aventurado para além dos limites do bairro.

A proposta, é claro, foi aceita com entusiasmo. O livro seria escrito em conjunto pelas duas turmas. Os 33 alunos da 4a série de Rosana, mais adiantados na alfabetização, cuidariam do texto principal, enquanto os 18 da classe de aceleração de Maria Lúcia ficariam com as legendas e as curiosidades de uma seção chamada "Você sabia?".

Antes de sair pesquisando tudo sobre o assunto, a garotada preparou uma lista de dúvidas. O cerco ao tema principal é importante para que a pesquisa seja objetiva, lembra Rosângela dos Anjos, psicóloga com especialização em educação do Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, organização não-governamental que, em parceria com o Centro de Estudos da Escola da Vila, de São Paulo, assessorou a implantação do trabalho. "Muitas vezes, alunos e professores querem colocar uma grande quantidade de informações no projeto", diz Rosângela. "Mas é preciso definir um objetivo. Neste caso, é trabalhar leitura e escrita, não a história das ferrovias."

1. Trabalho de campo
No Museu do Bonde, localizado no pátio da empresa que gerencia o serviço, cada criança fez um desenho de observação e, de volta à classe, escreveu o que mais havia chamado a atenção. A turma descobriu, entre outras preciosidades, que o nome do carro é resultado da apropriação lingüística da palavra inglesa "bond", nome dado aos talõezinhos de bônus de viagem que a companhia mandou imprimir nos Estados Unidos para driblar a falta de moedas no Brasil. Por um problema de troco, usavam-se os "bonds" ? que deram nome aos bondes. Ali estava um bom exemplo de curiosidade para fazer parte do livro.

Se a visita foi frustrante pelo pouco que se apurou da história do veículo no bairro ? o acervo é muito focado nos bondes, com informações esparsas sobre aspectos da cidade ?, ela serviu para consolidar uma certeza: ninguém havia pensado em fazer um livro como aquele, que seria posteriormente doado ao próprio museu.

2. A fala vira escrita
Um condutor, um eletricista encarregado da manutenção dos carros e o artesão Getúlio Damado, que faz réplicas do bondinho para vender aos turistas, foram entrevistados pelos estudantes. "Boa oportunidade para as crianças aprenderem como extrair as informações necessárias", anteviu Maria Lúcia. No processo, porém, ela percebeu que a turma não conseguiria transcrever o material gravado. Poucos estavam familiarizados com a escrita e menos ainda, com o manejo do gravador. Por isso, a professora decidiu partir para uma transcrição coletiva. Ela pilotava o gravador e a turma decidia o que transcrever, com base nas perguntas levantadas previamente. Assim, a fala do entrevistado era transformada em fala dos alunos, que, por sua vez, escreviam as informações no quadro-negro. A professora chamou a atenção para as repetições e outros cacoetes da língua oral, que exigem adaptações para o texto escrito.

3. Mais pesquisas
Em sala de aula, as estratégias de pesquisa se diversificaram. Para "esquentar os motores" na coleta de informações, Rosana e Maria Lúcia escolheram um texto informativo da bibliografia selecionada e distribuíram cópias para os alunos lerem. A cada parágrafo, pausa para checar a compreensão e conferir se ali havia a informação que pudesse esclarecer alguma das dúvidas.

Outro trabalho de pesquisa foi a distribuição para cada equipe de um livro sobre o assunto. O objetivo era fazer com que as crianças encontrassem uma informação no meio de várias, aprendendo a descartar o que não é relevante.

Uma aluna de Rosana trouxe uma notícia publicada no jornal O Globo sobre um descarrilamento no Largo dos Guimarães, ali próximo. Imediatamente, o fato foi transformado em mais um exercício de leitura e escrita. Cada um deveria criar uma imagem e escrever uma legenda sobre a história. Outra nota veiculada nos jornais em agosto, de que uma escola de samba escolhera o bondinho como tema para o samba-enredo, também foi explorada. As informações do texto tinham de ser transformadas em curiosidades do tipo "Você sabia?", como treino para o livro.

4. Texto de vários autores
Um dos alunos de Maria Lúcia, escrevendo sobre o assunto, redigiu assim: "Você atrai a curiosidade de turistas de todos os cantos". Com a página ampliada no retroprojetor (novidade tecnológica introduzida junto com o projeto), a professora perguntou como melhorar o texto. Alguém sugeriu que se trocasse o "você" por "bondes". Outro argumentou que melhor seria iniciar a frase com "você sabia que...". Um terceiro defendeu que se acrescentassem as palavras "do mundo" depois de "todos os cantos", para deixar claro que muita gente de fora do país passeia no bondinho. Assim funciona a revisão coletiva. Todos saem ganhando e aquilo que era obra de uma dupla torna-se de toda a classe.

5. Imagens e legendas
A turma de Rosana, responsável pelo texto principal, também cuidou de editar as fotografias tiradas durante o trabalho de campo. Faz parte dos objetivos do projeto que as crianças saibam ler as imagens com a mesma desenvoltura com que transitam pela palavra escrita. Isso vale tanto para imagens selecionadas de livros antigos como para as feitas nas entrevistas e na visita ao museu. Depois de selecionadas as melhores e mais adequadas ao que se quer contar, cada dupla recebeu a incumbência de escrever uma legenda. Outro exercício de escrita feito pelas duas turmas foi exprimir, em duas linhas, as informações mais importantes referentes a uma imagem.

6. Defesa de idéias
À medida que se aproximava a conclusão do projeto, o trabalho de casar imagem e texto foi se intensificando. Exercícios de legendar fotografias históricas, como as dos Arcos da Lapa (que antigamente eram aquedutos), foram feitos individualmente e em grupo. Treinando a capacidade de argumentar e defender uma idéia, a própria classe decidia pela redação que melhor sintetizava a imagem ou, em alguns casos, partia para a criação coletiva aproveitando trechos sugeridos por dois ou três grupos.

7. O arremate final
A etapa decisiva do projeto consistiu em produzir imagens para ilustrar o material escrito. A capa precisava de várias ilustrações, bem como as seções de curiosidades. As crianças também descobriram que um livro tem mais do que texto e imagem. É preciso uma apresentação, numerar e organizar as páginas, pensar na diagramação. Depois de tudo, as professoras fizeram uma revisão final, pois o livro seria entregue ao Museu do Bonde e não poderia fazer feio frente aos outros volumes do acervo.

Ufa! Tanto trabalho valeu a pena. O bonde de Santa Teresa tem, finalmente, um livro só dele. Mais do que merecido para o sobrevivente de uma época quase esquecida. E nada melhor para deixar cheios de orgulho seus pequenos autores. Graças ao projeto, ninguém na Escola Municipal Júlia Lopes de Almeida perdeu o bonde, nem sua história.

Apresentação é fundamental

O projeto feito pela escola de Santa Teresa pode ser facilmente adaptado para outros meios de transporte disponíveis em sua cidade. Veja aqui algumas sugestões:

"Veja, ilustre passageiro/ o belo tipo faceiro/ que o senhor tem a seu lado./ E, no entanto, acredite/ quase morreu de bronquite./ Salvou-o o Rum Creosotado." Os mais velhos ainda se lembram desses versos, um clássico da propaganda brasileira veiculado nos bondes na década de 40 do século passado. Mais do que lembrança de uma época em que a publicidade ostentava certa ingenuidade, eles sinalizam o início da urbanização brasileira. A chegada de bondes, ônibus e trens de passageiros às cidades, criando os primeiros meios de transporte de massa, foi fartamente documentada. Jornais da época trazem referências aos "novos meios de transporte"como símbolos do progresso. Crônicas, fotografias, revistas e livros antigos são um ótimo ponto de partida para um projeto que une procedimentos de pesquisa e redação de textos informativos. A presença de um museu ferroviário na sua cidade ou em alguma região próxima permite a recriação de todos os passos deste trabalho, que transita também pelas disciplinas de Geografia e História. Diversos sites (como www.trem.org.br e www.geocities.com/SiliconValley/5978/rail.html) listam endereços de museus ferroviários. A seguir, alguns que agendam visitas para escolas.

?  Museu do Trem do Rio de Janeiro, R. Arquias Cordeiro, 1046, CEP 20770-001, Rio de Janeiro, RJ, tel. (0_ _21) 2269-5545. Carros usados por Getúlio Vargas, o rei Alberto da Bélgica e D. Pedro II, além da "Baronesa", a primeira locomotiva a vapor do Brasil.

? Memorial do Imigrante, R. Visconde de Parnaíba, 1316, CEP 03164-300, São Paulo, SP, tel. (0_ _11) 6692-1866. Passeio de Maria Fumaça, agendado para escolas às quintas e sextas-feiras. Preço por estudante: 3 reais (passeio e visita ao museu).

? Museu Ferroviário de São João Del Rey, Av. Hermilio Alves, 366, CEP 36300-000, São João Del Rey, MG, tel. (0_ _32) 3371-2888. É a mais antiga estrada de ferro em operação no país, desde 1881. No museu, história das ferrovias no mundo e no Brasil. Preço: 3 reais (crianças de 6 a 10 anos) e 7 reais.

? Museu do Trem do Recife, Pça. Visconde de Mauá, s/no, CEP 50020-100, Recife, PE, tel. (0_ _81) 3455-4533, r. 249. Interligado ao metrô, possui biblioteca ferroviária, peças e fotografias de época em painéis.

? Museu do Trem de São Leopoldo, R. Lindolpho Collor, 61, CEP 93010-080, São Leopoldo, RS, tel. (0_ _51) 592-1943. O museu possui diversos carros e vagões, uma bicicleta de trilho, rema-rema, peças e móveis. Visitas são monitoradas e gratuitas.

? Maria Fumaça Campinas-Jaguariúna, Estação Anhumas (próximo ao Carrefour D. Pedro I), Campinas, SP, tel. (0_ _19) 3207-3637. Passeio em uma bem conservada locomotiva a vapor até a Estação Tanquinho ou até a cidade de Jaguariúna.

Quer saber mais?

Centro de Estudos da Escola da Vila, Av. Corifeu de Azevedo Marques, 857, CEP 05581-000, São Paulo, SP, tel. (11) 3726-3384

Escola Municipal Júlia Lopes de Almeida, R. Almirante Alexandrino, 3466, CEP 20241-262, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2225-2412

Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, R. Joaquim Silva, 56, 8º andar, CEP 20241-110, Rio de Janeiro, RJ, tel. (21) 2252-0366

Museu do Bonde, tel. (21) 2222-1003 (para agendar visitas monitoradas)

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