Marmelópolis tem memória

Alunos de 3ª série confrontam depoimentos, documentos, vídeo e fotos para escrever um livro que recupera as tradições e o valor da cidade em que vivem

POR:
Denise Pellegrini
Ana Flávia e os alunos em frente à igreja construída em 1937: no passado, as mulheres só podiam ir à missa com véu na cabeça. Foto: Marie Ange Bordas
Ana Flávia e os alunos em frente à igreja construída em 1937: no passado, as mulheres só podiam ir à missa com véu na cabeça. Foto: Marie Ange Bordas

Localizada entre as colinas da serra da Mantiqueira, a 1,3 mil metros de altitude, a pequena Marmelópolis encanta seus visitantes pela beleza natural que a cerca. Mas quem chega pela primeira vez logo se intriga: onde estão os pés de marmelo, que batizam a cidade? As plantações do fruto são, sim, a razão do nome - e do surgimento - do município mineiro de 3 mil habitantes.Hoje, porém, restam poucas árvores desse tipo pelas redondezas.Nem as crianças sabiam, até o ano passado, explicar o motivo de o lugar ter sido chamado assim.A situação desagradava profundamente à professora Ana Flávia Ribeiro Coura Guizalberte, para quem sua terra natal precisa ter a história conhecida a fundo e valorizada, como acontecia durante o apogeu da produção de polpa de marmelo, na segunda metade do século passado."O fato de as fábricas de doce terem ido embora não acaba com a importância de Marmelópolis", afirma. O estudo do município é parte do programa da 2ª e da 3ª séries na EM Professor Francisco Bruno Ribeiro, mas isso se dava só com base num texto oficial."Queria que a turma de 3ª série entendesse como nossa cidade cresceu e por que agora não há mais empregos na indústria", explica Ana Flávia, que desenvolveu um projeto sobre o tema durante três meses. Para a consultora Flávia Aidar, responsável pela seleção do trabalho na nona edição do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10 (leia o quadro na página 48), a forma como mo a professora desenvolveu o projeto Memórias permitiu aos estudantes conhecer procedimentos que são utilizados profissionalmente por historiadores. "A turma adquiriu a noção de tempo histórico, constatando o que permanece e o que se transforma nos costumes da população, compreendeu que somos sujeitos da história e aprendeu a analisar documentos escritos, fotos, entrevistas e construções."

Prato típico

Ana Flávia havia iniciado o estudo do município com esses alunos em 2005 - quando eles estavam na 2ª série. No ano seguinte, retomou o tema.No diagnóstico inicial, ela se espantou: "Ninguém conhecia sopa de marmelo. A sobremesa fez parte da minha infância". A professora pediu, então, para a mãe preparar o doce e levou para a escola. "Nem todos gostaram, mas eles precisavam conhecer uma tradição de nossa cidade." O projeto começou efetivamente com a análise de documentos. Além de fotos, um livro de atas da igreja - que tinha como destino o lixo - foi incorporado ao acervo. Certidões de casamento, nascimento e óbito e um caderno escolar de 1906 foram dando pistas sobre o que acontecia antigamente."Analisamos coletivamente uma foto da década code 1930 que mostrava uma procissão para comemorar a inauguração da igreja", conta. Depois, em grupo, a garotada estudou os documentos. As informações importantes eram anotadas e depois compartilhadas. "Assim, eles melhoraram a capacidade de ler e de interpretar." Uma etapa do trabalho bastante rica foi a visita aos locais onde funfuncionaram algumas das fábricas de polpa de marmelo - o município chegou a ter 14 delas. Na da marca Sene, ainda é possível ver os locais onde os frutos eram lavados, cozidos e depois enlatados."Nessa etapa, discutimos a importância da preservação do patrimônio histórico", diz Ana Flávia. No entanto, da principal fabrica que pertencia à Cica, restam apenas ruínas. Foi a chance de falar sobre os motivos da demolição e comentar sobre a necessidade de cobrar da prefeitura a transformação do local em uma praça, uma velha reivindicação. A igreja, que nasceu como uma construção de pau-a-pique, também foi visitada.No passado todos descobriram, as mulheres só entravam lá de véu na cabeça. De volta à classe, a turma fez desenhos sobre os passeios e depois assistiu a um filme que mostra o processo de produção da polpa de marmelo. Após a exibição, foi elaborado um texto em que eram descritos as roupas usadas pelas pessoas na época, o comportamento delas e como era o trabalho na fábrica. "Fizemos uma comparação com os dias atuais, o que ajudou a estabelecer uma ponte entre o documento e a realidade e a refletir sobre as mudanças ocorridas", explica Ana Flávia.

Entrevistas com idosos

Chegou, então, a hora de utilizar uma nova fonte de informação: os antigos moradores. Cada estudante entrevistou um idoso. "Eu não sabia que aqui funcionou uma fábrica da Cica. Descobri também que na cidade não havia médico nem polícia", lembra Ana Helena Pereira Ribeiro, 9 anos, que conversou com Nair Cipriano da Silva Coura. Na aula seguinte, todos queriam contar o que tinham ouvido. Depois, compararam a entrevista, o filme e as fotos analisadas, escrevendo conclusões. Assim, eles ampliaram a capacidade de leitura e interpretação de informações nas diferentes fontes e estabeleceram relações entre eles. Os depoimentos foram utilizados para a produção de textos de memórias, que mereceram uma análise em grupo e várias reescritas de acordo com as orientações passadas pela professora."Havia histórias sem seqüência, misturando a vida adulta e a infância. Expliquei que a pessoa poderia contar tudo sem ordem, mas que é preciso organizar", afirma Ana Flávia. Algumas passaram por uma correção coletiva no quadro até que estivessem prontas para publicação (foi o caso da aluna Stéfani Damaris Assis de Souza, 9 anos, que entrevistou o senhor Antônio Frederico Ribeiro, antigo funcionário de uma das fábricas). As entrevistas geraram dúvidas sobre o real motivo do fechamento das indústrias de doces e o conseqüente declínio econômico da cidade. Para resolvê-las, foi feita uma pesquisa no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Entre os motivos apontados estavam a não-renovação dos pés de marmelo e do solo e o aumento da concorrência. A última fábrica fechou há dez anos e hoje Marmelópolis vive da produção de tomate, batata e pêssego. Em seguida, houve a leitura de um poema sobre o tempo. As ilustrações inspiradas pelo texto foram colocadas num mural, ao lado da linha do tempo da vida de cada um e da linha da cidade, feita coletivamente com base nos documentos estudados."Oralmente, localizamos os acontecimentos que envolveram as pessoas entrevistadas. Isso fez com que eles entendessem que todos fazemos parte da história." Quando a primeira versão do livro Memórias do Nosso Povo ficou pronta, foram montadas 20 cópias na própria escola. O volume reúne 47 textos - alguns deles de autoria dos alunos de 5ª série de Ana Flávia em outro colégio. Para o lançamento, a professora conseguiu o apoio da prefeitura, que financiou a impressão em gráfica de mais 120 exemplares - que não foram suficientes para tantos interessados.Afinal, o material diz respeito a todos os moradores. Os estudantes, que antes tinham uma impressão bastante negativa do local onde vivem, aprenderam que são protagonistas da história, assim como os moradores mais antigos,que ganharam novo prestígio. A turma melhorou nas habilidades de leitura, escrita e interpretação de textos e imagens, aprendeu a valorizar o patrimônio histórico e a memória como fonte histórica e compreendeu que conhecer o passado é fundamental para entender o presente."Construímos juntos uma nova visão da cidade", comemora Ana Flávia.

O projeto em oito etapas

1. Sopa de marmelo
O projeto de Ana Flávia teve início com um diagnóstico para verificar o que as crianças sabiam sobre Marmelópolis. Uma das constatações que mais causaram surpresa à professora foi a de que ninguém conhecia a origem do nome da cidade nem a sopa de marmelo. O tradicional doce logo virou merenda.

2. Documentos antigos
A professora e a garotada conseguiram reunir, junto a amigos e familiares, documentos históricos: fotos, certidões de casamento, nascimento e óbito e até um caderno escolar de 1906. Tudo foi analisado pela turma em sala de aula. E as anotações sobre o material foram compartilhadas entre os colegas.

3. Visita às ruínas
A garotada foi ver de perto os locais onde, no passado, muitos moradores de Marmelópolis trabalhavam: as fábricas de polpa de marmelo. De uma delas, que pertenceu à Cica, sobraram apenas ruínas. Outra, da marca Sene, ainda mantém alguns equipamentos deteriorados.

4. O apogeu, em vídeo
Um filme de 1952, mostrando todo o processo de produção da polpa de marmelo - desde a chegada dos caminhões carregados com o fruto, passando pela lavagem deles e o processamento -, ajudou na reflexão sobre as mudanças econômicas e sociais ocorridas no município.

5. Entrevistas com moradores
Cada criança entrevistou uma pessoa idosa da cidade em busca de informações sobre a história local. O roteiro foi previamente definido pela turma e pela professora, que orientou todos sobre como se comportar. Outras questões poderiam ser introduzidas e tudo deveria ser anotado

6. Textos de memórias
Os depoimentos se transformaram em textos de memórias, escritos em sala. As produções foram analisadas em grupo e reescritas. Algumas passaram por uma correção coletiva no quadro. A professora avisou que era importante colocar em ordem cronológica os fatos narrados pelo entrevistado.

7. Linha do tempo
Depois de ler um poema sobre o tempo, cada um ilustrou um verso. As produções foram para a parede, juntamente com a linha do tempo de vida dos estudantes e da cidade, feita com base nos documentos estudados. Tudo para que as crianças se compreendessem como sujeitos da história

8. No fim, um livro
O livro Memórias do Nosso Povo reuniu 47 textos. A obra foi lançada durante uma assembléia escolar, para a qual toda a comunidade foi convidada. Os 120 exemplares - impressos com a colaboração da Secretaria Municipal de Educação - não foram suficientes para tantos interessados.

Estudar a história do município...

?  Ajuda a perceber as transformações no modo de vida de um povo.

? Mostra que quem faz a história são as pessoas.

? Ensina a trabalhar com diferentes fontes de informação.

Quem é Ana Flávia

Ana Flávia Ribeiro Coura Guizalberte tem 28 anos e é natural da pequena Marmelópolis - cidade que adora e quer valorizar. Fez Magistério na vizinha Delfim Moreira e, em 2000, se formou em História na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itajubá. Leciona há dez anos, dividindo seu tempo entre a EM Professor Francisco Bruno Ribeiro, a EE Albano de Oliveira e a família. Casada há sete anos, tem dois filhos. Seu interesse pela disciplina vem do berço. A mãe, também professora e natural da cidade, é co-autora do único documento histórico do município, utilizado nas escolas até então. "Por causa dela, que não pôde fazer faculdade, resolvi seguir essa carreira e me apaixonei", diz a Educadora Nota 10. Bisneta do pioneiro na plantação de marmelo na cidade, fez da fruta o tema de outro trabalho, O Solo e a História, com o qual foi premiada no Programa Semeando, promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Minas Gerais em 2005. No ano passado, também foi vencedora de um prêmio promovido pelo Departamento Nacional de Trânsito, em Brasília.

A continuidade do pensamento histórico

De acordo com a consultora Flávia Aidar, responsável pela seleção do trabalho de Ana Flávia, a professora introduziu conceitos fundamentais do ensino de História. Por meio de entrevistas com moradores da cidade, os alunos aprenderam sobre o movimento histórico, percebendo as mudanças ocorridas no local e o que permaneceu no modo de vida do povo. A análise de diversos tipos de fontes e documentos históricos levou-os a compreender como os historiadores constroem conhecimento. Por fim, ao entenderem a importância do local onde antigamente funcionou a fábrica da Cica e reivindicarem a construção de uma praça, tiveram a clara noção de que todos fazemos a história. Ana Flávia já pensa em fundar um museu na cidade. Para a consultora Flávia, a Educadora Nota 10 acerta na proposta, muito mais significativa que a da praça. "Essa seria a oportunidade de levar a todos os moradores o que os estudantes já aprenderam: mais do que simplesmente reunir objetos e documentos antigos, eles passaram a estabelecer uma relação entre o passado, o presente e o futuro." Nesse espaço, que deve ser vivo, como foi o projeto, os habitantes idosos que serviram de fonte de informação poderiam ajudar na reflexão sobre Marmelópolis por meio de suas memórias.

Quer saber mais?

CONTATOS

Ana Flávia Ribeiro Coura Guizalberte

EM Professor Francisco Bruno Ribeiro
, R. Francisco Rodrigues Coura, 163, 37516-000, Marmelópolis, MG, tel. (35) 3625-1401 

Compartilhe este conteúdo:

Tags

Guias

Tags

Guias