Protestar: um direito de todos os cidadãos

Relacionando a atualidade à Revolução Francesa, a classe reflete sobre os fatos

POR:
Bruna Nicolielo
O aumento da tarifa de ônibus em São Paulo desencadeou protestos em todo o Brasil. Foto: Folhapress
O aumento da tarifa de ônibus em São Paulo desencadeou protestos em todo o Brasil

Um grupo de pessoas indignadas toma as ruas contra o aumento do preço do pão. O episódio se parece com as manifestações que ocorreram em São Paulo no mês de junho devido à elevação da tarifa de ônibus e desencadearam protestos no restante do país, mas foi um dos estopins da Revolução Francesa (1787-1799). A relação do passado com a atualidade, considerando as especificidades de cada situação, foi explorada pelo professor João Luis da Silva Bitulini com os alunos do 8º ano da EE João de Oliveira Franco, em Curitiba. "Esse é um dos objetivos da disciplina. A História não se repete e o contexto atual não pode ser considerado idêntico ao do passado", diz o psicólogo espanhol Mario Carretero, docente da Universidade Autônoma de Madri, que pesquisa o ensino das Ciências Sociais.

A Revolução Francesa estava no planejamento de Bitulini, que pretendia abordar o tema em quatro encontros com a classe. Na sondagem, o professor constatou que os jovens sabiam muito pouco sobre esse período. Quando perguntou o que conheciam, eles lembraram apenas de palavras-chave, como violência, guerra e morte. "A turma fez essa relação porque o próprio conceito de revolução está ligado à ideia de rompimento violento", diz o docente. Além disso, pinturas sobre o período, como Liberdade Guiando o Povo, do francês Eugène Delacroix (1798-1863), ajudam a reforçar esse estereótipo. "Ela é frequentemente reproduzida nos livros didáticos, o que explica esse tipo de associação", afirma Juliano Custódio Sobrinho, docente de História da Universidade Nove de Julho (Uninove).

Depois disso, Bitulini apresentou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Ele explicou que o documento, consequência da insurreição francesa, foi o mais importante da época e definiu os direitos dos homens. Também disse que ela foi a primeira declaração de direitos, inspiradora de outras, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948.

Comparação entre o passado e o presente

Todos leram a carta e selecionaram os trechos que mais chamavam a atenção. Foram escolhidos os artigos 14 e 17 para discussão posterior. O professor aproveitou para propor uma análise do quadro Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, de Jean-Jacques-François Le Barbier (1738-1826). A escolha da imagem, que não traz as cenas de conflito armado comumente associadas à insurreição, foi intencional. "Perguntei aos alunos o que estavam observando e eles descreveram a cena. O que mais intrigou a turma foi a presença de um anjo", explica Bitulini. Ele comentou que esse desenho dava uma conotação espiritual à declaração. "É como se os céus abençoassem o documento", diz ele. Também reforçou outros aspectos, como a figura de um olho dentro de um triângulo, que pode ser interpretada como uma menção bíblica ou maçônica.

Bitulini mostrou quadro sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Foto: Marcelo Almeida
Bitulini mostrou quadro sobre a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: a figura do olho (ao centro) dá um caráter místico à promulgação da declaração; o anjo também reforça a conotação espiritual do acontecimento

Em seguida, ele exibiu trechos de um documentário sobre a Revolução Francesa do History Channel. Antes da exibição, lembrou que o vídeo tinha sido feito por historiadores ingleses. "Falei que esse era um olhar sobre o tema, mas que havia muitos outros", explica. O momento seguinte foi dedicado a debater o que tinha sido visto. Sem abandonar a temática anterior, Bitulini abordou as manifestações que ocorriam pelo país e perguntou se os estudantes estavam acompanhando as notícias. Alguns comentaram que familiares tinham ido às passeatas. O professor, então, convidou a garotada a fazer relações entre o que tinha sido visto na leitura e no vídeo e o que ocorria no Brasil contemporâneo. A turma lembrou que o estopim da revolução na França foi um protesto contra o aumento do preço do pão, então a base da alimentação dos camponeses, enquanto a tarifa de ônibus levou às manifestações no Brasil.

História que não se repete

O professor explicou que o transporte público também é uma necessidade básica, mas que hoje vivemos uma realidade diferente e que, portanto, associações diretas (como "o pão desencadeou uma rebelião, logo o aumento da passagem também desencadeará") não podem ser feitas. "Lembrei que a revolução não ocorreu de um dia para o outro, mas graças a muitos anos de injustiça", relata. Ele reforçou ainda que o povo (composto de camponeses e da burguesia) protestava contra um regime autoritário e que agora vivemos manifestações democráticas, contra governos democráticos. "É importante marcar a diferença entre esses dois momentos, pois revoluções burguesas, como a francesa, são movimentos de contestação ao antigo regime, marcado pela estratificação rígida da sociedade e pela inexistência de eleições diretas", completa Sobrinho.

Uma das cenas do documentário levou os estudantes a mencionar os episódios de destruição do patrimônio público observados em algumas manifestações brasileiras. Mesmo assim, todos concordaram que os cidadãos têm o direito de protestar, como já assegurava a carta de 1789.Para aprofundar a discussão, vale propor a leitura de trechos de obras de historiadores, como A Era das Revoluções - 1789-1848 (Eric J. Hobsbawm, 600 págs., Ed. Paz e Terra, tel. 11/3223-6290, 60 reais) e A Fabricação do Rei - A Construção da Imagem Pública de Luís XIV (Peter Burke, 264 págs., Ed. Zahar, tel. 21/2529-4700, 59,90 reais). "É possível comparar esses textos com artigos de jornais atuais, identificando os grupos envolvidos e a pauta de reivindicações em cada caso", sugere o professor Lucas Monteiro de Oliveira, da Escola Santi, em São Paulo. Uma avaliação encerrou o trabalho. A garotada tinha que escrever textos dissertativos sobre a Revolução Francesa, relacionando-a ao contexto brasileiro contemporâneo.

1 Fontes primárias Sugira a análise de fontes históricas da Revolução Francesa, como documentos, pinturas e outros registros. Converse com a turma sobre as descobertas desse estudo.

2 Fontes secundárias Selecione vídeos e textos que possam aprofundar o trabalho. Documentários históricos e artigos escritos por historiadores são ótimas opções.

3 Passado e presente Proponha uma comparação entre o período estudado e o presente, lembrando que a atualidade não pode ser considerada idêntica ao passado.

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