PARCERIA
Logo Instituto XP

Educação financeira: por que o assunto deve ser ensinado nas escolas?

Tabu em muitos lares brasileiros, a relação com o dinheiro pode motivar discussões importantes em diversos componentes curriculares

POR:
Dimítria Coutinho
Ilustração de pai e filho tirando produtos de cozinha de dentro de uma caixa.
Crédito: Thiago Lopes (Estúdio Kiwi)/NOVA ESCOLA

A vivência dentro de casa e as consequências da crise econômica causada pela pandemia de Covid-19 aproximou mais pessoas do tema educação financeira. “Elas se viram em situações indesejáveis e passaram a buscar formas de controlar as finanças”, notou Cláudio Miranda, docente da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP). Ele diz que essas dificuldades servem também como gancho para abordar a educação financeira com crianças e adolescentes. Atividades que deixaram de acontecer por conta do isolamento social se tornam bons exemplos para que os pequenos entendam que alguns gastos são supérfluos e podem ser contidos mesmo após o fim da pandemia. 

Pouco trabalhada nas escolas e ainda um tabu em muitos lares brasileiros, a educação financeira tem grande importância na formação de cidadãos mais conscientes com o próprio dinheiro. Não é à toa que ela é um dos temas contemporâneos transversais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). De acordo com especialistas, a educação financeira deve beneficiar, no presente, as famílias dos alunos que entram em contato com o assunto, mas também tem potencial para mudar o Brasil do futuro. “A criança ou jovem se torna um adulto melhor educado financeiramente, e sabendo gerenciar bem os seus recursos ele terá menos problema de endividamento, vai planejar seu consumo e poupar”, explica Luis Gustavo Mansur, Chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central. 

Atualmente o Brasil tem 62,5 milhões de pessoas inadimplentes, segundo a Serasa (dados de maio de 2021), sendo que metade delas está com toda a renda comprometida por conta das dívidas. “Isso é péssimo para o país, mas, sobretudo, para promover a mobilidade social”, opina Claudia Forte, que foi superintendente da extinta Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF), e é uma defensora da educação financeira no ensino básico. “Seu impacto social é o desenvolvimento de uma nação financeiramente educada, consciente, autônoma no seu processo de decisão e menos endividada. A educação deve ser capaz de tirar crianças e adolescentes de um lugar de desfavorecimento e colocá-los em posição de competitividade para planejar seus sonhos e sua vida no longo prazo.” 

A construção de uma consciência financeira nas escolas pode impactar de imediato a rotina das famílias, já que os estudantes costumam levar os conhecimentos adquiridos para dentro de casa. “Esse é um benefício colateral. Os ensinamentos transbordam para os seus pais, para a comunidade em que o aluno vive, gerando economia de água ou de energia, por exemplo”, comenta Mansur. Mas dinheiro é um assunto espinhoso dentro de muitos lares em nosso país. “A relação do brasileiro com o dinheiro não é muito boa, para nós é sempre um mito, é tratado entre os pais, não é discutido no domingo, as crianças não sabem e não tomam conta do orçamento doméstico”, ressalta Claudia. Segundo ela, o ensino nas escolas tende a normalizar esse tipo de conversa e transformar a relação com o dinheiro. 

Como o tema chegou à Base

Antes da BNCC, a temática da educação financeira na educação básica brasileira não estava sistematizada de modo formal, explica Maria Luciana Nóbrega, coordenadora-geral de Gestão Estratégica da Educação Básica da Diretoria de Políticas e Diretrizes da Educação Básica do Ministério da Educação (MEC). Apesar disso, já vinha sendo discutida desde 2010, quando um decreto presidencial criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), inspirada no conceito de educação financeira definido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2005.

Quem executava a ENEF era a Associação de Educação Financeira do Brasil (AEF) que, entre 2012 e 2019, se esforçou para levar o tema para dentro das escolas, mesmo antes da BNCC. “A AEF foi pioneira em capacitar os professores da rede pública e em desvendar os caminhos para a formação em estados e municípios. Participamos da construção da BNCC, fundamentando as decisões tomadas no tocante à educação financeira, insistindo no tema e participando das audiências públicas”, relembra Claudia.

Hoje, a educação financeira está inserida na BNCC como um dos temas contemporâneos transversais, o que significa que o assunto deve ser abordado em diferentes componentes curriculares. “É possível identificar elos da Educação Financeira com todas as competências gerais da BNCC e também com as específicas”, explica Fernando Barnabé, professor de Matemática, integrante do Time de Autores e do Time de Formadores de NOVA ESCOLA, autor e editor de materiais didáticos. A Matemática Financeira é apenas uma parte da Educação Financeira, que o professor costuma reduzir a conceitos apresentados a partir do 5º ano, como desconto, acréscimo, cálculo de juros e porcentagem. Mas a Educação financeira envolve outros aspectos e habilidades. “O consumo e o planejamento abarcam questões econômicas e de Ciências da Natureza, a História entra quando nos questionamos por que a nossa moeda é o real e como chegamos nela”, continua Barnabé. Vale notar que o tema pode, inclusive, ser abordado com crianças que sequer compreendem operações matemáticas.

Quais componentes curriculares podem trabalhar a Educação financeira?  

Como o tema é transversal na BNCC, merece ser abordado considerando uma variedade de conhecimentos e habilidades. Confira alguns exemplos:

• Matemática: conceitos básicos de economia e finanças, como os juros compostos, sempre abordados de forma contextualizada;

• Filosofia: ética relacionada ao dinheiro e seus impactos sociais;

• Ciências Naturais: relação entre consumo e o meio ambiente;

• História: história da moeda e da economia;

• Língua Portuguesa: vocabulário relacionado às finanças, leitura de dados em contas e boletos;

• Geografia: indicadores socioeconômicos, trabalho e setores de produção, empreendedorismo, conceitos relacionados à riqueza e inovações tecnológicas nas relações de trabalho;

• Arte: valorização e valoração de diferentes manifestações artísticas.

Um longo caminho a percorrer

A Educação financeira ainda dá seus primeiros passos nas escolas brasileiras. Na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) de 2018, o Brasil ficou em 17º lugar entre 20 países na análise de competências financeiras. Apesar do resultado negativo, o país caminha para a inserção do tema nas escolas. De acordo com os últimos dados da AEF, o número de iniciativas de educação financeira cresceu 73% entre 2013 e 2018. Em 2013, pouco mais de 30% desses projetos chegavam às escolas públicas, taxa que subiu para 50% em 2018.

Uma das dificuldades para a inserção do tema nas escolas públicas do país diz respeito à gestão da educação. “Embora o tema esteja presente na BNCC, ele não é obrigatório e pode ser abordado por todos os componentes curriculares. Depende do secretário municipal ou estadual incluir a educação financeira como prioridade em projetos pedagógicos e nos documentos direcionadores da rede de ensino”, afirma Claudia. Outro grande desafio é a falta de formação para os professores. O Clube de Mercado Financeiro (CMF) leva palestras sobre educação financeira para escolas. O objetivo do projeto CMF Júnior é ser o primeiro contato de crianças e adolescentes com o tema, mas acaba introduzindo vários educadores no assunto. “Percebemos que é um conteúdo que eles têm carência de saber, pois participam e mostram interesse. Até uma diretora de escola disse, indignada, que não sabia que estava perdendo dinheiro na poupança, então, nem mesmo os adultos, por vezes, têm esse grau de conhecimento”, conta Leticia Trentin, diretora do CMF Júnior.

Miranda, docente na FEA-RP/USP, acredita que a implementação nas escolas ainda deve levar tempo. “Os professores não estão preparados para isso. Um curso não é suficiente, porque eles precisam vivenciar na prática a educação financeira. As faculdades vão ter que pensar em como formar corretamente para o tema”, afirma. Enquanto o Brasil ficou no final da lista em competências financeiras no Pisa, países como Estônia, Canadá, Finlândia, Polônia, Austrália e Estados Unidos lideraram o ranking. “Esses países respeitaram as características culturais e econômicas de cada região, e isso nos diz que não adianta importar um modelo para o Brasil. Precisamos desenvolver portfólios e capacitações adequadas e vinculadas ao nosso modus operandi e ao cenário atual”, afirma Claudia. “Investimento em formação e capacitação dos professores, assim como valorização deles por meio de políticas públicas, reconhecimento salarial e mérito é comum em todas as experiências bem-sucedidas no mundo.”

Educação financeira na prática

O melhor jeito de trabalhar o assunto com crianças e adolescentes é aproximá-lo do cotidiano dos estudantes e de suas famílias, respeitando os contextos socioculturais de cada região e as diferentes maneiras de aprender dos estudantes. Para ajudar a desvendar os caminhos da educação financeira, NOVA ESCOLA prepara uma série de reportagens a ser publicada nos próximos meses, que irá incluir exemplos práticos de como trabalhar o assunto em sala de aula e terá o professor Fernando Barnabé como consultor pedagógico. Também irá disponibilizar cursos e planos de aula para os Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental sobre o tema, que se desdobra em três eixos:

• Dinheiro: a história das moedas, usos e avanços na sociedade, como os pagamentos digitais;

• Consumo: consciência de compra, as contas do cotidiano, o impacto sobre o meio ambiente;

• Planejamento: o orçamento individual e o familiar, o ato de poupar e de investir em situações de crise e de prosperidade.

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias