Use e abuse dos blogs

Eles são uma boa ferramenta para conectar a garotada aos conteúdos

POR:
Fernanda Salla

Diante de tantos mecanismos digitais - como games, sites, redes sociais, aplicativos e softwares diversos - e da pressão cada vez maior para que eles sejam incorporados ao processo de ensino, é comum os docentes se sentirem perdidos. Afinal, muitos deles não vivenciaram essa realidade durante sua trajetória e, nos cursos de graduação, as chamadas tecnologias de informação e comunicação (TIC) ainda são pouco abordadas. "Boa parte do que os professores sabem sobre o ensino, sobre os papéis do professor e sobre como ensinar provém de sua própria história de vida e, sobretudo, de sua história de vida escolar", afirma o pedagogo canadense Maurice Tardif no artigo Saberes Profissionais dos Professores e Conhecimentos Universitários.

Então, por onde começar? Como é simples de usar, o blog se tornou uma das apostas digitais dos educadores. "Ele é gratuito e autoinstrucional, ou seja, qualquer um consegue criar e manter facilmente. Então, é natural que ele seja uma das TIC mais utilizadas por docentes que querem incorporar a tecnologia a sua prática", diz Márcia Padilha, consultora nessa área.

O blog é um espaço para registros - em forma de textos, fotos, vídeos, links, ilustrações, animações e áudios - em que é possível interagir com os leitores por meio dos comentários. Os posts (tudo que é publicado) entram em ordem cronológica (do mais recente ao mais antigo) e podem ser categorizados por assunto.

A potencialidade desse recurso para a Educação é imensa (conheça dois exemplos de professores que conseguiram tirar o melhor dele na próxima página). Os espanhóis César Coll e Carles Monereo afirmam, no livro Psicologia da Educação Virtual (366 págs., Ed. Penso, tel. 0800-703-3444, 80 reais), que, com a disponibilidade de acesso a recursos, como softwares e conteúdos diversos, a web deixou de ser apenas um lugar de busca de informações para se tornar um espaço em que se podem relacionar dados e pessoas a favor de uma aprendizagem mais significativa. Em diversas redes, as escolas mantêm um blog institucional para compartilhar informações com as famílias dos estudantes. Entre os professores, a divulgação de atividades em sala de aula por essa plataforma é cada vez mais comum.

TIC bem planejada e bem gerenciada

Para tirar proveito do blog, é preciso entender suas especificidades, ter sempre em mente os objetivos de aprendizado e refletir sobre como a página pode ajudar a turma a alcançá-los. "O primeiro passo é saber o que se quer ensinar. Em seguida, pensar na estratégia didática adequada para isso e só depois no melhor recurso para colocá-la em prática", diz Luciana Allan, diretora técnica do Instituto Crescer. Além de planejar, o educador precisa testar suas propostas, fazendo simulações, antes de desenvolver a atividade em sala. Assim, evita perder um tempo precioso de aula na exploração da ferramenta.

É importante cuidar para que a plataforma seja aproveitada em todas as suas possibilidades, e não apenas como depósito de fotos ou para atividades desconectadas das finalidades pedagógicas. "O blog deve ser um espaço complementar de aprendizagem, construído e mantido de forma colaborativa por alunos e professores", ressalta Sérgio Ferreira do Amaral, do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A consultora Márcia acrescenta que, ao limitar a um uso superficial do recurso, se perde a oportunidade de proporcionar uma vivência mais sofisticada e complexa aos estudantes (leia sobre cuidados no uso da ferramenta no quadro abaixo).

Uma das possibilidades de uso desse recurso é como um portfólio online das produções da garotada. "Assim, professores, familiares e os próprios estudantes podem acompanhar a evolução do aprendizado", afirma Rafael Parente, assessor do movimento Todos pela Educação. Proporcionar essa comunicação com os pais ou responsáveis compartilhando o processo de ensino faz com que eles consigam entender melhor as propostas pedagógicas da escola e possam se tornar parceiros no desenvolvimento da turma. "É importante o docente problematizar o fato de os conteúdos serem públicos e negociar com os alunos o que querem que seja publicado e de que maneira. Afinal, eles são os autores", diz Márcia.

O portfólio pode estar ligado ao blog oficial da instituição, em que há outras informações de interesse da comunidade escolar, como calendário, avisos relevantes e horários de atendimento. Outro papel é o de ser uma fonte de orientação para pesquisas, um espaço em que os educadores compartilham links de sites confiáveis, textos e outros materiais que estejam relacionados ao assunto trabalhado em aula. Ele ainda pode ser utilizado como parte de uma sequência ou de um projeto didático e servir para registrar as etapas, os avanços e as reflexões envolvidas nas atividades realizadas. Nesse caso, o professor regular da turma pode desenvolver a proposta ou fazê-la em conjunto com o docente do laboratório de informática se houver algum. Gostou de alguma das ideias? Então, mergulhe no ciberespaço e o coloque a favor das necessidades de sua turma.

Cuidados necessários

  • Sempre registre a autoria dos textos publicados no blog, sejam eles seus, sejam dos alunos ou extraídos de outras fontes.
  • Assegure-se de que os estudantes não sejam expostos negativamente por imagens ou comentários postados na página.
  • Não seja o único a alimentar o blog. Divida essa tarefa e as demais decisões ligadas à página com a classe.
  • Ao compartilhar conteúdos, verifique se são de fontes de informação confiáveis.
  • Se o post for escrito por você, prime pela ortografia e certifique-se de que não há erros conceituais. Se for escrito pela turma, você pode optar por manter a escrita original.
  • Não divulgue dados nem opiniões pessoais. Esse espaço é profissional.
  • Não publique conteúdos que são inapropriados para crianças.
  • Cuide para que o layout não seja poluído ou dificulte a navegação.
  • Mantenha a página sempre atualizada.

Parte de um projeto didático

Use e abuse dos blogs. Reprodução

A rotina de uma estação de rádio foi levada à EMEB Estudante Flamínio Araújo de Castro Rangel, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. As professoras Lidiane Toledo, do 2º ano, e Naíra Oliveira, responsável pelo laboratório de informática, transformaram os alunos em produtores de uma radionovela sobre música popular brasileira (MPB), que foi ao ar no blog A Rádio Flamínio.

A página foi criada em 2012 por Naíra, junto com alunos do 4º e do 5º anos que atuam como monitores do laboratório no contraturno, e está vinculada ao blog da escola. Sabendo da iniciativa, Lidiane procurou a colega para inserir a ferramenta em seu projeto didático sobre MPB. "Faço um planejamento conjunto com os outros professores. Eles trazem os objetivos do trimestre e eu dou algumas ideias de como incluir as tecnologias", conta Naíra.

Agora, qualquer pessoa com acesso à internet pode escutar o programa Senta Que Lá Vem História. Por saber que há ouvintes reais, as crianças se envolveram com a proposta e se empenharam para garantir a qualidade do que é postado. Com isso, a iniciativa propiciou o desenvolvimento das linguagens oral e escrita. "Também há a valorização do protagonismo dos estudantes, que tomam decisões sobre o que e como publicar", pontua Adriana Pettengill, gerente de programas educacionais da Microsoft Brasil.

Para chegar a esse resultado, a garotada ouviu narrações em rádio, pesquisou o gênero musical no notebook do programa Um Computador por Aluno (UCA) e elaborou, escreveu e gravou os programas em classe. "A cada capítulo, retomávamos o anterior para que o ouvinte conseguisse acompanhar a narrativa", diz Lidiane. A aula semanal na sala de informática foi reservada para edição e publicação do material, com softwares gratuitos, como o PodProducer. "Os docentes tendem a usar o período no laboratório para a realização de pesquisas. Porém, muitas crianças já estão familiarizadas com esse procedimento e podem fazer isso em outro momento", diz Naíra.

Esforço contínuo e interdisciplinar

Use e abuse dos blogs. Reprodução

Muitas vezes, um blog morre com o fim da atividade que o gerou. "Fazer uma página só para uma tarefa específica, e não como ferramenta contínua de comunicação, gera um lixo eletrônico enorme", afirma Luciana Allan, do Instituto Crescer. Mas, ao criar uma iniciativa perene, é preciso planejar o uso da plataforma, levando em conta a evolução dos conhecimentos construídos ao longo das etapas. Esse é um dos diferenciais do blog Desbravando o Peri, da EMEF Santos Dumont, em Campo Bom, a 50 quilômetros de Porto Alegre.

O blog surgiu em 2012 como parte do planejamento anual. "Percebemos que havia iniciativas interessantes, mas que eram trabalhadas de forma isolada. Resolvemos criar um projeto que envolvesse diversas disciplinas, usando a tecnologia, e que tivesse significado para os alunos do 6º ano", conta Vanessa Cristina Müller, professora de Informática da instituição. Elegeram como tema o arroio Peri, que passa nas imediações da escola.

"É uma construção coletiva de conhecimento", diz Roseane Lunita Hofstatter, docente de Ciências. Durante as aulas da disciplina, os alunos visitam o riacho para ali desempenhar diversas tarefas. Em uma delas, fotografam e identificam plantas e animais da mata ciliar. Depois, pesquisam na internet informações de cada um dos seres vivos encontrados e criam textos sobre eles. Em outros momentos, verificam os pluviômetros espalhados pelas margens e, quando necessário, emitem alertas de enchente para a população cadastrada. Todas as experiências são divulgadas no blog por meio de vídeos, fotos e textos. "Ele extrapolou os limites da sala de aula e se tornou uma fonte útil de informações para toda a comunidade", afirma Adriana Pettengill, da Microsoft Brasil.

Os levantamentos sobre os animais locais foram tabulados nas aulas de Matemática, em que os alunos também fizeram os cálculos para construir uma maquete do arroio. Já nos horários de Educação Física, aconteceram as preparações para as caminhadas. "O projeto vai acompanhar os adolescentes até o 9º ano. Para isso, a cada nova etapa, vamos fazer o planejamento dos conteúdos que podem ser trabalhados e de que maneira", diz Vanessa.

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