Tem clima para aprender?

Relacionar-se bem com os colegas, ser respeitado pelo docente, se sentir integrado e seguro na escola e achar que as aulas são úteis para a vida leva o aluno a ter um bom desemepenho

POR:
Bianca Oliveira, NOVA ESCOLA, Fernanda Salla
Como sua escola pode conquistar um ambiente respeitoso para garantir mais aprendizagem. Foto: Dercilio. Ilustração 45JJ

 

Imagine um ambiente caótico, em que há conflitos diários entre os alunos. Indisciplinados, eles não cumprem regras nem participam da aula e nunca mostram interesse ou disposição de cooperar. O desrespeito e a violência imperam na escola. Você, melhor do que ninguém, sabe o impacto de um clima como esse no seu trabalho e no processo de ensino e aprendizagem.

Amplamente discutido no âmbito internacional, o tema não está na agenda pública brasileira. Faltam diagnósticos que identifiquem as causas do problema e indiquem caminhos para solucioná-lo. O assunto também não faz parte do currículo de formação docente. "No Brasil, ainda há questões anteriores, como a carência estrutural e de metodologias capazes de dar às crianças uma posição de protagonistas no aprendizado", diz Cynthia Paes de Carvalho, do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). De fato, em países como os Estados Unidos e a Inglaterra, em que esses pontos estão bem resolvidos, as atenções se voltam a entender que outros elementos afetam o rendimento escolar, incluído aí o clima.

Quando o ambiente é harmônico, o esforço de toda a equipe pode se concentrar na melhoria das práticas em sala de aula, aumentando o aprendizado da turma. "Problemas de convivência às vezes mascaram deficiências de ensino. Quando essa variável é eliminada, fica mais fácil focar no aperfeiçoamento do trabalho pedagógico", diz Flávia Maria de Campos Vivaldi, da Universidade de Franca (Unifran).

Mas, afinal, o que constitui o ambiente escolar? "Pode-se considerar que o clima de uma escola corresponde a sua atmosfera, valores, atitudes e sentimentos partilhados pelos atores, assim como às relações sociais e com o conhecimento", afirma o psicólogo suíço Marc Thiébaud, professor da Universidade de Fribourg, na Suíça, no artigo Climat Scolaire (Clima escolar).

A sensação causada pelo ambiente, de bem ou de mal-estar, interfere nas ações de professores e alunos e, portanto, no aprendizado. "Apesar da influência familiar e social, pesquisas mostram que uma variação significativa no desempenho estudantil é explicada por questões internas da escola", diz Haroldo Torres, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Os pesquisadores Michel Janosz, Patricia Georges e Sophie Parent, da Universidade de Montreal, no Canadá, no artigo L?environnement Socioéducatif à l?École Secondaire: Um Modèle Thèorique pour Guider l?Évaluation du Milieu (O ambiente socieducativo na escola secundária: um modelo teórico para guiar a avaliação do meio), abordam o clima sob cinco dimensões inter-relacionadas: educacional (de aprendizagem), relacional, de justiça, de segurança e de pertencimento. Em cada uma interferem tanto aspectos de infraestrutura e organização escolar quanto os relacionados à qualidade das interações estabelecidas dentro da instituição.

Abandonar a ideia determinista de que a escola apenas reproduz as desigualdades sociais, ou seja, não é capaz de ajudar os alunos em situação de vulnerabilidade a avançar, é o ponto-chave do clima de aprendizagem. Já entender que a forma de professores e estudantes se relacionar mudou nas últimas décadas e saber lidar com essa nova conjuntura faz parte do clima relacional. O autoritarismo dos tempos da ditadura não funciona em um ambiente democrático, e a autoridade docente deixou de ser imposta. Hoje, ela precisa ser legitimada pelos alunos.

Para que isso ocorra, crianças e jovens precisam ver no professor alguém justo, que não os trata de forma padronizada, mas enxerga suas diferenças e as valoriza. Na escola atual, também não pode haver espaço para que o medo impeça os estudantes de ter uma boa experiência educacional. É hora de levar a sério os casos de bullying e de insultos entre os estudantes - ainda vistos como menos graves pelos professores do que aqueles em que as vítimas são os adultos - para que o clima de segurança se instaure.

Por fim, substituir as proibições e punições pelo ensino do respeito ajuda os alunos a aproveitar o que a escola tem a oferecer e a usá-la da melhor forma - o que se refere ao clima de pertencimento. "Nas instituições mais participativas, que incentivam o protagonismo dos estudantes, eles se sentem integrados, e não como hóspedes. Com isso, os problemas de convivência são menores do que naquelas com regras muito rígidas", diz José Maria Avilés Martinéz, pesquisador especialista em convivência da Universidade de Valladolid, na Espanha.

Reconhecer a existência desses elementos no processo educativo é o primeiro passo para mudar o cenário negativo e torná-lo propício ao aprendizado. Apesar de o clima ser algo intangível, os reflexos na Educação são reais. A observação e os levantamentos internos para avaliá-lo são importantes para identificar o que vai bem e o que precisa ser mudado, assim como incluir no projeto político-pedagógico (PPP) os princípios que regem a convivência. É necessário também que você modifique a sua postura diante das adversidades. Certamente, existem entraves administrativos, como salas superlotadas e falta de material, que estão fora da alçada docente. Porém, esperar por condições ideais para agir só prolonga o seu sofrimento em sala.

A tarefa não é simples, mas quando o professor assume a responsabilidade por iniciar a transformação, o trabalho tende a ficar menos penoso. "Se os alunos são parte do problema, devem ser incluídos na solução. Assim, o docente ganha aliados para manter o ambiente favorável", diz Luciene Regina Paulino Tognetta, vice-líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Nas páginas seguintes, você vai saber mais sobre o que envolve as cinco facetas do clima. Além de conhecer episódios reais que exemplificam as causas do mal-estar na escola, vai poder refletir sobre como está o ambiente onde leciona, com base em questões diagnósticas voltadas a docentes e alunos, e conhecer iniciativas que ajudam a resolver esse problema.

Aprendizagem
Meninos do 1º ano foram vistos escondidos no pátio burlando a proibição de levar figurinhas para a escola. Um dizia ao outro: "Você tem a 395? Eu troco pela 454". Enquanto isso, a professora deles tinha como meta ensinar a turma a contar até 50.

Como sua escola pode conquistar um ambiente respeitoso para garantir mais aprendizagem. Foto: Dercilio. Ilustração 45JJ

Para que os alunos tenham sucesso, é essencial você acreditar de fato que eles podem aprender. Em contrapartida, eles precisam sentir que os conteúdos são significativos e que a Educação faz diferença na vida deles. "Essa dimensão do clima se traduz no valor atribuído à Educação, ou seja, na percepção da escola como um lugar de real crescimento", diz Ana Maria Falcão de Aragão, do Gepem.

No caso sobre as figurinhas, citado acima, a meta de aprendizado traçada, além de subestimar a capacidade dos estudantes, não levou em conta o que já sabiam. Assim, as propostas de ensino não se tornam desafiadoras para eles. "Uma criança que quer ir além, mas é impedida pelo trabalho do professor, não vê na escola um lugar que a fará avançar", afirma Telma Vinha, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Unicamp.

A relação entre expectativas docentes e desempenho de crianças e adolescentes é estudada há décadas. Nos anos 1960, os psicólogos americanos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson selecionaram aleatoriamente 20% das crianças de 18 turmas e disseram aos professores que elas tinham grande potencial intelectual. Oito meses depois, esses alunos apresentaram ganhos cognitivos maiores que os dos colegas. "Quando a premissa é a de que o estudante é capaz, os esforços docentes se voltam a conquistar esses progressos", diz Cynthia de Carvalho.

De acordo com respostas dadas ao questionário da Prova Brasil 2011, 46% dos professores atribuem os problemas de aprendizado à falta de aptidão e habilidades dos próprios alunos. Quando esperam pouco dos estudantes, os educadores acabam deixando isso evidente nas atitudes que têm em sala de aula, que vão desde evitar propor atividades mais complexas até chamá-los de incapazes. "Esse discurso acaba sendo assumido pelas crianças, que passam a acreditar que não têm jeito para o estudo", afirma Adriana de Melo Ramos, do Gepem.

Justificar as dificuldades da garotada como decorrentes de fatores externos ao processo de ensino só piora o quadro. É preciso focar no que pode ser feito em aula para superá-las e usar ao máximo o que os alunos levam para a sala: saberes prévios, curiosidades e interesses. Caso os problemas persistam, é necessário mudar as estratégias e intervenções para ajudá-los a avançar.

Foi o que fez Elaine Cristina Carvalho Delgado Silva, professora de Matemática do 6º ao 9º ano da EM Wilson Hedy Molinari, em Poços de Caldas, a 468 quilômetros de Belo Horizonte. Durante uma das assembleias de classe, que ocorrem quinzenalmente na escola, os alunos pediram que a prova da disciplina fosse adiada, pois não tinham entendido o conteúdo. A docente argumentou que manter a avaliação seria importante para identificar as dificuldades. "Disse que se ninguém aprendeu era porque minha forma de ensinar não foi a melhor, e me comprometi a retomar o conteúdo, revendo minha prática", diz Elaine. Ela perguntou em que a turma achava que poderia melhorar e usou novas estratégias em sala. "Na avaliação seguinte, as notas aumentaram", completa a docente.

Para refletir
Responda
  • Proponho atividades desafiadoras para todos?
  • Desisto de alguns alunos?
Pergunte ao aluno
  • Você sente que os docentes se interessam por seu aprendizado?
  • O que você aprende na escola é importante para a sua vida?

Relacionamento
Uma menina gorda, vestida de roxo, conversava no fundo da sala. Para chamar a atenção da turma e dar início à aula, o professor olhou para ela e falou em voz alta: "Você aí, hematoma gigante. Dá para parar de conversar?". Todos caíram na risada e, meses depois, os alunos ainda a chamavam pelo apelido.

Como sua escola pode conquistar um ambiente respeitoso para garantir mais aprendizagem. Foto: Dercilio. Ilustração 45JJ

Situações como a descrita acima são comuns, mas grande parte dos professores não se dá conta da gravidade delas. "Muitas vezes, o educador que expõe e humilha os estudantes vê a si mesmo como alguém divertido, querido por todos. Porém, o que acontece é o contrário", diz Adriana Ramos. Mesmo que inconscientes, essas atitudes podem minar a relação com a turma e entre os alunos, como ocorreu na escola desse caso. O fato gerou bullying contra a garota, que sofreu por muito tempo.

Não é preciso haver agressão direta para abalar o ambiente em sala. Pequenos descasos diários, como não saber o nome dos educandos, ignorar seus saberes e vivências, não cumprimentá-los e ser omisso ao que aflige a sala, interferem no rendimento escolar de crianças e jovens. Isso porque as ações dos professores os afetam, impulsionando ou dificultando o aprendizado. O comportamento dos estudantes também é impactado, pois eles acabam reagindo à indiferença e ao desrespeito dessa mesma forma.

Um problema comum envolve o desempenho dos alunos nas provas. Os educadores tendem a tratar aqueles que apresentam notas insatisfatórias de modo ainda mais negligente e impositivo, conforme Adriana constatou na pesquisa As Relações Interpessoais em Classes Difíceis e Não Difíceis do Ensino Fundamental II: Um Olhar Construtivista. "Eles associam o mau resultado à indisciplina. Então, passam a usar exercícios de cópia e repetição para fazer com que se comportem." Com isso, o quadro de desordem é agravado e o ciclo de fracasso se perpetua. Medidas punitivas ou repressivas não revertem o problema e tornam a relação da turma com o conhecimento chata e desmotivadora.

O professor não é o único agente envolvido no clima relacional. Todas as interações entre os membros de uma escola e dela com o seu entorno fazem parte dele. Os docentes, no entanto, têm um papel central nessa questão, pois é na aula que os aprendizados se concretizam.

A iniciativa coordenada por John Elliott, professor da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, propõe uma maneira colaborativa de reflexão e atuação pedagógica. O método Lesson Study (Estudo da aula) prevê que os docentes formem equipes (de três a oito membros) para estudar, elaborar, avaliar e aprimorar estratégias e intervenções em sala. "O educador é um pesquisador e trabalha em grupo", conta Ana Aragão. A equipe planeja a aula em conjunto e um dos professores a coloca em prática em sua própria classe. Os demais observam presencialmente ou em vídeo gravado. Depois, eles fazem sugestões e críticas sobre o que viram. O segundo educador, com base no que foi redefinido, dá a mesma aula para sua turma. O processo se repete até que o grupo todo tenha sido analisado.

O mesmo olhar crítico pode se voltar à forma de se relacionar com a garotada, para que identifiquem o impacto de suas ações e mudem a postura, tomando para si a solução dos problemas. Ainda que sua escola tenha só um docente por ano de ensino, você pode estabelecer parcerias com outros colegas para que assistam às aulas uns dos outros e troquem impressões e sugestões.

Para refletir
Responda
  • Há confiança e respeito mútuo entre professores e estudantes?
  • Minha comunicação com os alunos é respeitosa?
Pergunte ao aluno
  • Os professores se interessam pelo bem-estar de vocês? Quantos deles?
  • Os professores ofendem ou humilham os estudantes?

Justiça 
A escola determinou que quem tivesse advertência não poderia ir a uma excursão. Uma aluna aplicada se espantou ao ver seu nome entre os excluídos e perguntou o motivo. O professor respondeu: "Não lembro. Deve ter sido aquele dia em que você esqueceu o material". Indignada, ela esbravejou: "Só por isso? Não é justo, não adianta tentar ser boa aluna!".

Como sua escola pode conquistar um ambiente respeitoso para garantir mais aprendizagem. Foto: Dercilio. Ilustração 45JJ

Quando crianças e jovens reconhecem no docente alguém que tem atitudes e reações acertadas em relação a eles, passam a confiar em seu julgamento e a respeitá-lo. "A percepção de que os adultos são justos e equitativos legitima a autoridade deles tanto no plano educativo quanto no disciplinar", afirmam os pesquisadores Janosz, Patricia e Sophie em seu artigo sobre o ambiente escolar.

As regras da escola e as consequências da violação delas são, com frequência, desencadeadores do sentimento de injustiça nos alunos, como na situação descrita no quadro à esquerda. "Isso ocorre porque ser justo, nesse caso, é diferente de não abrir exceção. É preciso olhar para cada indivíduo e analisar os motivos e o contexto envolvidos", diz Ana Aragão. As sanções aplicadas em cada caso devem auxiliar o estudante a refletir sobre o problema causado por sua ação, contribuindo para a mudança de comportamento.

Ter normas é importante para organizar a dinâmica escolar, mas, para que sejam efetivas, os alunos precisam entender a razão de existirem, participar da elaboração daquelas que os envolvem e da alteração delas, caso não façam mais sentido. "Pode ser que a sugestão do aluno não seja implementada, mas é essencial ele perceber que ela foi considerada", diz Maria Isabel da Silva Leme, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

As regras da EMEF Doutor Antônio Bemfica Filho, em Novo Hamburgo, a 42 quilômetros de Porto Alegre, são discutidas democraticamente pelos estudantes em parceria com professores, gestores e familiares em assembleias bimestrais. A diretora Marisa Isabela Gröff diz que o fato de elas não serem impostas faz toda a diferença no clima escolar. "Os estudantes estão cada vez mais conscientes de seus direitos e deveres."

O papel dos professores nos encontros é o de auxiliar as crianças a elaborar suas ideias e pensar na viabilidade delas. Para Franciele Rosa dos Santos da Silva, educadora do 1º ano, é essencial ajudar os pequenos a avançar no nível de discussão e, consequentemente, no exercício da democracia. "Nós fazemos uma pré-assembleia em sala com os temas que serão discutidos. Assim, eles conseguem ter participação mais efetiva nos encontros. Ao cooperar com a definição das normas, as respeitam com mais facilidade e cobram que elas sejam cumpridas pelos colegas."

Para refletir
Responda
  • As sanções por descumprir normas ajudam o aluno a mudar o comportamento?
  • Os problemas de disciplina são discutidos com os estudantes?
Pergunte ao aluno
  • Os docentes tratam você de forma justa? Quando?
  • As regras são justas e valem para todos?

Segurança
Uma menina cortou o cabelo bem curto porque estava com piolhos. Envergonhada, foi à escola de capuz. No recreio, os colegas tentaram arrancá-lo de sua cabeça, riram dela e a chamaram de "hominho". Professores e gestores não fizeram nada. Ela começou a passar o intervalo sentada na porta da sala.

Como sua escola pode conquistar um ambiente respeitoso para garantir mais aprendizagem. Foto: Dercilio. Ilustração 45JJ

Estudantes de escolas livres de agressão física ou verbal e crimes têm desempenho melhor que os daquelas em que há violência. "A cada aumento em 1 unidade no índice de segurança, o resultado dos alunos de 5º e 9º anos na Prova Brasil 2009 subiu cerca de 1 ponto", diz Raquel Rangel de Meireles Guimarães, doutoranda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das autoras de pesquisa sobre o tema.

Zelar pela segurança é também investir na qualidade das relações. "Às vezes, o que para o professor parece brincadeira entre amigos é um ataque para quem vive a situação", diz Luciene Tognetta. O educador não pode negligenciar agressões como a relatada acima, pois elas tendem a gerar violências maiores. Além disso, em um ambiente respeitoso, os alunos aprendem mais, pois se sentem tranquilos para participar da aula, sem o risco de serem ridicularizados.

A boa relação entre os alunos é responsável por uma performance 36% maior na nota média da prova de Linguagem e 46% na de Matemática no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), de acordo com o livro A Escola e a Desigualdade, do sociólogo chileno Juan Casassus (201 págs., Ed. Liber Livro, tel. 61/3965-9667, 35 reais). O impacto é mais significativo que a soma dos mais de 30 outros fatores analisados, incluindo formação docente e tempo diário que os pais ficam com os filhos.

Intervir num conflito entre estudantes, porém, não é fazê-los parar de forma impositiva ou impedir que ocorra. O professor deve ser um mediador. "É importante se pautar em estratégias que auxiliam crianças e jovens a regular seus impulsos, expressar o que sentem com palavras, refletir sobre as consequências de suas ações e propor soluções", diz Telma Vinha.

Lauro Roberto Ferreira Oliveira, professor de História do 9º ano do Colégio Raio de Sol, em Seabra, a 456 quilômetros de Salvador, vê nas desavenças uma oportunidade de aprendizado. "Chamo as duas partes e peço que descrevam o que ocorreu e como se sentem. Não é porque o aluno fez algo errado que ele é ruim. Tento entender a causa da conduta, sem tomar partido", diz. "Boa parte dos conflitos se agrava porque crianças e jovens não sabem resolvê-los de modo justo para todos", afirma Maria Isabel.

Oliveira pergunta, depois, como os envolvidos sugerem solucionar a questão e, ao fazer isso, ganha aliados. Os alunos desenvolvem a autorregulação, se apropriando das estratégias de resolução usadas por ele. Passam a resolver seus atritos com autonomia, por meio do diálogo, e a ajudar colegas que estão na mesma situação.

Para refletir
Responda
  • Nos conflitos entre alunos, favoreço a solução e a restauração das relações?
  • Mantenho a ordem em classe?
Pergunte ao aluno
  • Seus colegas o insultam, ofendem ou ridicularizam?
  • Caso seja insultado por colegas, você pode contar com os professores?

Pertencimento 
Uma classe é usada de manhã por uma turma dos anos iniciais do Ensino Fundamental e à tarde por outra, dos finais. Um dia, os mais velhos rasgaram cartazes dos menores, que estavam na parede. Para que isso não ocorresse mais, a escola proibiu que a produção dos alunos fosse exibida nas salas.

Gestores e docentes almejam uma escola sem depredações, vandalismos ou roubos praticados por alunos. Porém, o caminho para essa conquista não é criar mecanismos que impeçam crianças e jovens de interagir com o espaço, como aconteceu no caso citado acima. Pelo contrário, a solução está em envolvê-los ainda mais com o lugar, para que se sintam parte dele. "O sentimento de pertencimento promove o respeito pela instituição, pelas pessoas que ali interagem e facilita a adesão às normas estabelecidas", como dizem Janosz, Patricia e Sophie no artigo sobre o clima escolar.

Quando os pequenos e os adolescentes percebem que a escola confia neles e ouve suas opiniões, se baseando nelas para realizar mudanças no planejamento e tomar decisões, criam com o espaço um vínculo afetivo, que vai nortear a forma como se relacionam com ele. Passam, então, a se considerar corresponsáveis por sua conservação. A organização também interfere nessa sensação. "Se as paredes da escola são vazias - sem produções das crianças -, as salas fechadas com cadeados e os aparelhos eletrônicos trancados em armários, o estudante não se sente representado nem bem-vindo", diz Telma Vinha.

Os alunos da EMEF Ernani Silva Bruno, na capital paulista, têm vagas fixas no Conselho Escolar, junto a pais, professores e funcionários. "Nos encontros mensais, tratamos de tudo, desde a reivindicação dos estudantes pela reforma da quadra até como investir a verba da escola", conta o presidente, Jefferson Rodrigues Gomes, responsável pela pauta e por iniciar as deliberações. Ele está em seu segundo mandato e foi eleito pelos colegas de colegiado para o cargo. Em tempo: Jefferson tem 14 anos e está no 9º ano.

A posição alcançada pelo jovem, incentivada por professores e pela equipe gestora, mostra que o envolvimento dos alunos é valorizado, mas essa abertura não deve estar restrita ao Conselho Escolar. Na escola há também estudantes que são assistentes nas aulas, e qualquer um tem acesso livre a todos os ambientes, materiais e equipamentos. "É importante que a turma assuma projetos e tenha autonomia para usar os recursos disponíveis. Todos cuidam da instituição porque sabem que é deles", conta o diretor Antônio Francisco de Paula Filho.

Permitir que os educandos atuem nas diversas instâncias da organização escolar, façam escolhas e tomem decisões traz benefícios também ao trabalho docente. "Aqui na nossa escola, os estudantes são parceiros para garantir a qualidade do ensino", diz Cilemar Alves de Carvalho, professora de História do 5º ano.

Para refletir
Responda
  • Incentivo os alunos a participar de atividades na escola além das aulas?
  • Sinto que estou tratando alguns alunos de forma impessoal?
Pergunte ao aluno
  • Você sente que faz parte de um grupo?
  • Você cuida dos materiais e das instalações da escola?
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