Telma Vinha e Yves de La Taille discutem Educação moral nos dias de hoje

Eles refletem sobre valores, o papel da família e o da escola e a falta de formação dos educadores para lidar com a questão

POR:
NOVA ESCOLA, Maggi Krause
Telma Vinha e Yves de La Taille discutem Educação moral nos dias de hoje. Foto: Manuela Novais
Telma Vinha (à esq.) Pedagoga, docente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), participa do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) e é colunista de NOVA ESCOLA

Yves de La Taille Professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), realiza pesquisas na área de Psicologia moral e investiga as questões da moral e da ética em contexto educacional

Uma relação de respeito e admiração mútuos pelo trabalho e pelas pesquisas sobre questões que impactam no ambiente escolar. Assim se construiu uma amizade entre os professores Yves de La Taille e Telma Vinha, que estudam um tema comum, a moral. La Taille, referência na área, recebeu o prêmio Jabuti em 2007 pelo livro Moral e Ética, Dimensões Educacionais e Afetivas (192 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-7033-444, 48 reais) e aborda o assunto do ponto de vista da Psicologia. Telma pesquisa relações interpessoais e desenvolvimento moral, comportamento e convivência na escola, temas de sua coluna em NOVA ESCOLA. A conversa fluiu com naturalidade entre os dois, pois têm opiniões complementares sobre dilemas do cotidiano dos educadores como indisciplina, administração de conflitos e valores dos jovens. Assista aos vídeos editados deste diálogo.

TELMA VINHA Professores se queixam do aumento da violência, de formas de indisciplina e incivilidades. Como você analisa esse tema?

YVES DE LA TAILLE Essas incivilidades têm aumentado como um todo, entre os adultos, e não apenas na escola. Ela é mais um refexo do que está ocorrendo do que um lugar que, do nada, criaria confitos inexistentes no resto da sociedade. É mais um refexo do que singularidade.

TELMA Pesquisas mostram que a violência dura, regida pelo Código Penal - ameaça, extorsão, uso de arma, furto, agressão física e abuso sexual, por exemplo -, não tem aumentado na escola. Não passa de 2% a 5% nos últimos cinco anos. Mas professores e pais têm a percepção do aumento da violência, fcam inseguros, e isso motiva, até na política pública, o uso de flmadoras, a presença da polícia na escola e procedimentos de contenção. O que tem aumentado são as incivilidades, as microviolências e as situações de desrespeito cotidiano, que, dependendo da intensidade e da regularidade, transformam o ambiente em caos. E isso gera nos profssionais da Educação um desgaste, porque o aluno ignora, manda torpedo, conversa com o outro ou fala palavrão. As incivilidades não ferem o Código Penal, mas ferem o esperado de uma conduta socialmente desejável. Os estudos em escolas têm mostrado que essas incivilidades, somadas às indisciplinas - considero indisciplina a ruptura de um contrato de aprendizagem -, fazem com que os professores se cansem. Entra aí a questão da obediência às regras e a autoridade. Por exemplo, um discurso comum entre educadores é: "No meu tempo, bastava um olhar do meu pai ou do professor para a gente saber o que fazer. Hoje os alunos não têm mais valores". A dúvida: a relação entre os eles e a escola mudou? Os valores de hoje são diferentes?

LA TAILLE A frase "Os jovens não têm mais valores" remonta pelo menos ao século 12 ou 13. Toda geração acha que a seguinte não os tem. Mas do ponto de vista teórico, o que é valor? É investimento afetivo. Então, as crianças, os jovens e os mais velhos têm. Os jovens possuem hoje os mesmos valores morais da sociedade. Eles continuam sendo razoavelmente os mesmos, se pensarmos na justiça, na generosidade e no respeito, mas o que talvez aconteça é que outros, como a celebridade, o ser vencedor, o aparecer e mostrar- -se o tempo todo são mais fortes. Muitos jovens, hoje, estão no Twitter, no Facebook, postam fotos, falam de si mesmos, dão um espetáculo, mas quem inventou isso? Não foram eles. Os adultos inventaram as redes e eles são os usuários. Portanto, temos de pensar em corresponsabilidade.

TELMA Eu e a pesquisadora Luciene Tognetta perguntamos a jovens de 15 a 17 anos sobre o que os deixava indignados. Quase 70% das respostas envolviam alguns valores como respeito e justiça, mas eram muito ligadas a relações próximas, ou seja: "Eu fco indignado quando alguém mexe com a minha família, comigo ou com alguém próximo". É como se a moral estivesse mais restrita ao âmbito privado. O jovem não se afeta quando o preconceito é com qualquer pessoa.

LA TAILLE Em uma pesquisa que acompanhei sobre valores atribuídos à instituição escola, havia a pergunta: "O nosso relacionamento com os outros é mais pautado na cooperação ou na agressão?". A maioria dos estudantes respondeu agressão. "Quando há confitos, como eles são tratados: pela agressão, pela cooperação ou pelo diálogo?" As palavras que vinham eram agressão, confito. Os jovens estão na sociedade do medo. E eu pergunto: não somos nós que estamos gerindo essa sociedade? Com câmeras, somos vigiados o tempo todo. O controle gera medo e infantilização.

TELMA Vemos não só o controle constante por meio de flmadoras, mas pela vigilância sistemática do professor. Os jovens recebem inúmeras regras, mas não tomam decisões para se regular. Por exemplo, quando furtam algo na classe, a intervenção é sempre com a vítima. Aí temos armários trancados, a proibição de levar material estranho à aula, mas não se discute com o grupo como aquela ação afetou as regras e a confança que temos de ter um no outro.

LA TAILLE A escola age como bombeiro. Quando há fogo, ela se apresenta. Se ocorre um roubo, ela fala de propriedade privada. Se há violência, fala da paz. No entanto, a moralidade é como uma vacina, serve para antecipar. Se existe o bullying, é porque faltou a escola antecipar claramente a situação que poderia acontecer.

TELMA A vacina tem o objetivo de formar identidades éticas, em que os valores morais sejam mais fortes. Nesse sentido, pergunto a você: como se desenvolvem os valores morais?

LA TAILLE É complexo. Há muitas variáveis em jogo. Eu destacaria duas. Uma é a moralidade, que passa pela razão, pelo juízo, pelo intelecto. É essencial colocar o tema da moral em pauta de discussão desde os anos iniciais, não apenas em um determinado ano, período ou aula. Vale pensar a moral como objeto do conhecimento e de refexão. A segunda são os valores. No entanto, a infuência da escola sobre eles como investimento afetivo é menor porque há inúmeras outras, como a família, os amigos, as mídias, a religião. O que a escola não pode fazer é referendar valores inferiores a ela e colocá-los na sala de aula, sem crítica. Tem escola que prefere, por exemplo, expor troféus e esquece de mostrar o conhecimento, destacando os trabalhos do alunos.

TELMA Na Educação Infantil, a formação de identidades éticas tem início com base nas experiências que a criança vive, como ela interage. Ao mesmo tempo dizemos que é preciso pensar na moral, discutir a moral, viver a moral nas ações. Há a ideia do trabalho preventivo, mas mesmo conduzido dessa forma, confitos irão ocorrer, porque a escola é um espaço de relacionamento. Não existe garantia de que não vai ter bullying, mas há escolas mais preparadas para lidar com conflitos.

LA TAILLE Eu não diria que a escola tem de fazer um trabalho preventivo. A própria moral é preventiva. O que diz a moral: "Você não simpatiza com aquela pessoa, mas não pode desrespeitá-la". A moral vem justamente quando as reações são confituosas, para indicar regulação, princípios e regras. Nisso a escola tem de trabalhar em dois níveis, primeiro os princípios, não a regra, porque quando se fala em regimento, regra é burra, não me diz por quê. É necessário deixar muito claro para os pais e para os alunos que princípios são esses. O problema da moral, na Educação, é o silêncio da escola.

TELMA Em cursos de formação se diz que o trabalho com a Educação moral, com os valores, deve ocorrer na família, e muitas vezes a questão da convivência esbarra nessa concepção. Os professores dizem: "Se é responsabilidade da família, a gente está tapando buraco". A escola estaria consertando algo que cabe primeiro à família?

LA TAILLE Pobre família! Primeiro, nunca na história ela foi responsável pela instituição moral dos alunos. Antigamente, tinha um grande apoio da religião. Segundo, antes, a sociedade era menos democrática, mais homogênea, todo mundo pensava e se vestia mais ou menos da mesma forma, havia menos diversidade e as famílias se ajudavam mutuamente. Sim, a família tem um papel e deveria cumpri-lo melhor, mas isso em nada tira a responsabilidade da escola. A escola pública, na essência, é feita para formar cidadãos, está na Constituição. Não dá para formar cidadãos sem moral. Então, por que não seria o papel da escola formar moralmente?

TELMA Na prática, os papéis da escola e da família acabam sendo muito misturados. É comum os educadores pedirem para os pais resolverem os confitos, auxiliarem na disciplina, ajudarem na lição. Os bilhetes enviados para casa pedem ajuda, mas os pais lidam do jeito que sabem, dando dura, botando de castigo. Em pesquisas, vimos que 30% aplicam castigo físico. Quando entrevistamos os professores, eles dizem: "Mas isso não melhora nossa vida, não resolve o problema da criança". Fica um exercício de responsabilidade, que só culpabiliza mais. As instituições dialogam uma com a outra, mas elas têm uma natureza diferente e o fracasso da família não pode ser o fracasso da escola. Ao contrário, são essas crianças que mais precisam da escola. Percebemos que os pais de crianças difíceis nem iam mais à escola, porque só falavam mal do flho. Existe uma necessidade de acolhê-los e mudar esse paradigma.

LA TAILLE Em uma pesquisa a respeito da escola, fz as mesmas perguntas para um grupo de professores e de alunos: "O que você acha que a escola mais faz, formação moral ou formação profssional?". A maioria dos educadores respondeu formação moral e a maioria dos estudantes respondeu profssional. Há um problema se a maioria dos docentes acha que está formando moralmente e seus alunos não percebem isso. A maior parte das instituições de ensino afrma que forma cidadãos, mas quase nenhuma tem uma estratégia clara para tanto.

TELMA Fizemos um seminário na Unicamp discutindo experiências de vários países e vimos que a Espanha tem uma lei recente que exige da escola, além do projeto político-pedagógico (PPP), a elaboração de um projeto de convivência. Existem projetos e procedimentos que os profssionais de Educação estudam e, com base no diagnóstico da sua realidade, selecionam quais podem ajudar a melhorar a convivência. Um dos profssionais da escola fca responsável por coordenar o projeto de convivência, com estratégias muito claras. Seria, talvez, o professor mediador que temos nas escolas públicas do Estado de São Paulo. Uma pesquisa sobre as experiências bem- -sucedidas e moral, coordenada por Suzana Menin, revelou que no Brasil elas são iniciativas isoladas de um educador. São temporais, direcionadas apenas aos alunos e não à escola. Muitos desses projetos surgiram por causa de problemas de comportamento, de indisciplina. Quando mostramos que é possível ter resolução de confitos por meio de diálogo, com os alunos sendo protagonistas e mediadores, que há procedimentos para uma boa convivência, há muito mais eco na escola do que a questão da formação moral. Talvez a entrada na escola possa se dar pelo "remédio" a esses problemas. O que pensa sobre isso?

LA TAILLE Se uma escola alfabetiza bem, ótimo para os alunos. Se ensina bem Matemática e Ciências, ótimo para os alunos. Se uma escola trabalha bem a formação, ótimo para a escola, e não só para ela mas também para a comunidade como um todo. Esse é um trabalho conjunto, em que estudantes e professores poderão ser benefciados. O remédio é a melhor metáfora no momento, mas o resultado tem de ser a vacina. A ideia não é apelar para o controle, mas investir na formação para a cidadania. 

Este texto é resultado de edição de trechos do diálogo entre Telma Vinha e Yves de La Taille.

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