O que o novo currículo tem a ver com a BNCC?

Desde que a BNCC foi aprovada, as redes vêm reelaborando seus currículos locais. Agora, é hora de levar as mudanças para dentro das salas de aula

POR:
Dimítria Coutinho
Crédito: Getty Images

Sua escola já está trabalhando o novo currículo? 2020 é o prazo final para que todas as redes, públicas e privadas, de Educação Infantil e Ensino Fundamental o implementem. A atualização dos currículos é pautada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em dezembro de 2017. Mas, para entender o que muda no ensino a partir deste ano, é essencial diferenciar BNCC de currículo.

A Base é o documento que compila todos os conhecimentos essenciais que devem ser desenvolvidos com alunos, ano a ano, da Educação Básica. Já o currículo determina como esses conteúdos serão trabalhados, quais as estratégias metodológicas mais adequadas para o desenvolvimento do que é proposto pela BNCC de acordo com os princípios das redes e escolas. Além disso, o currículo é mais amplo do que a Base: nele também estão contemplados conteúdos relacionados com os contextos locais.

A BNCC determina o direito de aprendizagem dos alunos e esse objetivo deve ser alcançado por meio de um caminho traçado pelos currículos. “O currículo é sempre um recorte cultural situado em um contexto histórico e social, que diz respeito não só ao que o aluno tem que aprender, mas também a como tem que aprender”, resume Kátia Smole, diretora do Instituto Reúna, organização sem fins lucrativos que nasceu a partir do desafio da implementação da BNCC.

Reelaborando currículos

Durante os últimos dois anos, as redes de ensino tiveram o desafio de adaptar seus currículos às exigências da BNCC. E, embora cada ente federado tenha tido uma solução diferente para este desafio, houve um esforço dos estados e municípios de construção dos currículos em regime de colaboração.

Nele, estados lideraram discussões que envolveram municípios, a fim de criar currículos que abrangessem tanto as exigências da BNCC quanto as especificidades locais. O regime de colaboração também proporcionou que as secretarias pudessem somar recursos humanos, técnicos e financeiros. Com os currículos estaduais prontos, consultas públicas foram feitas para agregar sugestões da comunidade escolar. Nas redes municipais, os currículos puderam ser adaptados para se adequar ao contexto e necessidades regionais ou locais.

Kátia explica que, durante o processo de elaboração dos currículos, os entes federados tiveram autonomia para encontrar as melhores formas de apresentar os conteúdos previstos pela BNCC, além de acrescentar conteúdos que julgassem necessário. Tirar conteúdos previstos em lei, porém, não é permitido.

Embora na Base o inglês seja previsto como Língua Estrangeira, alguns currículos optaram por também manter a Língua Espanhola. “Estados de fronteira, por exemplo, acabaram criando um currículo de espanhol a partir do 6º ano”, exemplifica Kátia. “E tudo bem, porque no contexto deles era muito importante manter essa língua”.

Para dentro da escola

Os currículos elaborados pelas redes de ensino chegam até as unidades escolares como uma referência. Na hora de colocar tudo isso na prática, quem determina as maneiras de operacionalizar o que está previsto nos documentos é a própria escola, sobretudo através do seu projeto político pedagógico (PPP).

“É na escola que esse currículo [elaborado pelas redes] vai ganhar vida”, esclarece Sonia Guaraldo, autora do curso NOVA ESCOLA “Projeto político-pedagógico alinhado à BNCC”. “Quando a escola formula o seu PPP, ela dá mais um passo em direção àquilo que é mais característico e específico em relação à comunidade escolar”. Ou seja, é a partir dele que a Base se desdobra para contemplar a realidade e os desafios da escola.

Com o apoio das Secretarias, quem fica responsável por elaborar o PPP é a gestão da escola. O objetivo, porém, é que o documento seja o mais colaborativo possível, contando com a participação de toda a comunidade escolar. “Isso porque a intenção do PPP é descrever qual é o projeto de escola e o projeto de alunos que você quer”, afirma Tereza Perez, diretora-presidente da Comunidade Educativa CEDAC. Desta forma, é essencial que o documento contemple as expectativas da comunidade.

DICA PRÁTICA

A especialista Sonia Guaraldo, autora do curso NOVA ESCOLA “Projeto político-pedagógico alinhado à BNCC”, dá uma sugestão de como a escola pode se organizar para revisar o PPP de acordo com a Base

Crédito: Getty Images

  1. Reserve um tempo no planejamento para fazer uma discussão coletiva
  2. Para que o tempo de discussão seja produtivo, disponibilize o material online para leitura antecipadamente para a equipe e família. A sugestão de Sonia é que seja feita uma leitura da BNCC (com enfoque principal nos textos introdutórios do documento, competências gerais, competências específicas das áreas e dos componentes) e do currículo (municipal ou estadual)
  3. É possível criar arquivos de Google Docs com os textos para reunir comentários sobre os trechos da BNCC e do currículo, com dúvidas e possibilidades de discussão. Disponibilize os links dos arquivos com os textos por e-mail para a equipe
  4. A equipe gestora pode se reunir previamente para avaliar os comentários e dúvidas deixadas e que são relevantes para discussão coletiva
  5. Reúna a comunidade para contextualizar as discussões, abra espaço para que possam expor suas ideias e registre o que foi discutido para ser considerado na revisão do PPP

Para saber mais, acesse o curso NOVA ESCOLA “Projeto político-pedagógico alinhado à BNCC”.

Ao se aprofundar no conhecimento do contexto escolar, a instituição de ensino pode decidir adaptar as maneiras de ensinar determinados conteúdos, de forma que estejam mais relacionados com o que os alunos já estão habituados a vivenciar. “Quando eu tenho esse levantamento do contexto local, sociocultural, econômico – se é um contexto de violência ou não; se é um contexto turístico ou não –, tudo isso precisa ser incorporado ao currículo [da escola]”, explica Tereza. “Eu preciso saber quem são meus alunos para eu poder ensinar esses alunos, sem desvincular os saberes dessas crianças e desses jovens, porque eles já conhecem muita coisa”. 

Apesar de ter essa liberdade para decidir como os conteúdos serão apresentados aos alunos, tudo o que está previsto na BNCC deve ser mantido pela escola. Tereza Perez explica que a Base é lei e que as crianças e jovens têm direito de aprender todos os conhecimentos definidos pelo documento. “A escola não pode se eximir de garantir o direito de  aprendizagem. Ela tem total autonomia para definir como vai fazer, quais são as metodologias que vai utilizar e qual é a regularidade das práticas”, esclarece.

Da escola para a sala de aula

Neste início de ano letivo de 2020, um desafio essencial na Educação brasileira será levar todas as discussões estabelecidas nos últimos anos pela Base Nacional Comum Curricular para as salas de aula. Para as especialistas, este é um momento crucial e que requer bastante atenção tanto do corpo docente quanto das gestões escolares e públicas.

Tereza explica que quando um professor tem acesso ao PPP da escola elaborado sob referência dos currículos baseados na BNCC, ele deve identificar as facilidades e dificuldades de seus alunos. Diante disso, é possível pensar em quais pontos o próprio professor precisa se formar melhor, a fim de aprofundar os conteúdos em sala de aula.

Do lado dos gestores, Sonia diz que é essencial que haja um acompanhamento do trabalho dos docentes, garantindo formação para um completo entendimento dos novos currículos. Também é preciso oferecer aos professores condições necessárias para que as propostas sejam levadas à prática. “É preciso compreender quais são as lacunas na transposição daquilo que está no documento para aquilo que está na sala de aula”, considera Sonia. Para a especialista, o momento é de muita atenção e de reflexão sobre o que não está claro para a equipe docente, investindo em formação e apoio para que o currículo possa virar prática.

Kátia afirma, ainda, que todo o processo de elaboração curricular tem muito valor e que é preciso ser utilizado como referência para entregar, nas salas de aula, a Educação de qualidade prevista na BNCC. “Em nenhuma das instâncias o currículo é um documento qualquer. Ele é um documento que guarda um projeto de país, de pessoa, de escola, ele traz essa dimensão do aluno como responsabilidade do território”. Para ela, o espírito colaborativo da construção dos currículos não pode ser perdido agora que o documento chega para as escolas.

Tags

Guias