Da formação à prática: como melhorar as relações de convivência na escola

Diálogo e abertura à mudança são pontos essenciais para conseguir criar um ambiente acolhedor e seguro.

POR:
Paula Salas
Alunos da EM Jardim Lucia exploram o jardim da escola. Crédito: Acervo pessoal/ Luciene Schanton

Após uma análise do clima relacional da escola, a EM Jardim Lucia, em Sumaré (SP), identificou dois grandes problemas: o relacionamento com as famílias e a participação dos professores. Apesar de atender crianças de 3 a 6 anos - e não ser comum falar de indisciplina nesta faixa etária -, havia uma percepção de que a “culpa” da indisciplina era das famílias, consideradas pouco presentes na instituição. 

Vale ressaltar que os aspectos que compõem o clima relacional - e foram objeto de análise da escola de Sumaré - são apenas parte do clima escolar. Para analisar o todo é necessário considerar oito dimensões interligadas. São elas: As relações com o ensino e com a aprendizagem; As relações sociais e os conflitos, na escola; As regras, as sanções e a segurança, na escola; As situações de intimidação entre alunos; A família, a escola e a comunidade; A infraestrutura e a rede física da escola; As relações com o trabalho; A gestão e a participação. “Trata da convivência do espaço escolar, sentimento de cuidado, analisar os diferentes problemas, violência e conflitos, senso de justiça e as sanções que são aplicadas.”, exemplifica Adriano Moro, pesquisador do Departamento de Pesquisas Educacionais da Fundação Carlos Chagas. 

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A avaliação da situação EM Jardim Lucia foi feita após Mônica Bordon, coordenadora pedagógica da  escola, participar de capacitações específicas. No ano passado, a partir de uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação de Sumaré, os coordenadores e professores interessados participaram da formação oferecida pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM), que reúne pesquisadores de diferentes instituições, como universidades públicas, particulares e fundações voltadas à educação. Com encontros semanais - que acontecem até hoje -, a experiência permitiu a Mônica e sua equipe docente implementar mudanças significativas na escola. 

Entre as ações criadas duas se destacam. A primeira foi nos horários de trabalho pedagógico coletivos (HTPCs), que seguiam calendários com temas fixos e pouca abertura para discussões. Mônica reviu a dinâmica desses momentos para criar um espaço pautado em escuta, respeito e acolhimento, no qual as professoras têm liberdade para apresentar assuntos a serem debatidos (em geral, ligados diretamente ao cotidiano da sala) e também mais tempo para trocarem impressões sobre suas experiências. Isso permitiu às docentes dividirem também dificuldades e atitudes equivocadas. 

“Como gestora, meu papel é dar espaço e acreditar nessa proposta. Criar um ambiente seguro e acolhedor, sem punições”, explica a coordenadora. Ela conta que reserva, na sua pauta de formação, a socialização de boas práticas. Essa troca criou maior intimidade e cumplicidade entre a equipe. “O trabalho é feito com base no diálogo. O problema de uma professora é também da escola”, afirma. 

Com a mudança, a relação entre os docentes melhorou também fora dos horários formativos. "Passamos a olhar para o colega de maneira diferente", explica Luciene Schanton, professora da EM Jardim Lucia. O processo de troca gerou maior compreensão entre os educadores, que perceberam estarem todos trabalhando para chegar em um lugar comum. 

A outra ação foi realizada para melhorar a relação com as famílias. Batizada de Dedinho de Prosa, a iniciativa é uma maneira de compartilhar o que a equipe escolar aprende nas formações sobre convivência, indisciplina e bullying. São encontros quinzenais com os responsáveis, nos quais eles podem saber mais do trabalho desenvolvido em sala. 

Nessas ocasiões, são promovidas leituras e discussões com o intuito de colaborar na comunicação entre pais e filhos. O sucesso não foi imediato, mas, aos poucos, a frequência aumentou e as famílias reconheceram o valor da iniciativa. “Os pais começaram a relatar situações do dia a dia e admitiram que não sabem lidar com o filho em determinados momentos”, relata Luciene. Ela explica que essas conversas ajudaram muitos a desenvolver ferramentas para melhorar a relação com os filhos. 

A aproximação com as famílias impactou positivamente no clima relacional, pois gerou maior compreensão de ambas as partes, o que acabou por transformar também os demais tipos de reuniões com os responsáveis. “Hoje sou muito mais amiga dos pais. Eles querem falar e eu abro esse espaço. Se tornou uma troca. Eles não vêm apenas para ouvir sobre o filho”, explica Luciene. Para ela, o que aprendeu na formação e nas conversas entre a equipe foi essencial para o sucesso da iniciativa Dedinho de Prosa. “Quando a gente tem o conhecimento, fica mais segura para fazer qualquer coisa diferente”, afirma. 

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DA FORMAÇÃO CONTINUADA PARA A SALA DE AULA

Para Luciene, a experiência mudou a maneira de enxergar as crianças. Ao entender que elas também têm uma vivência, a professora passou a oferecer mais oportunidades para elas falarem o que sentem. Essa compreensão gerou reflexos em sua postura em sala. 

Antes, por exemplo, a docente utilizava o uso do parque como uma maneira de punição. Agora ele não é mais instrumento de chantagem. Luciene explica os motivos pelos quais as crianças não poderão ir ao parque, pergunta a elas o que acham e as deixa refletir. 

A nova postura também fez diferença na atividade rotineira das crianças de avaliar o dia.  Antes o momento resultava em troca de acusações, em que falar sobre quem fez ou deixou de fazer algo tinha um caráter punitivo. Ao mudar a maneira de conversar, focando nos fatos que aconteceram e não em quem fez, a avaliação se tornou impessoal. Hoje a atividade proporciona uma discussão sobre o dia com o intuito de pensar os motivos e as soluções de determinado conflito. 

Outro projeto desenvolvido é o Leitura na escola: convivência ética, no qual livros infantis são utilizados como disparadores de discussões. Entre os títulos utilizados estão: História de chuva para acabar com o medo (dela) e As Cinco Saias, ambos de Luciene Tognetta. É um momento em que as crianças podem falar sobre o que sentem e pensam. Também aproveita-se para fazer um exercício de linguagem em que as crianças entendem como mediar um conflito, pedir ajuda e se organizar a partir de uma necessidade do grupo. 

O PAPEL DO GESTOR

A Lei Antibullying (lei nº 13.185/2015) institui o combate à intimidação sistemática e a promoção de uma cultura de paz. Para Luciene Tognetta, coordenadora do GEPEM, ainda não conseguimos colocar a lei em vigor, pois não existem (ou ainda estão sendo construídas) políticas públicas sobre o assunto. “Temos iniciativas municipais que já conseguem construir coletivamente programas de convivência, mas ainda não temos legitimadas políticas públicas que garantam a continuidade”, afirma a especialista.

É preciso ter em mente que iniciativas de convivência não são ações pontuais sobre o assunto. “Se a proposta da instituição é promover a cultura de paz, não basta ter um dia de combate ao bullying. São ações programadas, sistematizadas, intencionais e organizadas para serem tratadas durante todo o percurso da educação”, diz. 

O comprometimento de melhorar as relações interpessoais na escola deve estar presente nas diferentes esferas: às secretarias municipais e estaduais de Educação cabe promover um trabalho na rede; aos professores, refletir e mudar a prática de sala de aula; e aos gestores escolares, proporcionar discussões e formações, além de coordenar o trabalho na instituição de ensino. 

Os coordenadores e diretores têm o papel de proporcionar, incentivar e organizar coletivamente iniciativas de diagnóstico e estudos da realidade, de planejamento de ações e de avaliação. “O gestor é aquele que coordena o trabalho e permite uma participação democrática de toda a comunidade”, afirma Luciene. 

Para Adriano Moro, o gestor precisa envolver a equipe, ser transparente, promover confiança, apresentar possíveis intervenções e mostrar os resultados obtidos. “É um incentivo geral. O gestor é o líder. Ele deve compartilhar e engajar todos os envolvidos”, explica. Para tal, a comunicação é essencial. Todos devem ter voz. 

Luciene explica que o trabalho com as relações interpessoais tem quatro bases fundamentais: a formação de professores; a participação democrática de toda a comunidade para pensar nas regras que regulam a convivência; a implementação de espaços de mediação de conflitos, isto é, ao invés de ter apenas um professor mediador, criar um grupo com representantes de gestão, docentes e alunos para atuar na resolução de conflitos; e o protagonismo dos estudantes. Neste último, a ideia é promover o espírito de colaboração, solidariedade, justiça, respeito e empatia entre os alunos de maneira a criar redes de apoios entre pares.