Quem na escola tem de saber tudo?

Se pensarmos quanto a Educação fundamental ou básica é realmente fundamental ou básica, compreenderemos melhor o desafio de ser aluno

POR:
Luis Carlos de Menezes
Foto: Marina Piedade
Luis Carlos de Menezes
é físico e educador da
Universidade de São Paulo (USP).

Começamos um novo período escolar, voltando a nossas escolas com a expectativa de realizar um bom trabalho, assim como com incertezas sobre essa etapa, talvez ainda inquietos com as manchetes dos jornais do fim do ano passado, que mostravam quanto é insuficiente o progresso da Educação brasileira, já que nosso desempenho em leitura, Ciências e Matemática continua deixando muito a desejar. Por isso, gostaria de convidar meus colegas educadores a lançar outro olhar sobre nossas atividades.

Ninguém duvida de que a formação escolar é essencial para conduzir nossa vida pessoal, familiar, social e profissional, pelos conhecimentos resultantes do aprendizado e especialmente pelas habilidades e competências desenvolvidas em atividades realizadas na idade mais apropriada para aprender qualquer coisa. No entanto, é notável que a maioria dos adultos que completaram sua Educação de base aceite tranquilamente já ter se esquecido da maior parte do que aprendeu naquela época. Será que nós, educadores, somos iguais a esses adultos? Devemos aceitar isso com naturalidade?

Depois de ter contribuído para a concepção do antigo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que era ainda bem menos disciplinar que o atual, participei durante vários anos da elaboração dessas provas. A fase de preparação final era um trabalho interdisciplinar muito interessante, em que uma dúzia de especialistas se reunia em torno de centenas de questões, procurando selecionar as mais adequadas para verificar a formação geral de nossos jovens a cada ano. Pois bem, era quase constrangedor perceber a perplexidade de especialistas em Língua Portuguesa e História diante de questões de Química ou Matemática, e não raro também vice-versa - confissão da incapacidade para julgar grande parte dos itens de fora de sua área. E ali só havia educadores de indiscutível experiência, formação acadêmica e cultura geral...

Mas voltemos ao chamado "chão da escola", digamos ao 8º ou 9º ano, e perguntemos se professores das áreas de linguagens ou de humanidades podem, numa eventualidade, substituir os das áreas científicas ou de Matemática, e vice-versa, mesmo considerando que todos tiveram formação média e superior, além do fato de conviverem num ambiente de intensa vida cultural, que a escola é -- ou deveria ser. Acho que sabemos a resposta para essa questão, e que muitos de nós encaramos isso de forma natural. A meu ver, não devemos esperar que todos tenham uma visão especializada de cada uma das disciplinas escolares, mas que sejamos minimamente capazes de dominar conhecimentos daquilo que se chama Educação Básica.

Minha hipótese, que submeto aos leitores desta coluna, é que, se pararmos para pensar nisso com um olhar renovado, quem sabe possamos fazer um diagnóstico mais efetivo dos problemas de nossa Educação. Já adianto, sem pretender colocar a carapuça nos eternos bodes expiatórios, os professores, que é preciso mudar. Para simplificar, podemos de início nos concentrar nas disciplinas, usualmente unidades estanques, não articuladas por projetos pedagógicos. Nossa meta poderia ser evitar que cada professor fique isolado em seu cubículo disciplinar, tendo diante de si os únicos "gênios" dos quais se espera que dominem todos os conteúdos: seus alunos! E, para que a escola não seja esse mosaico, precisa ser um espaço de vivência cultural para quem aprende e para quem ensina.

Tenho acompanhado muitas de nossas avaliações e, no contexto das questões que trouxe aqui, me pergunto qual seria nosso resultado médio nos exames gerais se quem se submetesse às provas fossem os professores, coordenadores e dirigentes da nossa Educação. Ter essa resposta seria revelador. Quem se habilita?

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