Para as turmas desafiadoras, novas práticas
O que fazer quando aquela classe faz o professor questionar a sua capacidade e prática docente
01/09/2019
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Jornalismo
01/09/2019
A turma mais difícil é o 7º ano. Nunca tive alunos que me fizessem sentir tão vulnerável. Acho que desaprendi a ser professor. Essas palavras foram ditas por um colega muito experiente. Fiquei perplexo, pois ele é uma referência, querido pelos alunos e admirado pelos colegas; o tipo que sempre traz soluções. Levei um choque, e sua fala me fez perceber que todos enfrentamos turmas que colocam em xeque nossa habilidade e experiência.
Quando percebemos que uma turma será muito difícil, é porque nosso repertório está se esgotando. Precisamos de outras saídas e, para chegar a elas, é fundamental conversar com colegas, coordenação e direção. Um ótimo início é fazer uma análise aluno a aluno, buscando entender o que é do grupo e o que é individual. Uma vez detectados quais os casos mais sérios, é importante definir encaminhamentos que toda a equipe realizará: em que situações alunos poderão ser excluídos da sala, por exemplo? Em que casos pedir ajuda à direção? É muito importante que a equipe faça intervenções conjuntas e consistentes.
Os alunos percebem rapidamente quando estamos desarticulados e usam isso em seu enfrentamento: “Se a outra deixou, por que você não deixa?” Também é preciso assumir nossa parcela de responsabilidade. Em que medida nossas aulas contribuem para gerar indisciplina? Ninguém propõe intencionalmente atividades que estimulam o tumulto, mas é preciso reconhecer que algumas não funcionam com certas turmas. Pode ser um problema da nossa prática, mas também ser um choque entre ela e os estudantes que, muitas vezes, estão imaturos para certas propostas. Nas classes difíceis que enfrentei, por exemplo, percebi que aulas expositivas são ruins, pois eram gatilho para a distração. Aprendi, na marra, a reduzir esse tipo de aula para as inquietas. Turmas assim dão muito trabalho, mas também as maiores recompensas. Caso os professores revejam suas práticas e se organizem como grupo para fazer intervenções consistentes, serão aquelas que ficarão na nossa memória e que nos farão acreditar que contribuímos para a transformação dos nossos alunos.
Felipe Bandoni é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo
FOTO: Tomás Arthuzzi/NOVA ESCOLA
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