A farsa da capacitação

Pesquisas da FVC mostram que os coordenadores que fazem formação na escola ainda são raridade

POR:
Bianca Bibiano

Preparar reuniões periódicas de formação continuada para os professores da unidade escolar é a principal atribuição do coordenador pedagógico, certo? No papel, é exatamente isso. Na prática, porém... Duas pesquisas encomendadas pela Fundação Victor Civita (FVC) demonstram que, além de muitas escolas ainda não contarem com coordenador pedagógico, ele não recebe capacitação específica para assumir esse papel de formador da equipe docente - e que as políticas públicas implementadas pelas redes de ensino não estão auxiliando as escolas e os professores em suas reais necessidades.

No primeiro estudo, O Coordenador Pedagógico e a Formação de Professores: Intenções, Tensões e Contradições, supervisionado por Cláudia Davis, da Fundação Carlos Chagas (FCC), e coordenado por Vera Maria Nigro de Souza Placco, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), fica claro que existem muitas leis e regulamentações - em nível federal, estadual e municipal - que definem o papel esperado para esses profissionais, com ênfase para a questão da formação continuada dos professores dentro das unidades escolares. Porém as 500 entrevistas realizadas para a pesquisa não deixam dúvida: inúmeras tarefas do cotidiano escolar, que poderiam ser executadas por outros funcionários, como a resolução de conflitos entre alunos e o atendimento aos pais e à comunidade, acabam por dominar a agenda dos coordenadores (veja dados sobre o perfil desses educadores nos gráficos abaixo).

Para a realização do segundo trabalho, A Formação Continuada de Professores no Brasil: Uma Análise das Modalidades e Práticas, coordenado pelas pesquisadoras Cláudia Davis, Marina Muniz Rossa Nunes e Patrícia Cristina Albieri de Almeida, da FCC, foram ouvidos representantes de 19 Secretarias de Educação (seis estaduais e 13 municipais) com o objetivo de identificar quais são os cursos que as redes de ensino oferecem aos coordenadores pedagógicos e aos professores. E a conclusão é que, ainda que seja possível observar um avanço nos modelos de formação continuada, essa prática ainda está aquém do desejado.

"O ideal é que os coordenadores pudessem comandar o trabalho pedagógico na escola, orientar a formação da equipe docente, segundo as demandas da realidade local, e liderar a elaboração do projeto político-pedagógico (PPP)", diz Vera. "Porém sua função se tornou muito abrangente, envolvendo assuntos de caráter disciplinar e questões relativas ao entorno."

Gráficos: Fabio Lucca

Redefinir papéis é o caminho para garantir o tempo da formação

Bernardete Gatti e Vera Maria Nigro de Souza Placco. Fotos: Rodrigo Erib e Marina Piedade
"Ao fortalecer a escola como espaço formativo, garante-se a continuidade à formação. Daí a importância de romper com a ideia de que lecionar é um ato solitário: sempre há colegas para trocar experiências."

Bernardete Gatti (acima), assessora geral da pesquisa A Formação Continuada de Professores no Brasil: Uma Análise das Modalidades e Prática.

"O coordenador sabe que algumas tarefas não são suas, rejeita-as no discurso, mas acaba fazendo se a escola não tem quem as execute ou quando não se organiza para equacionar as tarefas."

Vera Maria Nigro de Souza Placco, responsável pelo estudo O Coordenador Pedagógico e a Formação dos Professores: Intenções, Tensões e Contradições.

Quando começou a atuar na função de coordenadora, em 1997, Lilian Porto também enfrentava este impasse: cuidava do portão, do recreio, das reuniões com os pais e até do dinheiro da cantina. O tempo para formar os professores e ajudá-los com os conteúdos ficava espremido em meio a tantas tarefas. Hoje, Lilian trabalha no Centro de Referência e Apoio à Educação Inclusiva, em Governador Valadares, a 323 quilômetros de Belo Horizonte, e garante que é possível redefinir as funções e abrir espaço para esse trabalho formativo. "No nosso caso, houve uma reestruturação em toda a rede, que me permitiu desempenhar minha função por excelência, que é a de formadora", diz ela. "Preparar o conteúdo didático dos projetos que serão trabalhados na escola se transformou numa rotina semanal e, junto com os professores, faço a avaliação da aprendizagem dos alunos. Mas isso só foi possível porque fizemos também uma nova divisão interna das tarefas", diz a educadora.

Vera destaca que mudanças desse tipo precisam vir acompanhadas de apoio para os coordenadores, pois apenas cobrar novas obrigações sem lhes oferecer auxílio só leva ao desgaste profissional. "É preciso que as secretarias disponibilizem recursos e estabeleçam parcerias com universidades e agências formadoras para proporcionar suporte teórico e acompanhamento do trabalho nas formações", completa.

O estudo sobre formação continuada, por sua vez, destaca que apenas cinco das 19 redes de ensino consultadas não preveem tempo específico para a formação. O grande nó d questão é que a maioria das capacitações se preocupa apenas com os conteúdos de ensino, sem discussões específicas de cada contexto escolar. "Para que a formação seja colaborativa, é absolutamente fundamental investir no aperfeiçoamento também do coordenador, que nem sempre está preparado para assumir tais funções", diz Bernardete Gatti, assessora geral da pesquisa.

Os dois estudos concluíram que a maior parte das atividades de formação tem como público-alvo o professor polivalente por causa do desempenho insatisfatório nos testes nacionais de Língua Portuguesa e Matemática. As exceções, dizem os pesquisadores, são cursos e palestras voltados a questões de comportamento, como o combate às drogas, que não têm relação com o ensino dos conteúdos curriculares. A esse respeito, o trabaho sobre formação continuada pontua que os professores das séries finais do Ensino Fundamental são os que mais encontram dificuldades. Como a maioria tem formação em nível superior específica em sua área, as capacitações preparadas para toda a equipe não atendem às suas necessidades.

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