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01 de Junho de 2013 Imprimir
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Escola e família: hora de firmar a parceria

Para que os pais possam trabalhar pela aprendizagem da garotada, a comunicação entre você e eles precisa ser eficiente. Vale se desarmar de preconceitos e melhorar os momentos de contato pessoal e as mensagens escritas. Saiba como

Por: Fernanda Salla
Como melhorar a comunicação com os pais para que possam trabalhar pela aprendizagem da garotada. foto Ricardo Toscani. ilustrações 45Jujubas

Os depoimentos que ilustram esta reportagem são reais e retratam o desencontro envolvido na relação entre professores e pais. No centro do embate está a responsabilidade de cada um desses agentes na Educação de crianças e jovens. Os docentes sabem que o envolvimento da família tem um grande impacto no sucesso escolar dos alunos e, por isso, querem a ajuda dela. Porém, reclamam que os pais são omissos, colocando neles a culpa por problemas de indisciplina e pelo fracasso dos filhos nos estudos. Essa visão aparece nos relatos coletados na pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual, da Fundação Victor Civita (FVC), realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em 2012.

A concepção é explicada principalmente por um indicador: o baixo rendimento de estudantes que vivem em ambientes socioeconômicos vulneráveis. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2012 mostram que crianças nesse contexto apresentam o dobro de risco de ter um aproveitamento escolar fraco. Aliada a esse fato está a dificuldade dos professores em lidar com alunos que possuem uma bagagem cultural familiar diferente da esperada pela escola e que chegaram às salas de aula com a universalização da Educação Básica. Aqui o jogo do empurra-empurra fica mais sério, já que a situação cultural e socioeconômica não pode tirar de ninguém o direito de aprender. "Nem sempre é possível contar com um ambiente ideal em casa para dar continuidade ao trabalho realizado na escola, mas é responsabilidade do educador ensinar mesmo assim", afirma Maria Eulina Pessoa de Carvalho, docente da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Na contramão do discurso docente, estudos mostram que os pais valorizam a escolarização dos filhos, vendo nela um meio de ascensão social. É o que aponta a pesquisa Esforços Educativos de Mães num Território de Alta Vulnerabilidade Social: um Estudo de Caso, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Nos depoimentos colhidos, mães afirmam não só se preocupar com o aprendizado dos filhos mas como investir nele.

O que impede, então, que a vontade e o empenho de professores e familiares sejam construtivos? Um fator decisivo é a má comunicação. "Os docentes não conhecem as famílias e elas não sabem como funciona a escola dos filhos", diz Antônio Augusto Gomes Batista, do Cenpec. Se isso ocorre na sua escola, pense em mudar a dinâmica e unir esforços com foco no sucesso da turma.

Para que possam colaborar, os pais precisam ser incluídos no planejamento pedagógico, entender as estratégias da escola e saber o que se espera deles. Nesse sentido, é imprescindível ouvi-los para identificar o que podem oferecer. O desafio, você sabe, não é simples, mas o caminho existe. As unidades de ensino já contam com ferramentas de contato com os responsáveis. Só precisam explorá-las bem. "Apenas a equipe gestora e os professores falam e as famílias não são ouvidas", afirma Daniela de Figueiredo Ribeiro, do Centro Universitário de Franca (Uni-Fatec). Além disso, as reclamações sobre o mau comportamento dos alunos costumam ser o principal tópico. Fica de lado o que pode ser feito em conjunto pela aprendizagem das crianças.

A seguir, NOVA ESCOLA mostra como aprimorar os momentos de contato pessoal com as famílias e as mensagens escritas para elas. Assim, todos poderão ficar do mesmo lado: o dos alunos.

Os alunos não veem em que vão utilizar o que aprendem. Não é só a escola que deve passar isso para eles! A família, que está em casa, é quem tem de direcionar.
Professora*

Os professores ficam falando só da bagunça, dizem para os pais conversarem com os filhos. Mas eu já falo. A escola tem que ver isso porque a gente não está lá o tempo todo.
Mãe*

Encontros que promovem o diálogo

Como melhorar a comunicação com os pais para que possam trabalhar pela aprendizagem da garotada. foto Ricardo Toscani. ilustrações 45Jujubas

Comum na Educação Infantil, a prática de educadores receberem no portão ou no pátio quem levou as crianças à aula, infelizmente, é esquecida no decorrer da Educação Básica. Ela mostra que a escola está aberta aos responsáveis e, para o professor, é uma oportunidade de se comunicar com eles quando estão disponíveis. Claro que nem tudo pode ser conversado no portão, mas o momento serve para combinar um horário para o atendimento individual.

Esse contato permite conhecer as famílias mais de perto para ampliar os dados que estão na ficha de matrícula. "Se um pai não participa das atividades propostas pela escola, não necessariamente é porque não quer. Nessas conversas é possível entender a rotina dele para pensar em como ajudá-lo a exercer sua parceria com a escola", diz Patricia Mota Guedes, da Fundação Itaú Social.

Na EMEB Professora Regina Maria Tucci de Campos, em Mogi Mirim, a 160 quilômetros de São Paulo, diariamente, toda a equipe docente aguarda no pátio as turmas da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. "Conheço os responsáveis pelos meus alunos mais a fundo e os chamo pelo nome", conta Márcia Longo Mantovani, professora do 3º e 4º anos.

Para que os professores dos anos finais do Fundamental também participem, o rodízio é uma alternativa: em cada dia, um grupo faz o acolhimento. Márcia percebe que os pais se sentem mais à vontade para se aproximar nesse momento. "Quem não consegue ir à escola em outros períodos aproveita para contar ou perguntar alguma coisa." Quando o assunto é mais delicado, ela marca um encontro nos horários em que a turma está em aulas de Educação Física e Arte.

A educadora Márcia de Fátima Santos Souza, do 2º ano da EMEF Professora Jandira Vieira Marcondi, em Itapetininga, a 170 quilômetros de São Paulo, também valoriza as conversas individuais com os pais. "Se identifico que um aluno tem dificuldade para enxergar e nunca foi ao oftalmologista, por exemplo, chamo o responsável. Digo o que notei e pergunto se ele percebeu o problema em casa. Então, indico que leve a criança ao médico e me traga o laudo", afirma Márcia Souza. "Diante da questão, digo: 'Vamos ver como ajudar, eu no pedagógico e você nas outras coisas'."

Do 1º ao 5º ano, há maior presença dos pais. Então esse olhar deles ajuda muito na questão da escola, do aprendizado. Quando chega no 6º ano, o aluno se sente perdido porque a maioria dos pais pensa que pode abandonar essa criança.
Professora*

Não podia, mas eu entrei e peguei a professora na porta para perguntar dele. Meu filho ficou bravo comigo, mas eu fui lá e perguntei mesmo assim.
Mãe*

Problemas
Soluções
Os pais não se sentem à vontade para falar com o professor. Esteja aberto ao encontro na porta da sala ou no pátio.
Os responsáveis não participam dos eventos escolares. Use o contato na porta para lembrar datas importantes.
Não consigo dar atenção a todos na hora da entrada. Marque horários para atendimentos individuais.
É impossível todos ficarem juntos no portão da escola. Proponha um rodízio. A cada dia, um grupo faz a recepção.
Os pais deixam de levar os filhos à escola a partir do 6º ano. Mantenha a rotina da recepção para mostrar que a escola está aberta.

Reuniões para formar e ouvir

Como melhorar a comunicação com os pais para que possam trabalhar pela aprendizagem da garotada. foto Ricardo Toscani. ilustrações 45Jujubas

Nas reuniões, os pais devem conhecer o projeto político-pedagógico (PPP) da escola e as propostas para o ano letivo. Além de possibilitar que eles acompanhem a evolução dos filhos, os encontros são oportunidades de compreenderem como ajudar na estratégia de desenvolvimento que você estabeleceu para a criança.

A ausência dos responsáveis não significa, necessariamente, desinteresse. Em grande parte das redes, os encontros ocorrem no horário de expediente deles. Outros complicadores: muitos dizem que as reuniões são cansativas e demoradas e têm como tema principal o comportamento dos alunos. "Além de afastar a família, que se sente acuada, esse tipo de encontro não é produtivo para solucionar os problemas", diz Daniela Ribeiro.

Para resolver isso, uma opção é fazer uma enquete com os familiares sobre os melhores horários. O encontro deve prever quatro pontos: espaço para os responsáveis falarem de suas angústias e expectativas, uma agenda equilibrada - que não pode conter só aspectos negativos em relação aos alunos mas também os avanços -, apresentação do que foi desenvolvido em aula e das propostas e do planejamento para os meses seguintes.

No Colégio Miró, em Salvador, as reuniões, trimestrais, são planejadas pelos professores em conjunto com a equipe gestora, que começa dando recados gerais. Depois, é apresentado o que foi trabalhado no período. "O foco é tratar do ensino e da aprendizagem. Não falamos de forma técnica. Usamos as produções da garotada, que analisamos junto com os pais", conta Melina Endraos, professora do 5º ano. "Mostrar o que os alunos produziram torna mais fácil para eles entenderem o projeto", afirma Patricia Guedes.

É importante dar abertura para ouvir o que os responsáveis têm a dizer - queixas, sugestões e dúvidas - e responder a tudo com clareza. Melina e os demais professores também traçam um plano específico sobre como os familiares podem contribuir para a aprendizagem dos filhos e perguntam se eles acham que as ações se encaixam na rotina deles em casa. Nos anos finais do Ensino Fundamental, a dinâmica muda. Cada professor especialista deve ficar em uma sala de aula e os pais passam por elas, em pequenos grupos.

Os pais ficam perguntando: "Tem de vir? Por que tem de vir?" A gente responde que é a educação dos filhos deles, mas eles não entendem.
Professora*

Vou para a reunião e os professores dizem que os pais não vão para a reunião. Lá a professora fala que as crianças não parecem crianças, mas, sim, um monte de animais. Quem vai para ouvir desaforo?
Mãe*

Problemas
Soluções
Os responsáveis não vão à reunião. Descubra o motivo da ausência e, se preciso, mude horários.
Os pais reclamam que no encontro só se fala de problemas dos alunos. Fale das estratégias da escola e os envolva na solução dos problemas.
As famílias não sabem o que a escola realiza e o que os alunos aprendem. Mostre as produções da turma para que elas entendam o trabalho feito.
Só você e os gestores falam no encontro. Abra espaço para os pais exporem dúvidas e expectativas.
Os especialistas têm várias turmas e não conseguem falar com todos os pais. Eles podem ficar em salas separadas e receber os pais em pequenos grupos.

Avaliações merecem comentários

Como melhorar a comunicação com os pais para que possam trabalhar pela aprendizagem da garotada. foto Ricardo Toscani. ilustrações 45Jujubas

As avaliações e os registros dos alunos nos cadernos, incluindo a lição de casa, podem informar também para os responsáveis como o estudante está em relação ao conteúdo, assim como o relatório individual de aprendizagem - mais comum na Educação Infantil e nos anos iniciais do Fundamental. Nele constam o que foi trabalhado pelo professor e os avanços da criança.

Porém, muitas escolas não compartilham a avaliação com as famílias, outras apenas divulgam as notas, sem contextualizá-las. "Dessa forma, os pais não conseguem ter a real dimensão do desempenho de seus filhos e como ajudá-los", diz Patricia Guedes. Para piorar, parte deles vê a avaliação como algo punitivo, não como medida que ajuda o professor a aperfeiçoar suas práticas.

Na EMEI Maria Alice Pasquarelli, em São José dos Campos, a 94 quilômetros de São Paulo, os professores redigem relatórios de aprendizagem. "No começo do semestre entregamos aos familiares um informativo com os projetos que serão desenvolvidos. Para todo aluno, é feito um documento individual, que, no fim, é compartilhado na reunião", conta Andreia Amorim dos Santos, pedagoga da Educação Infantil. Ela revê coletivamente os eixos dos trabalhos e os objetivos e coloca as informações em um cartaz no quadro. Só então distribui os relatórios. Cada pai ou mãe recebe o do seu filho e tem um momento para ler. No fim do material há um espaço para que digam o que acharam. Eles também podem tirar dúvidas com a professora, que fica à disposição.

Entre as informações do documento estão as conquistas do aluno e o que ainda precisa ser desenvolvido. Tudo com base nas anotações diárias, que incluem as falas dos pequenos e as suas intervenções. A professora também dá dicas sobre como ajudar os filhos. Aspectos comportamentais ficam de fora, já que o foco é a aprendizagem. "A família é mais um instrumento de apoio para a criança aprender", finaliza Andreia.

Os professores do 6º ao 9º ano, que lecionam para várias turmas, têm dificuldade para usar o relatório individual. Porém, podem produzir um documento por classe, pontuando suas particularidades, e fazer comentários nas avaliações de cada estudante. Em vez de só dar a nota, é possível escrever bilhetes indicando o que faltou na resolução. Assim, fica mais fácil para os pais entenderem o desempenho dos filhos.

Eu acho que a maioria dos alunos não valoriza o conhecimento porque, em casa, eles não têm um espelho. A maioria dos pais aqui trabalha como empregada doméstica, faxineira ou em balcão de padaria. Então, acho que acabam não valorizando o conhecimento.
Professora*

Eu sempre pergunto do meu filho e elas falam que ele só conversa. Aí, eu pergunto do desenvolvimento e elas falam que ele está bem, mas não sei porquê. Eu não acho que ele está bem na escola.
Mãe*

Problemas
Soluções
Os pais não sabem o que os alunos estão aprendendo e não valorizam o conhecimento. Explique os objetivos do trabalho, sua importância e como ele é desenvolvido durante as aulas.
A escola fala mais de comportamento que de aprendizado. Só passa a nota aos pais. Mostre as aprendizagens esperadas, como elas foram avaliadas e onde a criança está em relação a elas.
As famílias veem a avaliação como algo punitivo. Valorize os avanços da criança e não apenas suas dificuldades.
Do 6º ao 9º ano é impossível fazer relatórios individuais. Escreva um relatório por turma e explique nas provas o que era esperado de cada questão.

Em bilhetes, a troca de informações

Como melhorar a comunicação com os pais para que possam trabalhar pela aprendizagem da garotada. foto Ricardo Toscani. ilustrações 45Jujubas

Enviados por e-mail, escritos em papel avulso, no caderno ou na agenda, os bilhetes são um meio de comunicação rápida e prática entre os professores e as famílias. Eles podem informar algo relacionado à criança, passar um recado breve ou convidar para eventos. Na prática, acabam servindo como reclamação formalizada aos pais sobre conflitos e descumprimento de regras, conforme indica pesquisa de Sandra Cristina Dedeschi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Não é preciso comunicar tudo. Problemas pontuais devem ser resolvidos internamente. "As famílias não sabem como agir diante de críticas. Ficam paralisadas ou usam artifícios muitas vezes equivocados como bater no filho ou castigá-lo", afirma Daniela Ribeiro.

Em casos de indisciplina, principalmente nos anos finais do Fundamental, o melhor é ouvir o que o estudante tem a dizer e fazer as intervenções para que ele reflita e mude de atitude. O bilhete só deve ser enviado se ele não melhorar. E, nesse caso, precisa ser escrito com o aluno, explicando que medidas já foram tomadas e chamando o responsável para que, juntos, pensem em um meio de ajudar o estudante. Se isso não for feito, é provável que o recado nem chegue ao destino.

Já os cadernos, que transitam diariamente entre a escola e a casa, devem ser usados para auxiliar os pais a entender a função da lição de casa. Compartilhe com eles as estratégias por trás de uma atividade. Se uma tarefa de Matemática tem como objetivo mostrar as hipóteses de cálculo mental da criança, é importante avisar que ela precisa resolver os problemas sozinha.

Na CMEI Vila Torres, em Curitiba, existe uma caderneta especial para a comunicação com as famílias. Os recados são diários, sobre assuntos diversos. "Nós registramos como a criança passou o dia, o que fez, se teve um avanço. O combinado é que os pais deem um visto", conta Patricia Ribeiro Galli Perin, pedagoga responsável pelas crianças de 3 meses a 5 anos. Nas cadernetas, as famílias também escrevem recados para a professora. "Antes das atividades, verificamos se elas têm informações importantes, como uma medicação que precisa ser dada", relata a educadora.

"A família e a escola devem estar na mesma sintonia em relação à Educação da criança. Quando a escola compartilha suas estratégias, seus valores e os mecanismos de intervenção e reparação, torna-se um exemplo para a família de como agir", diz Suzana Mesquita Moreira, coordenadora pedagógica do 6º ao 9º ano da Escola Projeto Vida, na capital paulista.

A dificuldade maior é chamar os pais da 5ª série em diante porque o bilhete nunca funciona.
Professora*

Eles só me chamam na escola, me mandam bilhetes quando meu filho dá problemas. Nunca me chamam para dar notícia boa.
Mãe*

Problemas
Soluções
Os bilhetes só contêm reclamação sobre os estudantes. Use os bilhetes para falar do dia das crianças e de seus avanços.
Os pais não sabem como ajudar o filho nos estudos. Informe os encaminhamentos realizados e o que se espera deles para que haja continuidade.
Os pais não acompanham a lição de casa. Escreva no caderno, perto da tarefa, orientações sobre os objetivos da lição e como podem ajudar.
Os alunos não entregam os recados pois têm medo de ser punidos. Converse com a criança sobre o problema ocorrido e escreva o bilhete com ela.

*Os depoimentos que acompanham a reportagem foram retirados das pesquisas Anos Finais do Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual, Esforços Educativos de Mães num Território de Alta Vulnerabilidade Social: um Estudo de Caso e de levantamento realizado pelo Todos pela Educação em parceria com o Instituto Tellus.

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