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Colégios de aplicação são ilhas de excelência no Brasil

Essas instituições se destacam com ensino inovador e valorização da pesquisa

POR:
Beatriz Santomauro, NOVA ESCOLA, Ana Ligia Scachetti, Márcia Scapaticio

Aprimorar o ensino e estimular a pesquisa de novas práticas pedagógicas, o estágio e a formação de professores. Esses são os principais objetivos dos 17 colégios de aplicação existentes no Brasil. A vinculação deles com as universidades (16 federais e apenas uma estadual) tem garantido condições para a melhoria do processo de aprendizagem. Salários acima da média e regime de dedicação exclusiva atraem os docentes e são outro destaque. Para ingressar em uma dessas instituições, o caminho é o concurso público, e os postos de trabalho são disputados. A jornada de 40 horas semanais permite que seja desenvolvida uma trajetória acadêmica. Esse tempo é dividido entre as aulas, a pesquisa e o acompanhamento de estagiários. Os colégios devem seu título a esta função: ser um espaço onde os estudantes de cursos de graduação que envolvem didática podem aplicar, numa situação real, os conhecimentos adquiridos em sala de aula.

A fórmula tem se mostrado bem-sucedida. A maioria das instituições obteve notas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) bem acima da média dos municípios em que estão (leia os resultados no quadro na próxima página). O problema é que a excelência fica restrita aos muros das escolas. Poucas iniciativas levam as metodologias para fora das instituições.

Para diminuir essa distância da sociedade, Minoru Kinpara, docente da Universidade Federal do Acre (Ufac) e autor do livro Colégio de Aplicação e Formação de Professores (126 págs., Ideia Editora/Ufac, tel. 68/3901-2568, 25 reais), sugere um esforço voltado à articulação dos professores, pensando numa interação entre a universidade, o colégio e outras escolas. "Qualquer instituição pública tem de estar a serviço da comunidade na qual está inserida", diz.

Essa situação pode se agravar caso se confirme a ameaça de diminuição de recursos feita pelo Ministério da Educação (MEC) para os colégios de aplicação. O corte, que será debatido ao longo de 2012, dificulta a contratação de docentes e, consequentemente, impede a realização de parte dos trabalhos. Mas, por enquanto, essas ilhas continuam em condições de demonstrar sua excelência. Para conhecer o que acontece dentro de instituições desse tipo, leia sobre três iniciativas na página seguinte.

Três colégios de aplicação exemplares

Autonomia para a inovação

Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Foto: Sérgio Vignes

Como cada universidade possui autonomia na gestão dos colégios, eles conseguem ter mais liberdade para o desenvolvimento de metodologias. Para ensinar os alunos do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a produzir conhecimento por meio da pesquisa, docentes de Geografia e História criaram um projeto em 1999.

Onze anos depois, o professor José Carlos da Silveira, de Geografia, conseguiu a incorporação dele à grade curricular com o nome de Iniciação Científica na Escola e hoje coordena a iniciativa. No começo, as saídas de campo eram realizadas em assentamentos na cidade de Fraiburgo, a 377 quilômetros de Florianópolis. No ano passado, a questão agrária foi substituída pela situação das pessoas atingidas pela construção de barragens, assunto abordado no município de Itá, a 502 quilômetros da capital. Na primeira etapa, há a saída de campo e depois a produção de textos relacionados aos conteúdos estudados. Ao todo, sete professores de várias disciplinas se revezam orientando os grupos de alunos.

Tempo para prática e pesquisa

Colégio João XXIII, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Foto: Fernando Priamo

A organização do tempo dos professores, com períodos definidos para trabalho em sala de aula, pesquisa e atividades extraclasse, é um ponto forte dos colégios de aplicação. Lauriana Paiva teve a chance de vivenciar os benefícios que isso traz ao ensino em boa parte de sua vida.

Ela cursou Magistério no Colégio João XXIII, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a 276 quilômetros de Belo Horizonte. Passou pela graduação em Pedagogia na mesma instituição e realizou o estágio no colégio em que tinha sido aluna e onde agora leciona.

Além de dar aulas de Língua Portuguesa e Ciências, Lauriana tem a oportunidade de desenvolver com os alunos os temas que abordou no mestrado e no doutorado: a relação entre Educação e tecnologia. Com base nos resultados de suas pesquisas, que mostraram as maiores necessidades dos estudantes nessa área, ela propôs uma nova maneira de ensinar Língua Portuguesa, aproveitando o contato das crianças com a internet. Concebeu, então, o módulo ReCriando Histórias Digitais, hoje oferecido para os alunos do João XXIII, com duração de três meses.

Trabalho em parceria

Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foto: Otavio de Souza

Um dos diferenciais recorrentes nessas escolas é a realização de trabalhos que envolvem várias disciplinas. Outro é contar com um número reduzido de alunos por sala devido à grande quantidade de professores. No Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um trio de docentes conseguiu unir esses dois benefícios e realizar um projeto em turmas de 9º ano com média de 15 alunos cada uma.

As aulas foram divididas entre Ana Maria Souza, responsável por Química, e Fernanda Puça, por Francês, com a colaboração da professora Kátia Aquino, também de Química. Nas aulas, foi debatida a importância da cientista polonesa Marie Curie (1867-1934) e da Teoria da Radioatividade. Em Francês, os alunos leram e produziram textos relacionados aos mesmos temas. "A dinâmica era pesquisar, discutir e escrever na língua estrangeira", conta Fernanda. Para elas, as atividades integradas favoreceram a aprendizagem.

Colégios são destaque no Ideb*

Universidade Federal a que pertence
Nota no 9º ano
Média do
município
de Pernambuco (UFPE)
8,0
2,8
de Juiz de Fora (UFJF)
6,5
4,0
de Sergipe (UFS)
6,5
2,7
de Uberlândia (UFU)
6,4
4,5
do Rio de Janeiro (UFRJ)
6,2
3,5
de Roraima (UFRR)
5,9
3,8
de Minas Gerais (UFMG)
5,8
3,9
de Santa Catarina (UFSC)
5,7
4,2
de Goiás (UFG)
5,3
3,8
Fluminense (UFF)
-**
-**
do Pará (UFPA)
4,9
3,1
do Rio Grande do Sul (UFRGS)
4,7
3,5
do Acre (Ufac)
4,7
4,2
do Maranhão (UFMA)
4,0
4,0
de Viçosa (UFV)
-***
3,9
do Rio Grande do Norte (UFRN)
-***
3,0

* A Escola de Aplicação da Universidade de São Paulo (USP) obteve nota 5,73 no Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo (Idesp). A nota da capital paulista é 5.
** Não possui nota no 9º ano. No 5º ano, a nota é 4,9 e a média é 5,1.
*** Não possui nota no Ideb.

Fonte IDEB, 2009

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