Adolescentes com os hormônios à flor da pele

Mudanças físicas e psíquicas perpassam a construção da sexualidade na adolescência. Compreensão e diálogo são fundamentais durante esse processo

POR:
Ana Rita Martins

No ano passado, adolescentes começaram a circular pelas escolas brasileiras com pulseiras coloridas. Parecia apenas mais uma moda, até que os adultos perceberam que tudo se tratava de um jogo com conotação sexual - para cada cor, havia uma atitude correspondente. Assim, se um menino arrebentasse a pulseira amarela no braço de uma menina, ela era obrigada a  dar um abraço nele. Se fosse roxa, a "prenda" era um beijo de língua (a lilás era "só" um selinho). A escala de carícias chegava a "sexo" (preta), "tudo o que quiser" (transparente) e "todas as opções anteriores" (dourada).

A possibilidade de que a brincadeira estivesse sendo levada às últimas consequências deixou pais e educadores alarmados - talvez pelo fato de ver a garotada falando abertamente sobre... aquilo. E o que poderia ser uma oportunidade para uma conversa franca sobre um tema tão importante (porém ainda tabu para muita gente) acabou, em vários casos, com a proibição pura e simples do uso dos acessórios nas escolas. A atitude foi condenada por especialistas, que reforçam a necessidade de compreender que, quando os jovens entram na puberdade, iniciam um processo intenso e conflituoso para construir a própria sexualidade. Ajudá-los a entender esse caminho é a melhor maneira de lhes dar ferramentas para ter uma vida sexual plena e responsável.

Sensações desconhecidas desestabilizam o jovem

 

Ilustração: Daniella Domingues
ANDRÉ* Sem controle
Às vezes, eu não tenho controle mesmo e a barraca arma. Acontece à noite e tb de manhã. Ando acordando + cedo pra ver se passa pq minha mãe já viu duas vezes, mó bad. Queria q armasse só qdo eu quisesse.

SURPRESA NOTURNA Sonhos eróticos, ereções e desejos geram prazer, mas também ansiedade
Ilustrações: Daniella Domingues

No trabalho Três Ensaios sobre uma Teoria da Sexualidade, o fundador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), mostrou a importância do tema para a formação do psiquismo humano. Ele escreveu que é por meio do prazer que sente nas várias partes do corpo que a criança organiza a própria existência. Na adolescência, com a explosão hormonal, o prazer deixa de existir apenas em relação a si mesmo e passa a se dirigir ao outro e a depender de seu olhar. "É uma transição delicada, já que o jovem experimenta a sensação de luto por perder o corpo de criança, sobre o qual tinha controle e com o qual sabia se comportar. Quando isso ocorre, ele precisa aprender a lidar com o desejo e uma nova sexualidade que desponta, o que acaba provocando um turbilhão de sensações desconhecidas", explica Roberto Graña, psicanalista e autor de livros sobre o tema.

A médica e psicanalista francesa Françoise Dolto (1908-1988) comparou a adolescência à transição que um caranguejo faz quando perde a casca para poder crescer e formar uma nova, maior. É uma metáfora que remete à vulnerabilidade a que o jovem fica exposto até finalmente "formar" seu corpo de adulto. Além disso, é importante compreender que essa fragilidade se manifesta do ponto de vista psíquico por um motivo bastante simples: enquanto as mudanças corporais avançam, as representações mentais sobre elas ainda estão em formação. Para aplacar a angústia que isso pode causar, é importante o professor, independentemente da disciplina, estar aberto ao diálogo para poder explicar as transformações provocadas pela puberdade. Esse é o melhor caminho para ajudar os adolescentes a encarar com mais naturalidade todas essas situações que fogem ao seu controle - do surgimento de pelos faciais ao crescimento de genitais e seios, passando por ereções involuntárias e outras manifestações da sexualidade nascente.

Outro comportamento comum nessa fase é dissociar o próprio desejo da reflexão sobre ele. Como ainda não têm experiência para moderar as vontades que sentem, muitas vezes os jovens agem sem pensar ou só refletem sobre o que fizeram depois do ocorrido. "Há ainda o agravante de que, nessa fase, existe o resgate da fantasia da onipotência, ou seja, achar que nada vai acontecer a si. Esses fatores somados contribuem, por exemplo, para o aumento dos casos de gravidez e o contágio por doenças sexualmente transmissíveis", diz David Léo Levisky, psiquiatra da infância e adolescência. Por isso, na hora de debater, vale ressaltar que nossas ações têm consequências - o caso das relações sexuais é emblemático para reforçar a ideia de que o prazer implica ser responsável com o próprio corpo e com o do(a) parceiro(a).

Num tempo de descobertas, espaço para a experimentação

Ilustração: Daniella Domingues
LUCIANA* Quero beijar muito
Já fiquei com menino e com menina. Eu gosto, é bom pra curtir a vida. Ñ me apego a ning pq beijar na boca de uma pessoa só é mto chato. Meus amigos ficam com uma pá de meninos e meninas tb. Se não fizer isso agora, vou fazer qdo? Qdo ficar velha?


GERAÇÃO TOTAL FLEX Fazer experiências com meninos e meninas faz parte do processo de formação da identidade
Ilustrações: Daniella Domingues

Assumir uma preferência sexual, na maioria dos casos, exige abrir mão de outra e, nesse processo, é comum os adolescentes testarem possibilidades. Essas experiências, é claro, não se dão apenas na fantasia mas também de forma bem concreta - com beijos, manipulação sexual mútua ou relações sexuais. E muitas vezes isso se manifesta ainda na forma de ciúme ou agressividade em relação aos amigos e amigas. "Tudo isso faz parte do desenvolvimento da sexualidade e deve ser encarado com normalidade. O que não podemos fazer é repassar preconceitos e tabus para os jovens, pois é sabido que isso prejudica seu desenvolvimento emocional", afirma o psicanalista Tiago Corbisier Matheus.

Ele faz um alerta, porém, para uma "moda" atual: meninos e meninas que gostam de beijar meninos e meninas nas escolas, nos shoppings, em festas etc. "Nesse caso, é importante perceber se o jovem está experimentando por necessidade própria ou se o faz apenas para satisfazer às expectativas do grupo", ressalta. Outra situação comum e que também merece cuidado é a de adolescentes que adotam a promiscuidade como uma forma de evitar o envolvimento emocional. "É o caso da jovem que beija vários meninos ou meninas, mas nunca se permite uma relação de intimidade com um deles. Se isso persiste, o desenvolvimento da sexualidade também pode ser prejudicado", afirma Matheus.

Estereótipos e expectativas na questão de gêneros

Ilustração: Daniella Domingues
KARINA* Compro ou não?
Fui na farmácia pq queria comprar camisinha e demorei 10 minutos pra ter coragem de pegar. Sinto vergonha por ser menina, as pessoas me olharam mó eskisito. Parecia que eu era uma galinha. É mais fácil prum menino. Fico sem saber como agir.

QUESTÃO DE GÊNERO Os estereótipos sobre o que se espera de homens e mulheres confundem os jovens
Ilustrações: Daniella Domingues

Além do desafio de encarar as mudanças corporais e a avalanche de desejos e novas experiências, construir-se e posicionar-se sexualmente como homem e mulher é um desafio e tanto na adolescência. Principalmente porque a sexualidade não é constituída apenas de determinantes biológicos, mas por um complexo de marcas culturais, sociais e econômicas. O adolescente aprende com o meio o que é esperado dele na relação com o outro.

Como meninos e meninas estão formando a própria identidade, é essencial eles confrontarem as ideias que têm sobre o comportamento de homem e de mulher (o que inclui, em muitos casos, contestar até o modelo dos pais, geralmente considerado perfeito durante a infância). Freud escreveu que é essa nova significação de papéis, com a adoção de outros modelos de identificação fora da família, que consolida a sexualidade de cada um. Na vida real, isso pode provocar grande ansiedade, pois novas referências podem se chocar com os antigos e criar contradições difíceis. É a luta entre o que o adolescente quer ser (como homem e mulher), a autoridade que ele efetivamente dispõe para se tornar isso (já que ainda não é totalmente independente) e o que se espera que ele seja (na família ou na comunidade).

Daí a importância de a escola ensinar a questionar os estereótipos atribuídos ao comportamento sexual masculino e feminino. Por isso, de nada adianta apenas defender que é essencial usar camisinha - mas deixar que os alunos falem mal das meninas que andam com preservativos. Da mesma forma, não vale só mencionar a ejaculação precoce - e se esquecer de abordar a cobrança que pesa sobre os homens, que precisam "provar" sua virilidade. "Despejar informações sobre sexo seguro é pouco para conscientizar os jovens e garantir que terão uma vida sexual saudável. Pesquisas mostram que eles sabem que têm de usar camisinha, mas não a usam. Daí a necessidade de conversar, de fazê-los pensar", diz Mônica Maia, especialista em Educação Sexual.

Enfim, falar sobre sexualidade exige exercitar a tolerância, o acolhimento ao outro e o olhar para si mesmo. Como disse o educador Paulo Freire (1921-1997): "A sexualidade, enquanto possibilidade e caminho de alongamento de nós mesmos, de produção de vida e existência, de gozo e boniteza, exige busca de saber de nosso corpo. Não podemos viver autenticamente, no mundo e com o mundo, se nos fechamos medrosos e hipócritas aos mistérios de nosso corpo ou se os tratamos cínica e irresponsavelmente".

* Os destaques desta reportagem trazem depoimentos por um programa de troca de mensagens instantâneas pela internet de alunos do 9º ano da EMEF Victor Civita, em São Paulo. Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Quer saber mais?

CONTATOS
David Léo Levisky
Mônica Maia
Tiago Corbisier Matheus

BIBLIOGRAFIA
Adolescência - Clínica Psicanalítica
, Tiago Corbisier Matheus, 356 págs., Ed. Casa do Psicólogo, tel. (11) 3034-3600, 57 reais
Adolescência - Reflexões Psicanalíticas, David Léo Levisky, 320 págs., Ed. Casa do Psicólogo, 51 reais
A Atualidade da Psicanálise de Adolescentes, Roberto B. Graña e Angela B. S. Piva, 331 págs., Ed. Casa do Psicólogo, 83 reais
Conversando com o Adolescente sobre Sexo - Quem Vai Responder?, Gerso- Lopes e Mônica Maia, 128 págs., Ed. Autêntica, tel. 0800-2831322, 30 reais
Psicanálise e Sexualidade, organizado pela Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, 182 págs., Ed. Casa do Psicólogo, 33 reais

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