Um livro inesquecível

Alunos do Maranhão usam textos informativos, procedimentos de pesquisa e conteúdos de Ciências para fazer uma enciclopédia

POR:
Ricardo Prado
Alunos da Anjo da Guarda, 
ao lado da professora 
Maria José, exibem a en-
ciclopédia feita por eles: 
autores orgulhosos

Quem aprende a pesquisar, cedo descobre que precisa de livros. E muitos, pois é da natureza das pesquisas ter as informações dispersas em várias fontes. Mas o que fazer quando eles não existem? A Unidade Escolar Anjo da Guarda, localizada no bairro do mesmo nome, na periferia de São Luís, é pequena, extremamente abafada e não possui biblioteca. Sem ela, os 28 alunos de 4ª série viram-se perdidos quando a professora Maria José Rodrigues Nascimento decidiu realizar um projeto pedagógico sobre animais brasileiros ameaçados de extinção. Onde encontrar as informações? Se isso representava um problema, a solução começou a se desenhar no próprio entusiasmo da classe com a proposta. As crianças adoraram saber que, no fim do trabalho, cada uma teria uma enciclopédia inteiramente feita por elas.

1. A coleta de informações

A primeira alternativa à falta de material pensada por Maria José e sua colega de projeto, a professora Célia Maria Costa Ribeiro, foi recorrer à biblioteca pública do bairro Anjo da Guarda, o Farol da Educação. Muitos alunos da escola já faziam uso regular dela e se prontificaram a pesquisar o tema. Nova decepção. Alguns poucos livros didáticos de Ciências, informações esparsas em enciclopédias e nada que pudesse se transformar numa lista de animais. Maria José levou a turma para uma unidade maior, no centro da cidade, onde mais informações foram colhidas. Ela também conseguiu, junto ao escritório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), uma lista da fauna local ameaçada. Desta vez, a informação era específica demais.

Por fim, alguém encontrou o livro paradidático 100 Animais Brasileiros, da Editora Moderna, que serviu como ponto de partida graças a um carimbo que identifica os bichos conforme o risco da espécie desaparecer.

Na semana seguinte, eles prosseguiram com a pesquisa e as professoras puderam observar uma mobilização diferente das crianças. Uma delas trouxe notícia sobre um animal quase extinto, vista num programa de televisão. Outra conseguiu na internet uma lista de espécies brasileiras ameaçadas. Uma terceira sugeriu chamar o vereador Pedro Celestino, do Partido Verde, para uma palestra. Como especialista na questão ambiental, ele poderia ajudar com livros e informações.

Maria José aproveitou a oportunidade para ensinar como se redige uma comunicação formal e os próprios alunos redigiram coletivamente o convite ao parlamentar. Perceberam, na prática, a diferença entre ele e um bilhete para a mãe, por exemplo. Pedro Celestino aceitou o pedido rapidamente e compareceu à escola para um bate-papo. Estava descoberta pelos alunos a função social da carta. Graças a ela, a turma conseguiu trazer uma pessoa importante da comunidade para ajudar no do projeto.

2. Leitora e escriba

O tipo de texto usado em enciclopédias exigiu muita atenção dos alunos e das professoras. Ao ler os verbetes "difíceis" das obras desse tipo, Maria José e Célia chamaram a atenção para o uso de termos específicos, como habitat ou tempo de gestação, e o estilo impessoal e pouco adjetivado dos textos informativos. O trabalho de redação dos verbetes escolhidos pela turma começou com um animal bastante conhecido de todos: a onça-pintada. O primeiro passo consistiu em fazer uma lista com o que as crianças já sabiam sobre ela; depois, o que gostariam de saber e, por fim, onde procurariam essas informações.

Após o trabalho de pesquisa realizado pelos estudantes com os recursos possíveis, Maria José atuou como escriba. "Pegava um grande papel pardo, colava no quadro-negro e eles falavam tudo o que sabiam sobre o animal. Eu escrevia sem filtrar nem selecionar nada. No dia seguinte fazíamos a revisão coletiva em outra folha de papel", relata a professora. Agindo assim, ela deixou que a criançada percebesse a repetição de palavras e conceitos (um dos problemas mais comuns para quem escreve os primeiros textos informativos), argumentasse entre si qual o encadeamento ideal de frases para formar um conjunto consistente. O mesmo procedimento de sucessivas operações de revisão e reescrita foi feito por duplas de crianças, cada qual trabalhando em seu caderno.

A educadora Maria Esther Soub, que coordenou a implantação do projeto em São Luís, alerta para o risco de, nesse momento, descaracterizar a produção do aluno em busca de um texto ideal. "Depois de conhecer alguns modelos por meio de pesquisas ou da leitura em classe, há um esforço da criança para se aproximar desse ideal. É claro que dificilmente ela consegue na primeira tentativa. Cabe ao professor mostrar aquilo que foge às características do texto informativo sem que a produção perca a cara do aluno", adverte. Ou seja, o pequeno autor deve escrever textos dentro de suas capacidades, pois é importante que ele reconheça o livro como obra dele e dos colegas, absorvendo inclusive as eventuais dificuldades, tais como a falta de material de pesquisa. 

 3. O desenho faz parte

A classe decidiu que os doze animais selecionados seriam desenhados por todos. Na fase de preparação dos originais, reproduzidos em fotocópia, Célia e Maria José escolheram as melhores ilustrações para o livro. Se essa seleção tivesse sido feita pelas próprias crianças, seria outra boa oportunidade de construção da autonomia. Mas é natural que profissionais que nunca trabalharam com projetos didáticos tendam a concentrar as decisões. Leva tempo para perceber que os alunos conseguem também estabelecer critérios bem consistentes na hora de selecionar e editar o material produzido por eles mesmos. "Pena que estou me aposentando, pois vi que tenho muito ainda a aprender", lamentou Célia, ao avaliar sua primeira experiência com projetos. Para ela, o melhor de tudo foi ver que seus alunos adquiriram procedimentos de pesquisa que usarão por toda a vida.

4. Lapidação do texto

Foi também nessa fase de redação dos primeiros verbetes que ficou decidido que cada animal teria um pequeno quadro com informações técnicas e algumas curiosidades selecionadas, além do texto principal. Com poucos livros para consultar, o jeito foi dividir a classe em duas grandes equipes, em vez de grupos menores, que costumam ser mais produtivos. Uma turma estudava um animal e, na aula seguinte, passava oralmente as informações para a outra. Esta anotava e o texto servia de base para a reescrita coletiva. Depois, os papéis se invertiam.

Antes de partir para a redação final dos verbetes, as duas equipes realizaram uma exposição oral para a escola inteira. "Nesse momento reparei que as crianças perdiam a espontaneidade demonstrada na sala de aula e escolhiam cuidadosamente a palavra certa", lembra Malila da Graça Roxo Abreu, coordenadora local do Programa Escola que Vale. Mas a experiência serviu para que os estudantes percebessem como a expressão oral também encontra situações de formalidade, exatamente como a escrita.

5. Avaliação permanente

Montagem das páginas da mini-enciclopédia: 
autonomia das crianças na busca de informa-
ções ajuda o professor na hora de avaliar o 
desempenho de cada uma

Como avaliar um projeto? O ideal é que a avaliação aconteça em todas as etapas do projeto. "Só que geralmente as escolas têm um processo de acompanhamento já cristalizado e o mais comum é fazer uma transferência desse modelo para os projetos didáticos", afirma Maria Esther Soub. Ela indica a melhor forma de avaliar durante um projeto: "Primeiro, uma avaliação diagnóstica, para levantar o que as crianças sabem. Depois, a etapa da avaliação formativa, feita continuamente, para verificar se os conteúdos previstos estão sendo compreendidos. Por fim, a avaliação somativa, que leva em conta a participação durante todo o processo e o produto final e pode incluir até uma prova", resume a educadora. "Mas não se deve perder de vista o contexto social em que o aluno está inserido. Se ele não traz pesquisa pode ser que simplesmente não tenha livros em casa. Sendo assim, não pode ser avaliado por isso", alerta Maria Esther, que assessora o Projeto Axé, na Bahia, e enfrenta esse tipo de carência.

Foi assim que docentes e estudantes conseguiram driblar a falta de infra-estrutura, gerando um belo livro. Os requintes de acabamento, como capa dura e miolo costurado, são resultado de uma oficina de encadernação oferecida pelo Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária (Cedac), organização não-governamental que implementou o projeto com a Fundação Vale do Rio Doce.


6. Erros e acertos

Com as páginas fotocopiadas e já encader-
nadas, um estudante colore um dos exem-
plares, para trocar com um colega: trabalho
 coletivo até o final do projeto

Terminado o livro, cada um pegou um exemplar para colorir. Não seria o que levaria para casa, pois até a última fase o trabalho continuou na base do "todos por um".

Como todo projeto, esse também teve falhas. A que as professoras mais lamentaram foi esquecer de colocar os nomes dos alunos no livro. "Eles teriam ficado muito contentes se pudessem ler seus nomes no livro que fizeram", admite Malila. Já o maior acerto ainda está por acontecer. As duas turmas descobriram que precisam ter uma biblioteca escolar, direito básico de quem precisa e quer aprender. Lamentavelmente, a mesma carência da unidade maranhense se repete para 15 dos 35 milhões de crianças do Ensino Fundamental, segundo o último censo escolar. Quando a batalha por estantes cheias estiver concluída na escola, a mini-enciclopédia terá lugar de destaque. Mas o mais importante é que se formou, junto com aquele livro, a preciosa idéia da cidadania. Afinal, quem luta por seus direitos mostra que aprendeu bem a lição. 

Quer saber mais?

Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária, R. Gonçalo Afonso, 47, CEP 05436-100, São Paulo, SP, tel. (11) 3097-0523

Oficina das Artes do Livro, R. Aspicuelta, 145, CEP 05433-010, São Paulo, SP, tel. (11) 3812-2051

Unidade Escolar Anjo da Guarda, R. Guadalupe, Quadra 49A, s/nº, CEP 65085-000, São Luís, MA

BIBLIOGRAFIA
100 Animais Brasileiros, Luiz Roberto de Souza Queiroz, 112 págs., Ed. Moderna, tel. (11) 6090-1300, 21 reais 

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