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O que muda no ensino de Ciências com a BNCC?

Organização de conteúdos é uma das principais novidades. Veja:

Autor: Rosi Rico

Ao estudar a BNCC de Ciências, você vai perceber que há novos nomes para os eixos temáticos que organizam os conteúdos do componente curricular. Mas a mudança vai além da nomenclatura. O documento deixa mais clara a proposta de progressão da aprendizagem, com as habilidades sendo desenvolvidas ano a ano, com grau crescente de complexidade em todo o Ensino Fundamental. Em termos conceituais, muitos dos pressupostos que existiam nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) foram mantidos, mas com ênfase e detalhamento diferentes.


 Anote: a Base propõe que crianças e jovens tenham acesso à diversidade de conhecimentos científicos produzidos ao longo da história
. Mas a ideia não é a de simples assimilação de conteúdos.


O objetivo principal é proporcionar aos alunos o contato com processos, práticas e procedimentos da investigação científica para que eles sejam capazes de intervir na sociedade. Neste percurso, as vivências e interesses dos estudantes sobre o mundo natural e tecnológico devem ser valorizados.



O que mudou: unidades temáticas


Na BNCC, a organização se dá em três unidades temáticas:

 Matéria e Energia
 Vida e Evolução 
 Terra e Universo

O ensino de ciências alinhado à Base será feito em torno de três unidades temáticas que se repetem ano a ano. Cada uma é estruturada em um conjunto de habilidades cuja complexidade cresce progressivamente ao longo do tempo. Essa opção resultou, por exemplo, em uma distribuição mais equilibrada entre conteúdos tradicionais do componente curricular. Antes, o foco em Biologia era maior, com Física e Química sendo abordadas, com maior frequência, apenas nos anos finais do Fundamental. Agora essas áreas das Ciências estão distribuídas nas unidades temáticas e são trabalhadas em todos os anos da escolaridade. A seguir, entenda o que é esperado que os alunos desenvolvam.

O documento propõe uma mudança de paradigma, com um trabalho em espiral, em que os eixos se repetem a cada ano, com a indicação de uma progressão da aprendizagem no conjunto de habilidades propostas. O objetivo é facilitar a compreensão, com os conceitos sendo construídos gradativamente, com complexidade maior ano a ano, conforme avança o desenvolvimento e a maturidade dos alunos. Assim, o estudante, que antes tinha contato com conteúdos que agora compõem a unidade temática Matéria e Energia apenas no 5º ano – para depois voltar a estudá-los somente no 9º ano –, agora aprende as noções mais básicas da área desde os primeiros anos do Fundamental. A expectativa é de que, dessa maneira, quando as fórmulas e cálculos forem apresentados, no Fundamental 2, ele já esteja familiarizado com o fundamento desses conteúdos. O mesmo ocorre com os demais eixos.  

Vale lembrar que a BNCC propõe uma integração entre as unidades temáticas, o que fica claro quando determinados temas aparecem nos três eixos. É o caso de sustentabilidade socioambiental. O próprio documento indica que, para a compreensão completa do tema, “os alunos devem entender a importância da biodiversidade para a manutenção e equilíbrio dos ecossistemas, ser capazes de avaliar hábitos de consumo que envolvam recursos naturais e artificiais e identifiquem as relações dos processos atmosféricos, geológicos, celestes e sociais com as condições necessárias para a manutenção da vida no planeta”.



Como era

Os PCN traziam indicações de divisão por blocos temáticos: Ambiente, Ser Humano e Saúde e Recursos Tecnológicos. Os três deveriam ser trabalhados em todo o Ensino Fundamental. Havia um quarto bloco, Terra e Universo, que entrava apenas a partir do então chamado terceiro ciclo – o equivalente ao atual Fundamental 2. Vale observar que no documento referente aos terceiro e quarto ciclos, havia diferenças na nomenclatura de dois blocos: Ambiente passava a ser “Vida e Ambiente” e “Recursos Tecnológicos” ganhava o nome de “Tecnologia e Sociedade”.

Na prática, a maior parte das escolas e os livros didáticos os distribuiam de maneira linear e isolada, com um assunto sendo abordado inteiro de uma vez. Em geral, o 6º ano trabalhava Terra e Universo, o 7º, Seres Vivos e o 8º, Corpo Humano e o 9º Matéria e Energia, por exemplo.



Objetos de conhecimento e habilidades

  • Além dos eixos estruturantes do documento, é preciso entender as demais divisões. Os objetos de conhecimento são grandes guarda-chuvas que, debaixo deles, se agrupam diferentes habilidades que mobilizam conteúdos específicos. Eles indicam o que o aluno precisa saber ao final daquela aula, sequência didática ou atividade.
  • As habilidades são as aprendizagens ou conhecimentos essenciais esperados para cada disciplina e ano. Dentro das habilidades, vale destrinchar como está estruturado o conteúdo:
  • O verbo inicial explica a ação ou o que o estudante precisa FAZER (aprendizagem efetiva) e o processo cognitivo envolvido na habilidade. O complemento do verbo explicita o objeto de conhecimento (conteúdos, conceitos e processos a ser aprendidos) mobilizado na habilidade. O modificador do verbo (em geral é a continuação da frase) traz informações sobre o contexto da aprendizagem esperada, especificando ainda mais do que se trata. Em suma, as habilidades respondem às seguintes perguntas: Qual o fazer? Com que objeto? De que forma? Como esse fazer contribui para a aprendizagem?

Exemplo

Ano: 3º ano

Objeto de conhecimento: Saúde auditiva e visual

Habilidade: (EF03CI03) Discutir hábitos necessários para a manutenção da saúde auditiva e visual considerando as condições do ambiente em termos de som e luz.

O verbo escolhido é “discutir”, o que indica a expectativa de que a aprendizagem proposta ao aluno faça com que ele seja capaz de levantar, analisar e debater informações. Neste caso, sobre o que pode prejudicar a visão e a audição, bem como sobre o funcionamento desses sentidos (complemento). O contexto da discussão é a exposição do indivíduo ao som e a luz (modificador).

Faça o download do documento da BNCC



 Nem tudo mudou. Veja alguns dos pressupostos dos PCN foram mantidos na BNCC:

  •  A concepção do estudo de Ciências como um conhecimento que fornece elementos para a compreensão do mundo e de suas transformações;
  • A percepção de que o componente colabora para o aluno entender a importância de cuidar e respeitar o próprio corpo, bem como o dos outros, considerando a saúde como um valor pessoal e social;
  • O pressuposto de que as ideias e vivências prévias dos estudantes são importantes no processo de aprendizagem;
  • A ênfase na necessidade de crianças e jovens entenderem a dimensão ética das Ciências, o que inclui avaliar e debater o impacto das ações do homem na natureza. 

MAIS:
A BNCC também propõe uma ênfase na abordagem investigativa, ou seja, o conhecimento deve acontecer por meio da observação, comparação e confronto de oposições e não apenas pelas aulas expositivas. Clique para entender.


Foto: GettyImages.