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Jornalismo

Cartões-postais transformam aulas

Ao trocar correspondências, brasileiros aprimoram saberes sobre a língua inglesa

PorPriscilla Cardoso

14/08/2015

Promover a aprendizagem de um idioma por meio de situações reais de comunicação é uma das maneiras mais eficazes para aprimorar o conhecimento da língua em todas as suas dimensões. "Isso acontece porque essa forma de estudo 'verdadeira' desperta e faz crescer o interesse do aluno, levando-o a interagir de forma intensa. O resultado disso é o aumento substancial da aquisição de competências de uso do idioma. Na troca de mensagens, o aprendiz amplia seu repertório de palavras, sentenças e modos de estruturar o discurso em gêneros", explica José Carlos Almeida Filho, professor de pós-graduação em Línguas pela Universidade de Brasília (UnB).

Foi pensando nisso que a professora Amanda Gabriele do Pilar Silva, do Colégio Estadual Professora Carmen Costa Adriano, em Paranaguá, a 90 quilômetros de Curitiba, desenvolveu o projeto Collecting Postcards - que promoveu a troca de cartões-postais e cartas entre os alunos do 9º ano e estudantes de outros países que também têm o inglês como língua estrangeira. 

Tudo começou quando a docente cadastrou seu trabalho no site Epals, uma rede de relacionamento gratuita entre escolas, professores e alunos de todo o mundo, e convidou alguns profissionais para participar do projeto. Sylwia Tomas, do colégio Zespol Szkol Wola Mielecka, em Mielec, na Polônia, foi a primeira integrante a se interessar em articular a comunicação de sua turma com os jovens brasileiros. 

Depois de trocarem informações e acertarem detalhes das tarefas por e-mail, as educadoras apresentaram a proposta à classe. Eram os estudantes brasileiros que deveriam iniciar as produções e enviá-las aos poloneses para, então, receberem suas respostas. Para isso, Amanda compartilhou com os jovens uma lista com nome, idade e sexo dos destinatários e deixou que cada um escolhesse para quem gostaria de escrever. "Sabia o potencial dos meus alunos e o interesse que tinham em atividades de comunicação. Eles se dedicaram muito durante a execução de todo o trabalho", conta a professora.

Foco na escrita dos postais 
Como muitos adolescentes relataram nunca terem visto um cartão-postal, a docente apresentou a estrutura e a forma de escrita desse tipo de material. Ela reuniu uma coleção de cartões de Paranaguá e de outras regiões do mundo, e a expôs em sala. Com o intuito de se familiarizarem ainda mais com o tema, os jovens criaram modelos de cartões nos próprios cadernos. 

Para que conhecessem um pouco o país de destino das produções, Amanda compartilhou informações e fotos, e promoveu uma discussão acerca das diferenças culturais de ambas as nações, fuso horário e sistema de ensino escolar. "A carga horária de período integral no colégio Zespol foi o que mais chamou a atenção dos estudantes. Por ser uma realidade muito diferente da que vivem, eles disseram achar excessivo o tempo que os colegas passam em sala de aula", relembra. 

As aulas seguintes foram integralmente dedicadas à escrita das mensagens para seus correspondentes. "Exercícios que se prolongam são sempre positivos. Isso porque a construção do conhecimento demanda tempo e requer diversas atividades", explica Maria Cardoso Senatore, mestre em Língua e Cultura Italiana pela Università degli Studi di Milano (Unimi), na Itália. 

De forma individual e com o apoio de um dicionário inglês-português, os alunos escreveram frases e textos sobre assuntos variados, como características da cidade, hobbies, família, amigos e futebol. Nesse momento, Amanda permitiu que os adolescentes se deslocassem na sala, a fim de colaborar ou pedir ajuda para os colegas. Segundo Maria, essa relação é sempre muito positiva para o aprendizado. "A interação está na base de uma abordagem linguística voltada para o mundo real. Ela cria um ambiente colaborativo, tranquilo, onde os alunos se sentem seguros, pois se confrontam com seus iguais e não apenas com o professor, enquanto detentor do saber." 

Durante a tarefa, a docente circulou pela sala observando o desempenho dos estudantes, esclarecendo dúvidas e ajudando-os a reestruturar os textos sempre que necessário. Nesse momento, a correção minuciosa dos erros não era o foco. "Meu objetivo era que eles se fizessem entender escrevendo e que compreendessem a importância do inglês como uma ponte para o contato com outra cultura", explica a educadora. 

Com os materiais prontos e postados pela escola (veja algumas produções ao longo da reportagem), teve início um breve tempo de espera pelas respostas. Nesse período, Amanda aproveitou para trabalhar textos em inglês sobre o colégio polonês e o país. Ao longo de todo o projeto, conteúdos importantes da língua inglesa também foram lembrados e internalizados pelos alunos, como as formas de cumprimento, despedida e apresentação, tempos verbais e estruturas interrogativas (what, why, who e when) necessárias para formar questões sobre a cultura e as curiosidades do país de correspondência.
 


A réplica polonesa 
Euforia em sala: após cerca de 15 dias, as respostas dos jovens poloneses chegaram. A professora distribuiu as correspondências e pediu para que cada aluno fizesse a leitura individualmente. Os adolescentes precisavam entender qual era o conteúdo do material, se havia algum vocabulário novo e quais erros gramaticais eles conseguiam identificar e corrigir. "Esse momento foi essencial para observar a evolução dos jovens. A maioria passou a ter mais interesse no aprendizado da língua e facilidade na hora de entender o contexto", relembra Amanda. 

Para que o contato entre os alunos pudesse ser fortalecido e o idioma aprimorado de forma contínua, as educadoras criaram uma página no Facebook, exclusiva para a interação deles. "Muitas pessoas acreditam que as redes sociais sejam um espaço apenas de frivolidades. Na verdade, elas podem se transformar numa verdadeira extensão da sala de aula", afirma Maria. 

Ao término das atividades, os jovens reconheceram que estudar inglês pode ser uma experiência enriquecedora. "A aprendizagem de línguas está muito relacionada com diplomacia cultural, pois nos tornamos pessoas globais, distanciadas do paroquialismo e de posições centristas. Comunicar-se em outros idiomas nos dá equilíbrio emocional e nos faz sentir como é viver outras vidas em outros lugares", conclui Almeida Filho. 

O projeto fez tanto sucesso que foi estendido: uma nova etapa da troca de correspondências teve início no semestre seguinte com a turma de Nandita Sarkar, docente da Mahadevi Birla World Academy, localizada na cidade de Calcutá, na Índia. Depois, foi a vez de Chie Sato, professora da escola Yamamoto Gakuen High School, em Yamagata, no Japão, promover a troca de correspondências com os jovens brasileiros.

Resumo

1 Comunicação real Aprofunde o ensino de língua estrangeira colocando os alunos em contato real com o idioma. Isso pode acontecer por meio da troca de correspondências com estudantes do mundo todo. 

2 Escrita e interpretação Proponha que os jovens criem os próprios textos e tentem entender o conteúdo das respostas recebidas, solicitando o apoio de colegas sempre que sentirem alguma dificuldade. 

3 Prática contínua Estimule os estudantes a permanecer mantendo contato com seus correspondentes mesmo após o término das atividades.Isso permitirá que eles avancem continuamente no aprendizado da língua.

 

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