Da ética como método de trabalho

A escola deve reforçar as qualidades sem as quais ninguém consegue sobreviver no mundo contemporâneo, diz o filósofo espanhol

POR:
Paola Gentile

FERNANDO SAVATER  "Em momento algum o professor pode duvidar que o ser humano é perfeito e que tem capacidade infinita de aprender". Foto: Rogério Albuquerque

Para quem concorda com Caetano Veloso que só é possível filosofar em alemão, aí vai uma surpresa: é um espanhol quem vem agitando a bandeira da Filosofia contemporânea. Com um discurso mais coloquial que doutrinário, Fernando Savater tem contribuído para tornar um pouco mais acessíveis as discussões antes restritas aos... filósofos!

Savater é professor de Ética na Universidade de Madri e, além de estudar os significados da razão, do tempo e da morte alguns dos assuntos prediletos de seus colegas , ele tem outra preocupação: a Educação. "Refletir sobre a finalidade do ensino é pensar sobre o destino do homem e sobre o lugar do humano na natureza", defende.

Ele não se considera filósofo (prefere professor), mas é assim que acadêmicos e críticos literários o tratam, comparando sua obra com a de importantes nomes da área, como a do também espanhol Ortega y Gasset e a do francês Jean-Paul Sartre. Savater fundou o movimento Basta Ya! em seu país, que combate as práticas violentas do grupo separatista basco ETA. Por essa iniciativa, recebeu em 2000 o Prêmio Sakharov de Direitos Humanos do Parlamento Europeu. Com mais de 40 livros publicados (apenas sete deles traduzidos para o português), ele esteve pela primeira vez no Brasil em novembro do ano passado. Nesta entrevista, mostra como levar a Filosofia para a sala de aula e defende a ética como o único caminho possível para uma vida melhor e mais humana.

NOVA ESCOLA -  No livro O Valor de Educar o senhor fala que ensinar é uma "empreitada titânica". Em sua opinião, por que essa profissão é tão difícil?
Fernando Savater -  Freud dizia que existem três tarefas impossíveis: educar, governar e fazer psicanálise. As três, bem ou mal, são realizadas diariamente. Mas creio que a educação é a que mais nos preocupa, pois falar sobre ela significa refletir sobre o destino do homem, nosso lugar na natureza e a relação com nossos semelhantes. Somos tão exigentes com a educação quanto somos com a democracia: mesmo funcionando bem, achamos que sempre poderia ser melhor. A complexidade do lecionar está na sua essência. Não é fácil ajudar os alunos a organizar as informações e as visões multiformes, a lutar contra algumas delas e a tornar outras proveitosas e tudo isso tomando o cuidado de não impor o próprio ponto de vista. É preciso ainda instigar um certo ceticismo científico e tirar a aura de definitivo que os conteúdos das disciplinas possuem. O professor também é cobrado pela sociedade na resolução de boa parte dos problemas sociais, como a violência e a intolerância. É árduo, não?

NE -  Como é possível fazer com que o aluno forme opiniões próprias sem influência do mestre?
Savater -  Não se pode simplesmente ensinar a pensar. É preciso ensinar a pensar sobre o que se pensa, sobre a importância ou não daquele assunto, sua pertinência, sua validade. Refiro-me à necessidade de reflexão, pois é isso que nos faz diferentes de outras espécies. Fazendo isso, o professor estará desenvolvendo o senso crítico da turma e contribuindo para sua formação política, que é uma das maiores colaborações que ele pode dar à nação. Incentivar a reflexão é formar cidadãos participativos e críticos, que saibam utilizar as instituições democráticas e usufruí-las bem. As escolas deveriam todas pregar em suas portas as palavras do filósofo espanhol Jaime Balmes: "A arte de ensinar a aprender consiste em formar fábricas, não armazéns".

NE -  O senhor defende uma neutralidade do docente em relação aos problemas que se apresentam e aos temas que são debatidos na escola?
Savater -  Não acredito em imparcialidade nem em indiferença. É preciso assumir posições, sempre. Mas não se deve esquecer que elas podem ser expostas, discutidas e modificadas. O professor deve ser esse fomentador, mostrando ao grupo como participar de controvérsias e como buscar posições que não tenham dono. Ele pode ser um exemplo, tendo firmeza em suas posições, mas mostrando-se disposto a debatê-las e a transformá-las ao final de cada aula.

NE -  Muitos professores acreditam que crianças que questionam e os colocam contra a parede são indisciplinadas, arrogantes ou mal-educadas...
Savater -  A insolência faz parte do processo de aprendizado, pois revela que a criança tem espírito crítico, que não toma tudo como verdade, que desconfia de posições... Isso deve ser respeitado sempre. Não é o mesmo que arrogância nem pode ser confundido com brutalidade. É somente uma tentativa de a criança ensaiar a própria autonomia de pensamento.

NE -  Além dessas responsabilidades citadas, o professor hoje também é chamado a assumir parte da formação dos alunos no que tange a valores pessoais . Essa é mais uma faceta dessa "empreitada titânica"?
Savater -  Sem dúvida. Junto com a escola, ele é hoje o encarregado de formar a consciência social e moral das crianças, tarefa antes de responsabilidade da família. E aí tudo fica mais complicado, porque os valores já não são únicos. A sociedade não tem certeza sobre o modelo que quer para essa formação. A educação deve, portanto, reforçar algumas qualidades sem as quais não se sobrevive no mundo contemporâneo, como a autonomia pessoal, a busca do conhecimento verdadeiro, a generosidade e a coragem.

NE -  Como é possível se preparar para toda essa tarefa?
Savater -  A formação é fundamental. Infelizmente e esse é um paradoxo que ocorre em todos os lugares , as pessoas acreditam que ensinar crianças é simples, que qualquer um pode fazer. Acham que o difícil é formar adultos, que são eles que precisam de mais atenção. É justamente o contrário! A educação dos primeiros anos deve ser a mais completa! É aí que devem estar os melhores profissionais, os mais experientes, os mais bem formados. Se essa educação inicial da criança é boa, todo o processo de aprendizagem torna-se mais fácil. Tudo o que somos bom ou mau jornalista, bom ou mau político, bom ou mau escritor deve-se em grande parte aos professores primários que tivemos. Muito pouco se pode fazer se eles não realizaram bem sua tarefa...

NE -  Que características são indispensáveis para quem quer trabalhar nos anos iniciais da educação da criança?
Savater -  O mais importante é ser otimista, e isso em qualquer nível de ensino. Costumo dizer que os pessimistas só servem para ser bons domadores, nunca bons professores! É preciso acreditar e não duvidar nunca que o ser humano é perfeito, que ele tem uma capacidade ilimitada de aprender, nascida com ele. Ao mestre cabe fomentar esse desejo de saber e mostrar que podemos sempre ser melhores à medida que adquirimos mais conhecimentos. Devemos ter humanidade, capacidade de respeitar e uma alegria cidadã contagiosa. Isso será repassado às crianças.

NE -  Conhecer a ética e seus princípios ajuda a viver dentro desse otimismo?
Savater -  Com certeza. É preciso acreditar que é possível alcançar uma vida melhor. Mas não qualquer vida: é preciso ser uma vida humana, com boas relações com outros seres humanos. Caso contrário pode até ser vida, mas não chegará a ser boa nem humana. É disso que trata a disciplina que ministro na universidade. É isso que os professores podem mostrar a seus alunos desde pequenos.

NE -  Qual a melhor maneira de discutir ética com crianças?
Savater -  Na infância, os exemplos e as atitudes são fundamentais. Nessa idade é possível aprender a refletir com pequenos exemplos e narrações que abordem problemas éticos: como se pensa sobre determinado assunto, como se resolve algumas questões. Dessa forma se introduz o princípio de que ética não é imitação de condutas nem pode ser confundida com moral. Moral é um conjunto de comportamentos e normas que você, eu e outras pessoas costumamos aceitar como válidos. Ética, ao contrário, é a reflexão sobre por que consideramos válidos alguns comportamentos e outros não, é a comparação com outras morais, de outras pessoas e culturas.

NE -  A ética deve ser ensinada na escola?
Savater - Não há consenso sobre isso. Alguns acreditam que os valores éticos devem ser transversais a toda a educação, que não deve haver uma disciplina específica e que todos os professores devem dar o exemplo e fazer reflexões com as turmas. Eu creio que a Filosofia como um todo deva ter um lugar específico no currículo para crianças a partir dos 12 anos. Mas não começando por Aristóteles, Platão e suas obras. Todos se perguntarão, com razão, o que tudo isso tem a ver com eles... Primeiro devemos falar de problemas. Levantar as questões que estão na nossa alma e no mundo que nos cerca, as certezas e as incertezas... E quando eles ficarem interessados, aí sim podemos falar sobre o que Aristóteles, Platão, Spinoza e tantos outros pensavam sobre o assunto. Mas primeiro os estudantes têm de ficar instigados, curiosos.

"A ética nada mais é do que uma tentativa racional de procurar viver melhor de forma humana, com outros humanos"

NE -  Nas faculdades de Filosofia brasileiras o senhor é estudado como o único filósofo vivo. Todos os outros analisados não são nossos contemporâneos. A Filosofia está caindo em desuso nos dias de hoje? As pessoas não se interessam pelas questões filosóficas?
Savater -  Antes de tudo, devo esclarecer que não me considero filósofo. Sou professor, com muito orgulho. Mas creio que todos, inclusive os jovens, se interessam por problemas filosóficos, ainda que não saibam disso. Nunca conheci alguém que não gostasse de discutir e pensar sobre a liberdade, de tentar entender o amor, de procurar saber o que é o tempo e como é nossa relação com ele... A surpresa está em apontar que é justamente disso que se ocupa a Filosofia.

NE -  Liberdade é um dos temas que interessam muito aos adolescentes. Como a escola deve trabalhar esse conceito com coerência?
Savater -  Na escola é possível indicar os usos responsáveis da liberdade e aconselhar a garotada a nunca renunciar a ela. Deve-se deixar claro que liberdade não é poder, pois muitas vezes acredita-se que ser livre é obter aquilo que se deseja a qualquer custo. É preciso haver união entre liberdade e responsabilidade, pois uma não existe sem a outra. A escola tem de mostrar as melhores maneiras de usar a liberdade, ressaltando a todo momento que fazer escolhas é a base da humanidade.

NE -  De que maneira a escola e os professores podem ter uma relação ética com os alunos?
Savater -  O respeito é fundamental. É preciso compreender o que é ser humano. O homem e a mulher são uma realidade biológica e natural, mas não se pode esquecer que também são fruto de uma realidade cultural. Nós não nascemos totalmente homens. Só nos tornamos humanos com a ajuda de outros humanos e na convivência com eles. É isso que precisamos aprender.

Quer saber mais?

Alguns livros de Fernando Savater editados no Brasil:
O Valor de Educar, 267 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (11) 3241-3677, 27,50 reais
As Perguntas da Vida, 222 págs., Ed. Martins Fontes, 21,50 reais
Ética como Amor Próprio, 317 págs., Ed. Martins Fontes, 32,50 reais

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