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Sete escolas, 41 turmas, quase mil alunos

A inacreditável rotina de uma "professora-táxi" é um alerta sobre condições de trabalho docente

POR:
Paula Peres, Patrick Cassimiro e Elisa Meirelles

Cinco da manhã de uma segunda-feira. Na pequena Carandaí, cidade horticultora a 136 quilômetros de Belo Horizonte, à beira da BR-040, Dayana Vieira de Rezende Silva, professora, 32 anos, pula da cama para mais uma semana de trabalho. Cena comum nos lares dos docentes brasileiros, não fosse uma particularidade: até o fim da semana, ela vai lecionar em sete escolas de três cidades diferentes. São 41 turmas, da Educação Infantil à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao todo, Dayana tem quase mil alunos. 

Os números impressionam, assim como a metódica organização da professora para dar conta de tudo. "Arrumo minhas coisas no domingo. Tenho uma bolsa para cada cidade, além de sacolas extras com roupas e comida. Deixo tudo no porta- malas do carro", conta à equipe de NOVA ESCOLA, que acompanhou de perto a rotina dela. 

Dayana é um caso extremo do grupo de educadores que trabalham em três ou mais escolas. São conhecidos como "professores-táxi", em referência ao grande número de viagens que precisam fazer ao longo do dia. Segundo dados do Censo da Educação Básica de 2013, esses profissionais correspondem a 4% dos docentes brasileiros. Parece pouco, mas estamos falando de mais de 84 mil pessoas que se desdobram entre uma escola e outra - e outra e mais outras.

"Arrumo as minhas coisas no fim de semana. Tenho uma bolsa para cada cidade, além de sacolas extras com roupas e comida."

Dentro dessa realidade, há profissionais que vivenciam diferentes regimes de trabalho. Alguns estão vinculados a uma única rede, mas, para cumprir a carga horária, precisam passar por várias instituições - situação recorrente entre professores de disciplinas que têm pouco espaço na grade. É o caso de Felipe Nunes, 30 anos, que leciona Educação Física na rede estadual de São Paulo. "Eu pretendia trabalhar em apenas uma escola, mas diminuíram o número de turmas que atendia. Fui obrigado a dar aula em outros dois locais na mesma região", conta ele. Mesmo atuando em instituições relativamente próximas, todas na zona sul da capital paulista, Nunes precisa usar o próprio carro para chegar em tempo. "Meus horários são picados: dou três ou quatro aulas em uma escola e, na mesma manhã, já preciso ir a outra. Se eu não tivesse carro, não conseguiria chegar." O veículo é particular e os custos são pagos pelo educador, que não recebe ajuda extra para manutenção ou seguro. 

Há também profissionais vinculados a mais de uma rede de ensino. Em geral, são educadores que buscam opções para complementar a renda e driblar a baixa remuneração. Dayana se encaixa nesse segundo perfil. Morando no interior de Minas Gerais, a professora de Arte é docente concursada em dois municípios e atua na rede particular. "Estudei Artes Plásticas em São Paulo, pois não havia esse curso em Carandaí, onde nasci. Quando me formei, voltei para casa e prestei concurso para as cidades próximas", conta ela. "Passei em Ouro Branco e comecei a lecionar. Fui chamada, depois, para a rede municipal de Conselheiro Lafaiete. Aceitei porque o salário adicional me ajudaria a conseguir minha independência financeira. Recentemente, ampliei meu escopo de trabalho ao assumir turmas de EJA pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), na cidade de Congonhas", conta a docente.

Permitido? Sim. Indicado? Não

No caso de Dayana, a carga horária de trabalho é de 45 horas por semana. Isso considerando só o período em sala de aula. O vaivém nas estradas chega a dez horas de segunda a sexta. E o tempo para planejar e corrigir atividades costuma consumir todo o seu domingo. Descanso, mesmo, só no sábado, quando dá. 

"Costumo chegar às escolas antes das aulas para me ambientar: lembrar onde estou, por quais salas vou passar, o que terei de trabalhar."

Para uma parcela dos educadores, prestar concursos para 20 horas semanais e acumular dois empregos é uma alternativa por vezes mais rentável. Há uma série de prejuízos nessa prática. O primeiro, de ordem pedagógica, diz respeito a não fixação em uma única escola, o que restringe a integração com os colegas docentes e os momentos de trabalho coletivo. O segundo relaciona-se à desvalorização da docência. "Pode-se falar em precarização da profissão, uma vez que não há expectativa de melhora do salário-base", alerta José Marcelino de Rezende Pinto, professor da Universidade de São Paulo (USP). Juridicamente, a situação dela é possível porque os professores têm o direito de assumir dois vínculos públicos de emprego, além das escolas particulares. "A regra é que você tenha apenas um cargo no setor público, mas a Constituição estabelece que, como professor, é possível acumular dois", explica Salomão Ximenes, docente da Universidade Federal do ABC (UFABC). 

Dayana e Nunes reconhecem que a situação em que estão não é ideal, mas foi a opção que encontraram para poder lecionar. "Só consigo dar conta de tantas escolas porque moro com meus pais, sou solteira e não tenho filhos. Se eu tivesse a responsabilidade de uma família, teria de diminuir o ritmo. Vou levando enquanto aguentar", conta a professora mineira. 

Bem-humorada, ela leva a pesada rotina com otimismo e ironiza: "Se dizem que você precisa ver o sol nascer pelo menos uma vez por ano para ser uma pessoa feliz, eu sou mais feliz que todas", afirma, fazendo referência ao horário em que precisa sair de casa diariamente para chegar em tempo às cidades em que trabalha. 

No dia mais intenso da semana, segunda-feira, a educadora levanta às 5 horas, passa por três cidades, leciona para turmas de Ensino Fundamental, vai para a Educação Infantil e termina a jornada somente às 9 da noite, quando acaba a última aula da turma de EJA. Como sai tarde, não tem tempo para voltar para Carandaí e pernoita na casa da avó de uma amiga, em Congonhas. A cidade fica a 30 minutos de Ouro Branco, onde precisa estar na manhã seguinte, logo às 7 horas. 

"Só consigo dar conta de tantas escolas porque moro com meus pais, sou solteira e não tenho filhos. Vou levando enquanto aguentar."

A rotina pesada, é claro, traz consequências. A professora costuma chegar às escolas antes das aulas para se ambientar: lembrar onde está, em quais salas vai passar e o que será trabalhado. A estratégia, no entanto, nem sempre funciona. "No final do ano passado, estava bem estafada e tinha de ir a Ouro Branco. No meio do caminho, comecei a seguir o fluxo dos carros sem me dar conta. Tive de parar para lembrar qual era o dia da semana e para onde eu precisava ir", revela. A correria é um pouco menos intensa nos outros dias e, duas vezes na semana, Dayana não dá aula de manhã. Mas engana-se quem pensa que é um momento de folga. "Às 7 horas, já estou corrigindo tarefas e preparando atividades", conta. 

O pouco tempo em cada escola atrapalha, também, a relação com os estudantes. "São muitas turmas, em diversos turnos. Recordar os nomes dos alunos é quase impossível. Infelizmente, não consigo." Ela desabafa: "Meus colegas falam das crianças e eu não faço ideia de quem sejam. Preciso pedir referências sobre características físicas ou o lugar onde sentam. Outras vezes, fico calada". 

Muito esforço e alguns prejuízos 

A relação com diferentes direções e coordenações pedagógicas é outra dificuldade. "Cada um tem a sua maneira de trabalhar. Enquanto uma gestora pede para receber atividades por e-mail, outra prefere encontros pessoais", explica Dayana. Para se organizar, ela mantém uma agenda completíssima e conta com um caderno para cada escola, onde anota como entregar o que precisa. Problemas semelhantes são enfrentados pelo professor Nunes, de São Paulo. Ele explica que a rotina picada prejudica sua formação. "Tenho Aula de Trabalho Pedagógico Complementar (ATPC) em duas das escolas em que leciono, mas não consigo participar das discussões de forma integral. Fico de fora de debates importantes, como o do projeto político-pedagógico (PPP)", reclama. O especialista Ximenes concorda que a ausência desses professores no debate é danosa à gestão democrática. O ideal, segundo ele, seria que o educador tivesse condições de se dedicar a uma única rede, com mais contato com os alunos. "Deveria haver mais estimulo à permanência em uma única rede e em uma única escola", diz.

"São tantos turnos, tantas turmas... Recordar os nomes dos alunos é quase impossível."

Mesmo com tanta disciplina e preparo, a educadora não esconde o cansaço. À espera da terceira aula do dia, sentada no banco em frente à sala, um profundo suspiro a denuncia. Apesar de conseguir equilibrar todas as responsabilidades, ela cogita, um dia, diminuir o ritmo. "Acho que poderia fazer um trabalho muito melhor se tivesse menos turmas, mas abrir mão de uma das redes não é uma decisão simples, depois que já assumi um compromisso. No momento, sei que estou fazendo o melhor que posso."

"Acho que poderia fazer um trabalho muito melhor se tivesse menos turmas, mas abrir mão de uma das redes não é uma decisão simples."